O observador passivo

Por Linch Zhang (Huffpost)

bystander

Ficar a ver ou ajudar? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay e Flickr: Aislinn Ritchie)

Alerta de Conteúdo: violência adolescente, malária, morte, escrupulosidade

Ficamos a aguardar, trinta ou quarenta de nós, e observamos silenciosamente enquanto dois garotos, um muito maior e mais velho que o outro, lutavam. Não foi uma grande briga, mesmo pelos padrões daquele nível escolar. O garoto maior esmurrou o garoto menor, o que pareceu durar alguns minutos, mas provavelmente foram apenas alguns segundos. O garoto menor caiu. O menino mais velho continuou a socá-lo até haver sangue por toda parte. Finalmente, ele se virou e pareceu parar, antes de se voltar para atrás e dar um último chute devastador. Ouviu-se um estalido.

Ficámos ali parados a observar, silenciosos, a menos de 3 metros da luta. Eu queria correr e afastar o adolescente mais velho. Eu queria gritar (ou pelo menos sussurrar): Para! Eu queria correr por socorro, mas não o fiz. Poderia ter tentado detê-lo. Deveria ter tentado detê-lo. Em última análise, não o fiz, e vou lembrar-me disso para o resto da minha vida.

Acabei por ir para a faculdade. Lá, aprendi algumas noções de artes marciais, tais como desferir um soco e as melhores maneiras de bloquear um. Descobri várias maneiras de dar pontapés, de escapar de uma chave de braço, de sair de um estrangulamento e de cair graciosamente. Aprendi a proteger-me a mim e aos outros.

Ao mesmo tempo, também aumentei o meu conhecimento de matemática, política e economia. Aprendi a separar o sinal e o ruído estatístico e aprendi sobre a enorme desigualdade na riqueza internacional. Li sobre economia de desenvolvimento e estudos aleatórios controlados (RCTs), e como algumas intervenções são acima de 100 vezes mais eficazes do que outras ao concretizar o que queremos, como a educação, as oportunidades para todos, a diminuição da mortalidade e a redução do sofrimento. E, a certa altura, fiquei a saber sobre o compromisso da Giving What We Can, uma promessa vitalícia de doar 10% do rendimento (bruto) para as instituições de caridade mais eficazes.

Também fiquei a saber sobre outros observadores passivos da história. Li sobre como o governo dos EUA e o público negaram vistos a centenas de milhares de judeus durante o Holocausto. Estudei a fome de Bengala em 1974, onde mais de um milhão de pessoas morreram de fome por se ter retido a ajuda alimentar. Aprofundei, texto após texto, sobre como o não envolvimento da ONU durante o genocídio ruandês acelerou a morte de mais de 800 000 Tutsis. Lendo sobre a banalidade e pura apatia do mal, sempre soube, no fundo da minha consciência, que eu poderia ter feito o mesmo na posição deles, que poderia ter sido eu.

Um dos meus heróis de infância foi John Heinrich Detlev Rabe, um empresário alemão e membro registrado do Partido Nazista. Durante o massacre de Nanjing, Rabe ajudou a estabelecer a Zona de Segurança de Nanjing, que protegeu cerca de 200 mil chineses de estupro e extermínio durante o massacre. Rabe e os seus administradores da Zona tentaram freneticamente parar as atrocidades. Retirado da Wikipedia:

As suas tentativas de apelar para os japoneses usando as suas credenciais de membro nazista só os atrasaram; mas esse atraso permitiu que centenas de milhares de refugiados escapassem. O documentário de Nanking atribui-lhe o salvamento da vida de 250 mil civis chineses.

Pelo que se sabe, John Rabe até então havia vivido como um comum homem de negócios, sem ter feito nada de especial ou que o distinguisse. Mas quando confrontado com um horror indizível, ele o enfrentou. John Rabe foi corajoso. Ele não foi um observador passivo.
Eu costumava ter uma crença, uma fantasia, em que conseguia reunir toda a minha coragem em um reservatório, ou acumulá-la como em cartas de jogar o Yu-Gi-Oh! E se eu nunca gastasse essa força, quando os momentos verdadeiramente decisivos surgissem, eu —  como John Rabe —  faria apenas o que acredito ser correto. Sem hesitação. Mas na vida, na grande maioria dos casos, a coragem não funciona desse jeito. A coragem e virtude, a compaixão e racionalidade são hábitos a praticar, estabelecidos lentamente ao longo de uma vida.

E, em certo sentido, a ideia de que devemos esperar por “momentos vindouros verdadeiramente decisivos ” é uma incompreensão do mundo. Vivemos em uma situação de crise neste preciso momento. Mais de 700 milhões de pessoas vivem em pobreza extrema. Mais de 5 milhões de crianças morreram em 2015, mais da metade por doenças evitáveis. Todos os anos, só a malária mata entre 400 000 e 800 000 pessoas, a maioria são crianças menores de cinco anos. A malária é um fardo terrível, não apenas em vidas perdidas e produtividade, mas emocionalmente, no medo e no desespero que impõe às vítimas. A malária não é invencível: conhecemos uma forma barata e eficaz de prevenir a malária com mosquiteiros tratados com insecticida de longa duração. Custam menos de 6 dólares para comprar e distribuir e, embora haja muita incerteza em relação a esses números, a avaliadora de instituições de caridade independente, GiveWell.org, estima que custa à Against Malaria Foundation cerca 3 000 dólares para evitar uma morte por malária e devolver a vida a uma pessoa.

Eu fiz uma pesquisa extensa sobre esses números e fatos, escrevi-os e li-os novamente. Mas ainda não os assimilei completamente. Cada pessoa que morre tem como consequência, não só a dor individual e o sofrimento familiar, mas a perda de esperanças, sonhos e medos de alguém, oportunidades desfeitas em vez daquilo que poderia ter acontecido. No entanto, é fácil uma pessoa perder-se na ordem de magnitudes, estatísticas e abstrações, para nos concentramos nos dados e além disso entorpecermos. Talvez a compreensão da experiência de uma nação seja mais relevante emocionalmente: a OMS estima que, em 2012, a malária causou aproximadamente 180 mil mortes na Nigéria, ou cerca de 500 por dia. Imagine um típico ônibus [Pt. autocarro] escolar com 20 assentos, praticamente lotado, três bebês por assento, com as pernas demasiado pequenas para tocar o chão. Alargue um pouco o campo de visão. Imagine estar a aguardar, apenas a observar, enquanto o ônibus colide com uma mina terrestre. Em uma sequência rápida, isso se repete com mais sete ônibus.

Segundo as estimativas da GiveWell, custaria menos de 1,5 milhões de dólares para salvar os oito ônibus.

A decisão final foi fácil: assumi o Compromisso da Giving What We Can neste Ano Novo, e prometi doar 10% dos meus ganhos futuros para as instituições de caridade mais eficazes. Eu quero aderir plenamente à Giving What We Can e à comunidade mais ampla do “altruísmo eficaz” e trabalhar para formar os hábitos que me tornarão uma pessoa melhor. O que realmente gosto no altruísmo eficaz é o pleno entendimento de que, parafraseando um adesivo [Pt. autocolante] que vi uma vez sobre o cristianismo na traseira de um carro, “[Altruísmo eficaz] é um hospital para os pecadores, não um clube para os santos”. A ideia é que, embora imperfeitas, nossas ações podem fazer muita coisa boa, e podemos e devemos sempre melhorar e ter objectivos mais ambiciosos. Entre os que assumiram o compromisso da Giving What We Can incluem-se filósofos, enfermeiros, trabalhadores da caridade, técnicos, estudantes, economistas, médicos, escritores e donas de casa. Por outras palavras, pessoas normais. Não são santos, nem perfeitos, nem mesmo (na definição comum do termo) necessariamente pessoas boas. Estão simplesmente tentando. Não é preciso ser perfeito para ajudar muitas pessoas, e por vezes isso não é um problema.

Como uma pessoa cheia de defeitos, eu aprecio essa ideia. Sou bagunçado. Posso ser mesquinho. Cometo erros estúpidos. Nem sempre cumpro as minhas promessas. Sou subconscientemente enviesado de mil e uma maneiras. Sou pouco consciencioso. Não ligo para meus pais tanto quanto deveria. Minha dieta não é tão ética quanto eu gostaria. Sou um covarde. Se confrontado com uma situação semelhante novamente, ainda não sei se, dessa vez, irei realmente intervir para parar a luta.

Mas, pelo menos, quando se trata de pobreza global, não vou, não posso, apenas ficar a observar passivamente.

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Como parte de uma “campanha para se assumir o compromisso” da Giving What We Can, estou a assumir o compromisso juntamente com mais de cem outros a partir de 2016. Você não precisa ser perfeito ou mesmo mudar sua carreira. Se você quiser nos ajudar a deslocar a balança cósmica para tornar o universo um pouquinho mais justo, e está em condições de fazê-lo, eu lhe encorajo fortemente a considerar o compromisso também.

Junte-se a nós aqui: https://www.givingwhatwecan.org/get-involved/join/

Os números citados em meu artigo acima são sobre a Against Malaria Foundation: https://www.againstmalaria.com/Donation.aspx

(No entanto, o compromisso em si não o obriga a doar a qualquer organização específica, apenas as que você realmente acredita que ajudam as pessoas ao máximo).


Texto de Linch Zhang publicado originalmente no HuffPost a 14 de janeiro de 2016 (e actualizado a 14 de janeiro de 2017).

Tradução de Ronaldo Batista e revisão de José Oliveira.

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