Sobre a obrigação de doar

Criança no lago

Temos a obrigação de ajudar quem mais precisa? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

O artigo Famine, Afluence and Morality (Fome, Riqueza e Moralidade, de 1972) foi muito influente no altruísmo eficaz. Nele, Peter Singer apresenta o famoso experimento mental da criança no lago. Outro texto muito importante para a fundamentação do movimento foi o livro Living High and Letting Die (Vivendo no Luxo e Deixando Morrer, de 1996). Nesse Peter Unger apresenta uma série de experimentos mentais para defender que temos a obrigação moral de ajudar quem sofre (e morre) de condições relacionadas à pobreza. A partir desses dois textos, o que fiz foi aplicar o experimento mental da criança no lago a situações que respondessem aos principais motivos que as pessoas apresentam para justificarem o fato de não fazer doações.

Parte 1 de 14

Um dos seus hobbies é correr. Como um amador, seu esforço para se aproximar dos seus ídolos acontece mais através da igualdade de equipamento do que de performance. Esta opção é mesmo mais realista. Sua última aquisição foi um par de tênis de última geração. Sua estreia vai ser numa volta pelo parque da cidade. Ao contornar o lago central você percebe uma criança se afogando. Você não sabe nadar, mas o lago é suficientemente raso para um adulto caminhar ali. As pedras cortantes do fundo não ameaçam quem está de tênis. Você entraria no lago para salvar a criança mesmo que isto custe seus tênis novos?

Parte 2 de 14

A unanimidade da opção por resgatar a criança sem pensar no par de tênis bem como a condenação de quem fizer o contrário revela um sentimento comum. O correto é salvar uma vida. Ademais, caso isso não nos traga prejuízos mais sérios, trata-se de uma obrigação. A dificuldade surge com a perda da unanimidade quando a hipótese vira uma situação real. A maioria de nós não costuma ter a oportunidade de salvar uma criança de um afogamento. Porém, o valor de um par de tênis caros tem o potencial de aliviar vários males gerados pela pobreza através da contribuição com programas de ajuda humanitária. Desse modo, é muito simples intervir. Aproximadamente um milhão e meio de crianças morre por ano de diarreia (naqueles casos em que o ‘aproximadamente’ equivale a tantas vidas que até pesa a consciência não computá-las). O tratamento por rehidratação oral (ORS) custa 10 centavos de dólares. Diante dessa informação não surge a sensação de que deveríamos fazer alguma coisa?

Parte 3 de 14

Mas talvez a gente concorde ser uma obrigação ajudar quem está morrendo bem na nossa frente mas não sinta que tenha tanta responsabilidade por alguém que esteja muito afastado. Essa é a situação da maioria das crianças que sofrem por causas ligadas à pobreza. Suponha então que o seu passeio pelo parque seja interrompido por um salva-vidas. Ele te aborda para dizer, com uma pressa controlada, que há uma criança se afogando do outro lado do lago. A situação acontece além do seu campo visual e auditivo, mas a sua contribuição é essencial. O salva-vidas precisa de ajuda para puxar uma corda e trazer a criança sã e salva até a margem. Alguém negaria essa responsabilidade? Um dos papeis do altruísmo eficaz é ser esse ‘salva-vidas’ que traz a notícia.

Parte 4 de 14

O que os olhos não veem o coração não sente. O sentimento desse ditado popular parece ser real e já ganhou até uma explicação biológica. A raça humana evoluiu vivendo em pequenos bandos, num contexto propício para a empatia local. Hoje em dia, no entanto, a situação é outra e a mudança é rápida. Cada vez mais temos plenas condições de saber — e intervir — em situações que acontecem do outro lado do mundo. Se biologicamente ainda nos falta o trato para lidar com essa novidade culturalmente a gente pode aprender. O que os olhos não veem o coração não sente mas a consciência considera. Mais de um milhão de pessoas morre cada ano de malária, doença erradicada no hemisfério norte, América do sul (praticamente) e Oceania. A melhor maneira de evitar a doença é dormir sob uma rede de proteção com inseticida (o mosquito ataca de 10 da noite às 2 da manhã) que custa 2-3 dólares e dura 3-4 anos. Custa pouco ajudar de longe.

Parte 5 de 14

Mas não é fácil assim suprimir os sentimentos. Quem concorda em ajudar, mesmo os que estão longe, ainda sente uma preferência por oferecer ajuda a algum dos seus, sejam estes conterrâneos, concidadãos, congregantes e etc. Trata-se de uma ótima escolha, digna de incentivo até, mas talvez não seja a mais eficaz. De volta ao exemplo do lago imagine que a situação agora te apresenta uma escolha difícil. Há uma criança se afogando do seu lado do lago e cinco do lado oposto. Estas cinco crianças estão agarradas a uma corda, mas o salva-vidas que a lançou não está conseguindo puxá-la. Você tem a opção de ajudá-lo, mas se o fizer não vai poder salvar a criança que se afoga do seu lado. Parece mais correto ajudar a salvar cinco vidas distantes ou salvar uma vida próxima?

Parte 6 de 14

Em alguns casos considerar a ajuda a países pobres pode nos colocar em uma situação semelhante ao exemplo das cinco crianças no lago. Muitas mortes em países de extrema pobreza são causadas por doenças que já estão erradicadas em países mais desenvolvidos e o custo de combatê-las ou preveni-las é baixo. Isso aumenta a relação de custo-eficácia de se investir contra elas. Com a quantia que se salvaria uma pessoa de uma doença mais séria em um país desenvolvido dezenas (ou até centenas) podem ser salvas em outro. A malária no Brasil está praticamente erradicada e a diarreia segue o mesmo caminho. De 1990 para 2015 as mortes por diarreia deixaram de representar 5% das mortes no Brasil para passar a ser menos de 0,5%, ou seja, nesse período de 25 anos as mortes por diarreia diminuíram de 30 para 3 por cada 100 mil habitantes. Enquanto que na África subsaárica estas duas doenças ainda matam 65 pessoas (a malária) e 57 pessoas (a diarreia) por cada 100 mil habitantes. É sempre difícil ter certeza ao escolher que vida ajudar, mas a quantidade de benefício gerada favorece investimentos em países mais pobres. Por isso o altruísmo eficaz não endossa o localismo no que diz respeito às doações.

CL1

Brasil – Óbitos, ambos os sexos, todas as idades, 2015 (Mais informação aqui)

CL2

África Subsariana – Óbitos, ambos os sexos, todas as idades, 2015 (Mais informação aqui)

Parte 7 de 14

O problema da distância insiste em aparecer. Contribuir com dinheiro sem ajudar diretamente também gera a intuição de que a ajuda não tem muito valor. A hipótese do ambiente de seleção natural segue valendo aqui. O ser humano evoluiu num contexto no qual não havia nenhum tipo de comércio monetário, portanto é menos sensível a ações em que lida com dinheiro. Mais uma vez ir contra a intuição pode ser mais eficaz. Imagine se na situação do lago o salva-vidas te pedisse como ajuda apenas que você lhe desse os seus tênis. A justificativa seria que ele precisa de algo mais consistente do que sandálias para poder se apoiar num solo com pedregulhos e conseguir puxar as cinco crianças agarradas à corda. Mesmo sem a sua participação direta sua ajuda seria essencial para salvar o maior número de vidas. Às vezes o modo de causar o melhor impacto é dar suporte financeiro ou material a alguém que possui conhecimento técnico para ajudar quem precisa.

Parte 8 de 14

Porém a menção ao conhecimento técnico pode levar a uma outra objeção. Quem concorda que há necessidade de ajuda e que a melhor ajuda vem de agentes qualificados pode argumentar que, como os cidadãos já pagam impostos, seria uma obrigação dos governos usar parte desse dinheiro para ajudar a quem precisa. Para pensar isso convém voltar à versão mais simples da situação do lago. Imagine que ao ver a criança se afogando você fica indignado (muito indignado!) tão indignado que, ao invés de salvar a vítima, você vai imediatamente reclamar com a direção do parque. É um absurdo que um parque com um lago daquele tamanho não provenha os serviços de um salva-vidas para vigiar o local! A indignação é justificada, mas a atitude não. O mais plausível é salvar a criança antes de ir reclamar.

Parte 9 de 14

É fato que os governos não fazem o que poderiam para resolver a questão. Os EUA gastam menos de 1% do seu orçamento com ajuda externa (120 bilhões [Pt. 120 mil milhões] de dólares). Os governos de países pobres têm graves problemas de corrupção. Existe ainda a complicada questão das relações entre desenvolvidos e em desenvolvimento. A erradicação da malária na América do Sul (1950-60), por exemplo, veio de uma política internacional efetiva mas questionável, o lançamento massivo de DDT sobre os focos da doença. Reconhecidas as falhas do poder público a sociedade civil tem dois frontes para participar ativamente: um imediato (salvar a criança) e um estrutural (a boa gestão do parque). Seria preciso exigir ações dos governos sem perder de vista a urgência da situação das 6,9 milhões de pessoas que morrem por ano de causas relacionadas à pobreza. A população dos EUA gasta 370 bilhões [Pt. 370 mil milhões] de dólares com doações. Os doadores civis podem inclusive fazer a diferença imediata e estrutural ao mesmo tempo pois existem ONGs que atuam no âmbito prático (fornecendo acesso a saúde) e legal (pressionando os governos por políticas mais transparentes).

Parte 10 de 14

Pensar em quantias como 6,9 milhões de pessoas ou 370 bilhões [Pt. 370 mil milhões] de dólares pode levar à sensação de que apenas os muito ricos é que podem e devem ajudar. Entretanto, coloque-se num cenário no qual existem 10 crianças se afogando no lago. Você nunca terá tempo de salvar todas elas. Ao seu lado está uma pessoa muito mais forte que a média. Ele é tão mais forte que seria capaz de salvar a maior parte das crianças sozinho e de uma só vez. Mesmo assim você não identifica nele nenhum sinal de comprometimento com o resgate das crianças. Nessa situação, o fato de ele não fazer nada te eximiria de tentar salvar o máximo de crianças que lhe fosse possível? O que o altruísmo eficaz sugere é que cada um doe de acordo com o quanto se ganha, usando 1%, 5% ou 10% do seu salário mensal para a caridade.

Parte 11 de 14

Em 2014 os 1% mais ricos do mundo possuíam mais de 48% da riqueza global enquanto que a metade mais pobre da população mundial tinha uma porcentagem na riqueza global de menos de 1%. Isso mostra que para dobrar o rendimento dos mais pobres, o que lhes retiraria da condição de extrema pobreza (viver com menos de 1 dólar por dia), os mais ricos precisariam apenas de fazer uma contribuição tão modesta que sequer pediria uma mudança no seu estilo de vida. Mas antes de condenar convém notar que entre estes extremos estão os 10% que detêm 87% da riqueza mundial. Em relação aos mais pobres nós somos os 10%. O que implica que se os medianamente ricos contribuírem com uma parte modesta do seu rendimento eles também podem ajudar significativamente os que vivem na pobreza extrema.

Parte 12 de 14

Mas a sensação de que qualquer esforço individual seria inútil e ínfimo pode ser o motivo comum que dissuade muito ricos e pouco ricos a oferecerem uma ajuda que sequer lhes fará falta. Diante disso há de se atentar a duas coisas. O problema é grande mas sua grandeza é resultado da soma de vítimas individuais. Nesse quadro uma solução ínfima pode equivaler à vida de um indivíduo que, por si só, já vale a pena. De maneira inversa a solução ínfima pode se tornar grande como o problema através da união de indivíduos. Para isso cada um tem que começar a agir. Imagine que na situação em que são dez crianças se afogando você se propõe a ajudar como pode, ou seja, salvando uma criança de cada vez. A repetição da sua atitude aumenta não só o número de crianças salvas mas também a chance de outras pessoas, mais fortes, hábeis ou não, perceberem o valor da ajuda. Isso pode até incentivá-los a ajudar. Desta forma, além do resultado prático para as crianças que você salvou a sua atitude também ajudaria indiretamente outras crianças. Apesar de ser um número extremamente alto, o número de pessoas vivendo na pobreza extrema está caindo. Nos anos 1970 eram 2,2 bilhões [Pt. 2,2 mil milhões] e em 2015 eram 705 milhões.

Parte 13 de 14

Há também quem questione se ajudar acaba causando uma dependência eterna do ajudado em relação ao ajudante? Esta é a postura de quem acha que a ajuda acaba enfraquecendo o mercado local, o que prejudica a economia. Imagine que todo dia que você vai ao parque você tem que salvar uma mesma criança do afogamento. Algum dia você vai deixar ela se afogar para ela ver que não é sempre que vai haver alguém para ajudá-la? Não. Além disso, com o tempo, ao invés de responsabilizar a criança pela insistência no erro talvez você venha a reconhecer que o problema está na sua ajuda. Com o tempo gasto nos salvamentos diários você já poderia ter ensinado a criança a nadar. Portanto este tipo de objeção não implicaria em deixar de ajudar, mas sim em escolher o tipo mais eficiente de ajuda. Por exemplo, estudos aleatórios controlados provaram que a melhor ajuda para combater a evasão escolar em regiões pobres era o combate a infecção por vermes. O altruísmo eficaz incentiva tanto a busca por evidências empíricas quanto as soluções contra-intuitivas.

Parte 14 de 14

Imagine que um dia você decide perguntar o motivo da tal criança insistir em atravessar (e se afogar) no lago. Ela te responde com uma inocência direta: É que eu tenho que chegar ao outro lado. Você continua perguntando. E pra que é que você precisa ir ao outro lado? Ora, porque é lá que tem aula de natação. A situação de uma criança que precisa de nadar para aprender a nadar ilustra o que é uma armadilha da pobreza. Em uma situação real essa armadilha está no fato de que por alguém ser pobre muitas vezes lhe faltam as condições de superar a pobreza. Por exemplo, ter que trabalhar para sobreviver impede de estudar que vai acabar impedindo de encontrar um trabalho mais qualificado no futuro. Não é por preguiça ou incapacidade que as pessoas estão nessas condições. Pesquisas mostram que simplesmente transferir dinheiro para os mais pobres alivia em muito seus males. Em geral, eles se provaram bons investidores.

Espero que essa série de experimentos mentais apoiadas por dados empíricos tenha fornecido um argumento forte pela obrigação de fazer da doação um compromisso moral pessoal. Como vimos, enquanto privilegiados temos a chance de ajudar. O problema é grande, mas algumas soluções são eficazes. É preciso também abandonar algumas tendências, como a preferência pela ajuda local ou pelo voluntariado. Além disso, também é preciso reconhecer que mesmo diante da necessidade de mudança sistêmica isso não implica que não devamos ajudar o quanto pudermos na redução dos males gerados pela pobreza. Se você sentiu o ímpeto de ajudar aconselho as organizações recomendadas pelo altruísmo eficaz que combatem a malária, a infecção por vermes ou a transferência incondicional de dinheiro.


Texto de Celso Vieira (com a colaboração de José Oliveira).

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