O “altruísmo eficaz” pode mudar o mundo? Já o mudou.

Por Scott Weathers (OpenDemocracy)

Como fazer o maior bem no mundo é uma questão que deveria ocupar toda a nossa imaginação: uma resposta a Lisa Herzog.

AE-mudar o mundo

O altruísmo eficaz pode mudar o mundo? (Arte digital: José Oliveira | Fotografia: Pixabay)

Um artigo recente de Lisa Herzog para o OpenDemocracy apresentou vários argumentos contra o “altruísmo eficaz”. Resumindo, argumenta que “não há uma definição universal de «mais eficaz» no mundo da mudança social”, e que o altruísmo eficaz deveria considerar a mudança estrutural em vez de simplesmente doar dinheiro para resolver os problemas globais. A ação coletiva, diz ela, é fundamental para aliviar problemas sociais como as alterações climáticas ou a desigualdade global, em vez de indivíduos agindo por conta própria.

Estes são argumentos importantes, mas descaracterizam elementos cruciais do altruísmo eficaz e ignoram o que este movimento está realmente fazendo para ajudar o mundo. Posso entender esse erro, pois quando os altruístas eficazes apresentam o seu trabalho em público falam primeiro das coisas que são mais fáceis de explicar — como salvar vidas com tratamentos médicos básicos no mundo em desenvolvimento.

Mas longe de serem monolíticos, ou de se concentrarem apenas em fazer doações de caridade, os altruístas eficazes estão tentando resolver uma variada gama de problemas de maneiras diferentes. O artigo de Herzog reduz um movimento social, crescente e impactante, a um espantalho.

O altruísmo eficaz começa com uma pergunta: como podemos fazer a maior diferença no mundo? Certamente que os altruístas eficazes compartilham algumas crenças em comum — por exemplo, que todas as vidas são igualmente importantes, independentemente de onde se nasce. Agindo com base nessa crença, muitos altruístas eficazes doam para instituições de caridade eficazes no mundo em desenvolvimento, ou tornam-se veganos ou vegetarianos, por acreditarem que estas são maneiras de ajudar os outros por um baixo custo, tendo um alto impacto. Mas essas ações representam apenas os nossos melhores palpites sobre como fazer o maior bem possível. Se alguém apresenta um argumento convincente de que uma outra ação tem mais impacto, então os altruístas eficazes adotariam essas alternativas.

Por exemplo, em contraste com os estereótipos, os altruístas eficazes amam as mudanças sistêmicas. Vemos as doações de caridade como simplesmente uma maneira de maximizar a quantidade de bem que qualquer um pode fazer no mundo, não como toda a extensão da nossa obrigação moral para com os outros ou como uma solução milagrosa para os problemas da humanidade. Filósofos, ativistas, empresários e outros no movimento estão procurando ativamente obter mudanças para as instituições e forças do sistema que limitam o potencial humano.

Nick Cooney, fundador da Humane League, é um desses casos. Ele criou uma organização de defesa dos animais que usa o poder popular e grandes arquivos de dados para mudar a vida dos animais na pecuária industrial. A abordagem da Humane League está em sintonia com a mentalidade do altruísmo eficaz, visando uma das maiores fontes de sofrimento do mundo — a pecuária industrial — com o poder do ativismo. Os resultados falam por si: em 2015, empresas como a McDonalds, Dunkin’ Donuts, General Mills, Costco, Sodexo e muitas mais concordaram em adotar políticas de ovos livres de gaiolas.

Como este exemplo indica, a crítica de que os altruístas eficazes preferem ações individuais em vez de ações coletivas está incorreta. A organização de Cooney, juntamente com amplo ativismo de base do movimento em nome dos animais, tem sido um pilar central do altruísmo eficaz desde a sua criação. Ainda que Herzog possa discordar com questões específicas a que escolhemos dar prioridade, essa é uma questão completamente diferente.

Lincoln Quirk é outro altruísta eficaz. Ele é o co-fundador de um app de transferência de dinheiro chamado Wave. Como programador de software e empresário, Quirk abordou um problema que poucas pessoas no Vale do Silício estão a abordar: as taxas exorbitantes das transferências internacionais de dinheiro de empresas como a Western Union. A sua solução foi criar um app de transferência de dinheiro que cobra apenas 3% em taxas, em comparação com os 10% das empresas maiores, e isso significa que as famílias no mundo em desenvolvimento têm agora mais dinheiro em seus bolsos para alimentação, educação e medicina. A escala das remessas internacionais é muito maior do que os fluxos da ajuda internacional, de modo que o corte nas taxas de transferências  —  mesmo em quantias reduzidas — pode ter um impacto muito grande.

Os críticos podem afirmar que as abordagens à mudança social orientadas para o mercado como estas não são adequadas, mas gostaria de contrapor que a mudança social trata de como melhorar a vida tanto quanto podemos, em vez de promover qualquer ideologia ou estratégia específica. Além disso, nem todos os problemas sociais podem ou devem ser resolvidos através de uma ação coletiva (embora muitos, é claro, possam ser). A abordagem de Quirk pode ser considerada eficaz, porque criou uma instituição nova e melhor do que as existentes, não porque se tenha confinado a uma definição restrita de como gostaríamos de ver a mudança social acontecer.

Falando em meu nome pessoal, o altruísmo eficaz tem sido o fator mais importante na minha decisão de trabalhar em políticas de saúde global. Como um defensor da causa da legislação de saúde global em Washington DC, trabalho para influenciar os representantes americanos a gastarem o dinheiro da ajuda externa de forma eficiente — consciente dos obstáculos estruturais mais amplos na melhoria da saúde em todo o mundo.

Uma peça de legislação pela qual estou a interceder é a “Reach Every Mother and Child Act[Ajudar todas as Mães e Crianças]. Este ato permitiria que a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) pudesse gastar o dinheiro da saúde global tendo a força das evidências e do impacto como principais considerações. Sobre outra resolução estou fazendo chamadas ao governo dos EUA para estabelecer uma estratégia de recursos humanos em saúde para orientar os esforços dos países em desenvolvimento, o que é uma das chaves para melhorar os sistemas de saúde frágeis que permitem que doenças como o Ébola proliferem.

O que é comum a estes exemplos é uma simples, mas importante questão: que métricas são relevantes quando consideramos a mudança social? Herzog está correta em apontar que não existem medidas universais ou generalizáveis. Aponta para o uso excessivo de Anos de Vida Ajustados pela Qualidade de (QALY) e Esperança de Vida Corrigida pela Incapacidade (DALYs) como algo emblemático deste problema.

Muitos altruístas eficazes concordariam, antes de completar que é exatamente por isso que gastamos tanto tempo pensando sobre a questão da medição. Altruístas eficazes geralmente pensam que QALYs e outras medidas são ferramentas para nos ajudar a avaliar o impacto das intervenções de saúde — limitadas, mas ainda assim úteis e importantes.

A GiveWell, uma organização que recomenda a doadores de caridade o que consideram ser organizações altamente eficazes, é provavelmente o grupo que está mais preocupado com as métricas que importam e as suas razões. As suas recomendações contam com abordagens rigorosas e cuidadosas de medição que vão muito além dos DALYs e QALYs. Na verdade, Holden Karnofsky, um dos fundadores da GiveWell, argumentou que “Converter o peso das doenças e os benefícios de intervenção em DALYs não resolve as questões… Pelo contrário, obscurece-as, ao converter as duas intervenções nos mesmos termos usando um único conjunto de valores filosóficos.”

Em vez disso, as recomendações do GiveWell são baseadas em múltiplos critérios: evidências, custo-eficácia, espaço para mais financiamento e transparência. O Open Philanthropy Project, que derivou da GiveWell, está a seguir uma série de projetos com métricas “flexíveis” que incluem justiça criminal e reforma agrária, estabilização macroeconómica, imigração, bio-segurança e pesquisas médicas.

Assim, os altruístas eficazes não estão apenas preocupados com doar dinheiro para um conjunto restrito de intervenções de saúde medidas em DALYs ou QALYs. Abordamos a mudança social a partir da perspectiva de que devemos procurar utilizar nosso tempo, dinheiro e recursos para maximizar o “valor esperado”, ou a probabilidade de uma determinada intervenção alcançar uma melhoria multiplicada pelo benefício de realmente se atingir essa melhoria.

Esta abertura a diferentes métodos de buscar a mudança social me parece crucial e os altruístas eficazes querem ouvir tantas pessoas quanto possível sobre a melhor forma de melhorar o mundo. Ao contrário de muitos outros movimentos sociais, este aspira a ser “neutro face às causas”, identificando no que trabalhar de acordo com a medida em que podemos ter o maior impacto possível e não o que mais nos apaixona ou que nos é mais próximo. Contrariamente à afirmação de Herzog que o altruísmo eficaz aborda a mudança social a partir da base do que é “racional” de acordo com as preferências individuais, nós priorizamos a coordenação e o trabalho conjunto para alcançar mudanças maiores.

A lógica do altruísmo eficaz é bastante simples: devemos ser ponderados, devemos  basear-nos em evidências e devemos ser diligentes ao abordar todas as questões da mudança social. Embora exista certamente muito espaço para discordar sobre estas questões — especialmente no que respeita a como decidir quais questões devem ser priorizadas e quais as estratégias a perseguir — isso é diferente de dizer que melhorar o mundo tanto quanto pudermos não é um objetivo que valha a pena. Essa pergunta — como podemos fazer o maior bem no mundo — é certamente algo que deve ocupar toda a nossa imaginação.


Texto originalmente postado por Scott Weathers no OpenDemocracy em 29 de fevereiro de 2016

Tradução Thiago Tamosauskas e revisão de José Oliveira.

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