Em busca de coerência

Por Celso Vieira

Congruência

Pensamos e agimos da mesma maneira? (Arte digital: José Oliveiras | Fotografias: Pexels e Pixabay)

Nos anos 1950, Botsuana ainda era um protetorado inglês. Seretse Khama, herdeiro do trono do país africano, cumpria um exílio de 5 anos imposto pela Inglaterra. Winston Churchill, então candidato do partido conservador ao parlamento inglês, critica essa imposição. A opinião pública concorda. Em 1951 vence a eleição. Uma de suas primeiras medidas é tornar o exílio vitalício. Coerência será o assunto de hoje.

Para tanto vamos começar por uma definição: Uma pessoa é coerente se acredita em algo e age de acordo com isso. Ou seja, o contrário do exemplo acima. Essa definição já delimita o modo simplificado em que trataremos a questão. Existem duas variáveis: as crenças e as ações. Crenças têm sentido bem amplo que vai desde acreditar que mentir é errado (moral), que água mata a sede (empírica) ou em posições políticas, religiões, superstições, entre outros. Essas duas variáveis geram três possibilidades de incoerência.

Entre crença e ação: João acredita que cada um tem seu destino já determinado, mas, mesmo assim, parou de fumar.

Entre ações: Janete faz de tudo pelo seu cãozinho de estimação enquanto espeta um lombo de porco com seu garfo.

Entre crenças: Alair é católico e cientista.

(Note que deixamos para outra oportunidade um outro nível de incoerência entre falar uma coisa e acreditar no seu contrário)

Se formos pensar em cada caso particular será muito difícil chegar perto de encontrar alguém que seja perfeitamente coerente. Porém, o que nos interessa agora é pensar em crenças mais amplas e padrões de comportamento. Alair, por exemplo, pode simplesmente deixar as suas crenças fora do laboratório. Se isso te parece difícil de aceitar tome um minuto para tentar encontrar alguma incoerência entre suas crenças e sua rotina. Isso mostra como já é um passo por si só difícil, simplesmente identificar que somos incoerentes. Incoerência parece ser mais um daqueles erros que a gente é mestre em identificar nos outros ao passo que, em nós mesmos, não vemos nem se vier pintado em fluorescente.

Porém, ainda que sejamos mais incoerentes do que gostamos de admitir, não se segue que ser incoerente seja necessariamente um erro. Whitman, por exemplo, no seu poema Song to myself identifica e aceita: “Muito bem, então eu contradigo a mim mesmo (eu sou grande, eu contenho multitudes)”.

Há quem defenda que pessoas coerentes vivem vidas mais felizes — ou plenas. Isso faz sentido intuitiva e pragmaticamente. Um agente coerente vai realizar ações que vão levar a resultados que ele vai julgar como mais satisfatórios. É caridoso supor que Churchill tenha experimentado algum desconforto ao agir contra suas declarações feitas antes da eleição.

No nível que está sendo tratado aqui, coerência é um termo relativo. Cada agente deveria buscar ser coerente consigo mesmo. Isso implica que servirá também para quem tem crenças dissonantes das nossas crenças morais. Por exemplo, se o Augusto acha que uma determinada parcela da população deve se sacrificar para servir a outra, ele deve agir de acordo com isso. É claro que um tratamento mais profundo da questão deve problematizar isso. Há um grande abismo entre verdades e crenças. Por aqui, vamos nos contentar com a versão relativista que se contenta com a coerência interna.

Se sairmos do nível individual encontraremos uma justificativa natural para fazer da coerência uma busca séria na nossa vida. Humanos são uma espécie social e, em qualquer teoria das interações, parece ser um fato que é melhor interagir com agentes coerentes. O transporte público só funciona porque podemos contar que ele operará de maneira coerente e previsível, apesar de cada dia trazer detalhes diferentes. Imagine como Seretse recebeu a notícia da eleição de Churchill e, em seguida, o aumento do exílio imposto.

A introdução do âmbito social, no entanto, traz uma outra questão acerca da coerência. Devemos ser coerentes com nós mesmos (ou seja, afinar as crenças que temos e as nossas ações com as nossas crenças) ou com algum grupo social específico do qual participamos? É fácil ver que há muito espaço para conflito entre esses dois âmbitos. Por exemplo, certos grupos da sociedade podem ser pró-vida na questão do aborto e a favor da pena de morte. Eu arrisco dizer que a nossa tendência é seguir a coerência social e agir como ‘os nossos’ agem. No entanto, parece que a reflexão no nível do indivíduo vale também para o nível do grupo. Instituições e grupos coerentes funcionariam melhor do que os incoerentes. Esses também contêm multitudes, mas o esforço de tentar harmonizá-las compensaria.

Em suma, temos dois problemas: Achamos que somos mais coerentes do que somos e, além disso, preferimos seguir tendências de bando do que questionar a sua coerência. Apenas nessa versão simplificada da discussão já temos uma tarefa hercúlea para realizar: diminuir as nossas incoerências com atenção especial àquelas que seguimos por comportamento de bando. Um ponto de partida para isso seria listar as nossas crenças, notar as coerências e incoerências, elencar quais são as mais importantes e tentar agir de maneira coerente com elas. Vamos simular esse procedimento em relação ao altruísmo.

Como não saímos de uma aplicação relativista da coerência temos que começar apelando para valores morais que, podemos assumir, são compartilhados pela maioria dos leitores. Em geral, atribuímos importância definidora a valores como senso de justiça, honestidade, generosidade, compaixão, empatia, igualdade e outros relacionados. Faltam linhas para definirmos cada um desses termos mas acredito que todos eles oferecem razões suficientemente convincentes para que façamos da doação uma constante na nossa rotina.

Em uma sociedade injusta, desigual, cheia de sofrimento a doação pode ajudar a corrigir uma porção desses problemas. Na nossa condição de privilegiados doar seria consistente com a empatia, compaixão e generosidade. No entanto, o costume de doar é muito menos unânime que a aceitação dos valores acima. Talvez uma explicação seja o comportamento de bando, ou talvez a falta de auto-reflexão, provavelmente um pouco dos dois. Como não se trata de um costume social, nunca nos questionamos se deveríamos fazê-lo. À luz da reflexão acima o ‘ninguém faz’ deixa de ser uma desculpa para não fazer também e passa a ser mais uma razão para fazer, já que, dado ao comportamento de bando, sua atitude vai ter o valor ampliado ao servir de exemplo para outros começarem a fazer também.

Como conclusões específicas temos:

Examinar nossos valores e verificar se devemos doar.

Não deixar de doar porque ninguém doa.

Não doar para alguma instituição porque todo mundo doa para ela.

Pesquisas revelam que no relacionamento com um parceiro ou na nossa noção de identidade estamos dispostos a aceitar várias mudanças ao longo da vida, mas que um abandono de certos valores morais seria inadmissível. O nosso problema aqui é relacionado com isso, porém mais fundamental. Trata de ter coragem para ver se realmente nossas ações são coerentes com nossos valores. O resultado tem grandes chances de apontar incoerências. A reação não deve ser de desespero, mas sim de afinar nossas ações para realmente sermos do jeito que nos imaginamos. Se, por um lado, ser coerente é difícil e necessita uma prática diária, por outro lado, é um daqueles casos em que tentar ser coerente já é ser mais coerente.


Texto de Celso Vieira.

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