Ide e fazei o maior bem

MaiorImpacto

“E ide deste lugar com corações gratos, pagando as dádivas que aqui receberam usando as vossas mentes, vozes e mãos para fortalecer as vossas novas comunidades e o vosso mundo”. Estas foram as palavras que o presidente da Universidade de Yale, Peter Salovey, escolheu cuidadosamente para concluir o seu discurso da cerimônia de graduação de 2017.

Ao dizer isso, Peter Salovey não só cumpriu a porção de lugares-comuns que é de praxe, mas também explorou algo que é caro a muitos estudantes de Yale: levar uma vida que tenha impacto positivo no mundo. Embora a maioria dos alunos esteja determinada quanto a querer fazer o bem, muitos têm menos certeza sobre como fazê-lo exatamente. Isso é compreensível. O mundo está repleto de causas dignas e, como estudantes no âmbito das artes liberais, temos como privilégio um extraordinário grau de liberdade na escolha de onde e como aplicar nossos esforços.

Para lidar com essa incerteza, alguns podem voltar-se para o altruísmo eficaz – um movimento social preocupado com o uso da razão e de evidências para que se possa ter o maior impacto possível no mundo. Em particular, a organização 80,000 Hours [80 000 Horas] – cujo nome deriva do número médio de horas de uma carreira profissional – fornece conselhos cuidadosamente pesquisados ​​para aqueles que aspiram a mudar o mundo. Uma das principais estratégias promovidas pela 80,000 Hours é “ganhar para dar”: escolher um emprego bem remunerado para, posteriormente, doar grandes somas para organizações de grande impacto. Muitos dos graduados da Universidade de Yale já trabalham em empregos bem remunerados. De acordo com o site Payscale.com, o salário mediano dos diplomados em Yale, nos primeiros cinco anos após a graduação, é de 66 800 dólares, o que os coloca entre os 0,6% mais ricos da população mundial e permite que forneçam apoio considerável a causas meritórias.

Embora esta abordagem seja certamente uma maneira infalível de se ter um impacto pessoal, não é para todos. Alguns simplesmente não se conseguem imaginar no setor privado, enquanto outros podem ter razões éticas para rejeitar a abordagem de “ganhar para dar”.

Felizmente, o altruísmo eficaz vai muito além de “ganhar para dar”. De fato, o consenso atual entre os pensadores influentes do movimento é de que apenas uma minoria de aspirantes a altruístas deve optar por essa estratégia em particular. Em vez disso, as pessoas devem geralmente levar a sério a mensagem central do movimento: devemos trabalhar de maneiras que produzam o maior retorno pelos nossos esforços. Esta máxima enganosamente simples, no entanto, moldou o curso de muitas vidas, inclusive a minha.

Para os apaixonados pela saúde humana ou pela desigualdade de rendimento, uma das formas mais simples de se multiplicar o impacto social é expandir seu alcance para além das fronteiras domésticas, uma vez que as intervenções mais acessíveis já foram realizadas nas nações mais desenvolvidas. Estudiosos interessados ​​em usar a economia como uma força para o bem podem olhar para o exemplo do professor da Universidade de Yale, Ahmed Mushfiq Mobarak, que liderou intervenções baseadas em evidências no Bangladesh, Índia e Malawi, para citar apenas algumas. Mobarak, um dos convidados dos seminários do grupo de altruísmo eficaz da Universidade de Yale deste semestre, está entre aqueles que desfizeram o mito de que uma carreira acadêmica é incompatível com um impacto extraordinário e palpável.

Ler o que está acima pode levar a acreditar que os altruístas eficazes não se preocupam com questões domésticas ou com mudanças sistêmicas. Isso seria um lamentável mal-entendido. A noção de se “fazer melhor o bem” pode ser aplicada a questões políticas e institucionais, o que implica simplesmente a adoção de uma inabalável abordagem orientada pelos resultados na causa escolhida.

Foi de altruístas eficazes que vi as tentativas mais rigorosas de se estimar o impacto de certas políticas regressivas dos EUA, e foi neste movimento que conheci os defensores mais determinados dos direitos dos animais. Também se deve acrescentar que o foco do altruísmo eficaz não se limita às ciências sociais. Quer se trate de pesquisas sobre as ramificações da inteligência artificial avançada ou sobre o desenvolvimento de soluções inovadoras na saúde, o movimento reconhece o tremendo potencial da ciência de alto impacto.

De relance, o que está acima pode parecer insensível. Como pode alguém desconsiderar o valor incondicional de uma vida humana ao preocupar-se com cínicas otimizações? No entanto, é exatamente por causa desse valor incondicional que os altruístas eficazes insistem em fazer o maior bem possível. É justamente porque cada vida é tão preciosa que consideramos necessários compromissos de cortar o coração. Em um mundo caracterizado por um excesso de desafios terríveis, optar por qualquer solução que não seja a melhor é deixá-lo pior do que poderia ser de outro modo. Portanto, ao sairmos daqui com os corações gratos, não fiquemos satisfeitos por fazer apenas algum bem – esforcemo-nos para fazer o maior bem possível.

Joshua Monrad é um estudante de segundo ano do Saybrook College e o co-presidente do grupo de altruísmo eficaz ​​da Universidade de Yale. Contate-o em joshua.monrad@yale.edu.

 


Texto de Joshua Monrad originalmente publicado no site Yale News, em 12 de setembro de 2017.

Tradução de Daniel de Bortoli e revisão de José Oliveira.

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