Altruísmo Extremo

Por Peter Singer (Project Syndicate)

Altruismo extremo

Ajudar, mas até que ponto? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Há mais de 40 anos, em um ensaio intitulado “Fome, Riqueza e Moralidade”, convidei os leitores a imaginar que estavam a passar por um lago raso e viam uma criança pequena que aí caíra e que parecia estar a afogar-se. Poderiam facilmente salvar a criança, mas os seus sapatos novos e caros ficariam estragados. Seria errado caso se ignorasse a criança e se continuasse a caminhar?

Quando peço ao público para levantar a mão face a essa questão, geralmente são unânimes ao dizerem que seria errado darmos prioridade aos nossos sapatos. Eu, então, faço notar que doando para uma instituição de caridade que protege as crianças de malária, diarreia, sarampo, ou de nutrição inadequada nos países em desenvolvimento, todos nós podemos salvar a vida de uma criança.

É um argumento simples, até que percebemos que, depois de ter salvo uma criança doando para uma instituição de caridade eficaz, temos a oportunidade de salvar outra, e outra, e outra. Devemos deixar de gastar em luxos, para que possamos salvar mais outra vida, dando até o ponto em que nos iríamos tornar tão pobres como aqueles que estamos ajudando?

Meu exemplo de salvar a criança se afogando ecoa no título do recente livro de Larissa MacFarquhar, Strangers Drowning (Estranhos se afogando – Br. A Vida Pelos Outros). A essência do livro é uma série de perfis de pessoas que vivem de acordo com um padrão moral altamente exigente. Vale bem a pena dar uma olhada em algumas das pessoas que MacFarquhar descreve no seu livro.

Já em criança, Julia Wise sentia que, se cada pessoa é igualmente valiosa, não deveria preocupar-se mais com o seu próprio bem-estar do que com o de qualquer outra pessoa. Se alguém poderia beneficiar mais com o dinheiro que Julia pagaria por um sorvete, seria melhor se desse o dinheiro para essa pessoa. Julia começou a dar suas poupanças para instituições de caridade como a Oxfam. Quando se apaixonou por Jeff Kaufman, concordaram que ambos iriam doar uma grande parte do que ganhavam – atualmente doam cerca de metade do seu rendimento. (Wise publica no blog www.givinggladly.com).

Kimberly Brown-Whale era pastora em uma igreja em Essex, Maryland, quando viu uma reportagem nas notícias sobre uma jovem que precisava de um transplante de rim. Sem pensar muito, fez um telefonema para oferecer um de seus rins. Embora se tenha verificado que afinal não era compatível com a jovem, uma enfermeira perguntou-lhe se estaria disposta a doar seu rim para outra pessoa. Ela concordou, juntando-se a um número crescente de pessoas que doam seus rins para estranhos. (Eu sei de alguém que se sentiu inspirado a fazê-lo devido a uma discussão na aula de filosofia sobre o artigo “Fome, Riqueza e Moralidade”.)

Uma noite chuvosa, Baba Amte, o filho de um rico fazendeiro indiano, encontrou um leproso morrendo. Baba superou sua aversão inicial e seu medo de contrair a doença e protegeu o leproso da chuva. Essa experiência permaneceu consigo, levando-o a fundar uma colônia de leprosos. Passados alguns anos, vários milhares de leprosos e pessoas com outras deficiências viviam ali em uma comunidade próspera. Quando Baba morreu, seus filhos continuaram o seu trabalho.

Sue Hoag tinha 12 anos quando leu um livro sobre uma família que adotou várias crianças necessitadas, e desde então também quis fazer o mesmo. Quando conheceu Hector Badeau e se casou com ele, decidiram ter dois filhos eles mesmos e adotar a outros dois. Fizeram isso, mas não puderam calar o conhecimento de que outras crianças estavam com uma necessidade desesperada de uma boa casa – crianças que dificilmente seriam adotadas por causa de uma deficiência ou de sua raça, idade, ou um histórico de violência. Hoag e Badeau não eram  ricos, mas acabaram por ficar com uma família de 20 filhos adotados, para além dos seus dois filhos biológicos.

MacFarquhar interliga esses perfis com a discussão de atitudes face ao altruísmo expressas por, entre outros, Bernard Mandeville, Adam Smith, Immanuel Kant, Charles Darwin e Sigmund Freud. Muitos desses pensadores eram hostis ao altruísmo, ou inclusivamente negaram a sua existência. Quando MacFarquhar contou aos seus amigos que estava escrevendo um livro sobre “bons samaritanos”, descobriu que eles ficavam incomodados com a ideia de que algumas pessoas não só professam princípios morais extremamente exigentes, mas também vivem de acordo com eles. MacFarquhar ficou intrigada com essa hostilidade – por que não admirarmos simplesmente as pessoas que fazem tanto pelos outros, ao invés de descartá-los como “esquisitos”?

A resposta poderá ser que também nós sentimos que deveríamos viver de forma muito mais ética, e as pessoas descritas em A Vida Pelos Outros são uma censura permanente do nosso próprio modo de vida. Se eles podem viver de acordo com padrões morais mais elevados, nós também poderíamos. Se pudéssemos acreditar que todos os altruístas são hipócritas, não nos sentiríamos tão mal; mas A Vida Pelos Outros demonstra que esta crença confortável é falsa.

Há quem dedique as suas vidas aos outros, por nenhuma outra recompensa que não seja saberem que estão ajudando os outros e a agir de acordo com os seus próprios valores. Muitos deles consideram as suas vidas imensamente gratificantes e satisfatórias. Mas não é por isso que o fazem.


Texto originalmente postado por Peter Singer no Project Syndicate, em 15 de março de 2016.

Tradução Thiago Tamosauskas. Revisão de José Oliveira.

 

 

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