A psicologia do especismo: como privilegiamos certos animais em vez de outros

Por Lucius Caviola (Pratical Ethics)

Especismo

Será o especismo, como o racismo, moralmente errado? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Nosso relacionamento com os animais é complexo. Há alguns animais que tratamos bem, cuidamos deles como animais de estimação, damo-lhes nomes e levamo-los ao veterinário quando estão doentes. Outros, em contraste, parecem não merecer esse estatuto privilegiado; são usados como objetos para consumo humano, no comércio, em experiências como sujeitos involuntários, como equipamentos industriais ou como fontes de entretenimento. Cães valem mais do que porcos, cavalos mais do que vacas, gatos mais do que ratos e, de longe, a espécie mais digna de todas é a nossa. Filósofas e filósofos têm-se referido a esse fenômeno de discriminar indivíduos com base na sua pertença a uma espécie como especismo (Singer, 1975). Algumas pessoas têm argumentado que o especismo é uma forma de preconceito análoga ao racismo ou ao sexismo.

No entanto, quer o especismo exista realmente e quer esteja relacionado a outras formas de preconceito, essa não é apenas uma questão filosófica. Fundamentalmente, essas são hipóteses sobre a psicologia humana que podem ser exploradas e testadas empiricamente. Contudo, surpreendentemente, o especismo foi quase totalmente negligenciado pela psicologia (com algumas raras exceções). Nos últimos 70 anos, houve menos de 30 publicações sobre esse tema, conforme revelou uma pesquisa na Web of Science com as palavras-chave especismo e relações humano-animal em todas as revistas de psicologia. Embora essa pesquisa possa não ser totalmente exaustiva, ela fica muito longe das quase 3 mil publicações sobre a psicologia do racismo no mesmo período. O fato da psicologia ter negligenciado o especismo é estranho, dada a relevância do tema (todos nós interagimos com animais ou comemos carne), dada a prevalência do tópico na filosofia, e a atenção sistemática da psicologia a outros tipos de aparente preconceito. Investigar como atribuímos estatuto moral aos animais deveria ser uma questão óbvia de investigação para a psicologia.

Juntamente com meus colegas Jim A.C. Everett e Nadira S. Faber, publiquei recentemente um artigo sobre o especismo no Journal of Personality and Social Psychology (Caviola, Everett e Faber, 2018). Nosso objetivo era estabelecer o especismo como um tópico no campo da psicologia. Para esse fim, desenvolvemos uma Escala de Especismo: um instrumento de medição padronizado, validado e confiável que possa avaliar até que ponto uma pessoa tem ideias especistas. Nossa pesquisa demonstrou que, de fato, existe um construto psicológico único — o especismo — que determina em que medida as pessoas discriminam indivíduos com base na sua pertença a uma espécie. Esse construto não é abrangido por outras medidas de preconceito ou pró-socialidade e mostra algumas propriedades interessantes.

Nossa pesquisa mostrou que filósofas e filósofos estavam certos quando apresentaram uma analogia entre o especismo e outras formas de preconceito. O especismo correlaciona-se positivamente com o racismo, o sexismo e a homofobia, e parece ser sustentado pelas mesmas crenças sócio-ideológicas. Semelhante ao racismo e ao sexismo, o especismo parece ser uma expressão de Orientação para a Dominação Social: a crença ideológica de que a desigualdade pode ser justificada e que os grupos mais fracos devem ser dominados por grupos mais fortes (Dhont, et al., 2016). Além disso, o especismo correlaciona-se negativamente com a empatia e com uma maneira de pensar activa e de espírito aberto. Homens são mais propensos a serem especistas do que as mulheres. No entanto, não há correlações com a idade ou o grau de educação.

O especismo também se manifesta no comportamento no mundo real. Em nossos estudos o especismo previu se as pessoas estão mais dispostas a ajudar seres humanos do que animais, ou animais “superiores” do que animais “inferiores”. Por exemplo, quando dada a escolha de doar para uma instituição de caridade que ajuda cães ou porcos, as pessoas que são mais propensas a ajudar cães do que porcos pontuam mais na escala de especismo. Da mesma forma, quanto mais alta a pontuação alcançada na escala de especismo, mais as pessoas estão dispostas a investir tempo para ajudar pessoas que vivem na rua do que ajudar a estabelecer direitos básicos para os chimpanzés. Finalmente, o especismo está relacionado ao vegetarianismo ético. Mesmo que nossos estudos mostrem que nem todos os que rejeitam o especismo acreditam que comer carne é errado, ainda assim observamos que as pessoas com pontuação mais alta na escala de especismo tendencialmente preferiam um lanche com carne em vez de um lanche vegetariano.

Críticas ao especismo como conceito por vezes argumentam que a razão pela qual nos preocupamos menos com os animais não é devido à pertença à espécie em si, mas devido aos animais não serem inteligentes ou não poderem sofrer na mesma medida que os humanos. Nossa pesquisa, no entanto, mostrou que essa objeção não é sólida. É verdade que as pessoas entendem que os animais, ou os animais “inferiores”, são menos inteligentes ou menos capazes de sofrer do que humanos ou animais “superiores”. No entanto, em nossos estudos, as crenças das pessoas sobre o nível de inteligência de indivíduos e a sua capacidade para sofrer, apenas explica uma pequena parte de seu comportamento dirigido aos animais. De longe, a explicação mais forte sobre o comportamento das pessoas é o próprio especismo. Por exemplo, mesmo que as pessoas saibam que cães e porcos são aproximadamente semelhantes em inteligência e em capacidade de sofrer, elas ainda assim são muito mais propensas a ajudar cães do que porcos. E, quando lhes perguntam se preferem ajudar um chimpanzé ou um ser humano com deficiência mental, as pessoas estão muito mais dispostas a ajudar o ser humano do que o chimpanzé, mesmo que acreditem que o chimpanzé é mais inteligente e mais capaz de sofrer do que o ser humano. Isso sugere claramente que a pertença de um indivíduo a uma espécie é em si mesma um fator determinante de como avaliamos, percepcionamos e tratamos esse indivíduo.

O que podemos concluir desses achados psicológicos? É importante notar que essa pesquisa é puramente descritiva. Ela informa principalmente que o especismo é uma realidade psicológica e que aparece em nossas atitudes, emoções e comportamentos em relação aos animais. Como argumentaram filósofas e filósofos, o especismo é de fato psicologicamente análogo a outras formas de preconceito. O que podemos ajuizar a partir dessas descobertas é uma questão moral separada. E ainda assim, essas intuições perspicazes sobre a psicologia do especismo podem informar nosso pensamento sobre como queremos tratar os animais. Se considerarmos que o racismo está errado e sabemos que o racismo e o especismo estão relacionados psicologicamente, isso pode levar-nos a questionar se o especismo também não deveria ser considerado errado. De qualquer forma, apenas agora começamos a entender os aspectos psicológicos do especismo. Esperemos que mais pesquisas reconheçam isso e ajudem a explorar esse fenômeno em maior profundidade.

Caviola, L., Everett, JAC, Faber, NS. (no prelo) The Moral Standing of Animals: Towards a Psychology of Speciesism. Journal of Personality and Social Psychology.


Texto de Lucius Caviola publicado originalmente no Blog Pratical Ethics da Universidade de Oxford, a 22 de fevereiro de 2018.

Tradução de Lara André. Revisão de José Oliveira.

 

Anúncios

Um comentário sobre “A psicologia do especismo: como privilegiamos certos animais em vez de outros

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s