Quer fazer o bem? Veja como escolher uma área em que se possa concentrar

Por (Guia de Carreiras da 80,000 Hours) 

Maiores problemas

Quais são os maiores problemas do mundo? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Vídeo legendado em português.

Se você quiser fazer a diferença em sua carreira, um dos pontos de partida é perguntar-se quais são os problemas globais que mais precisam de atenção. Você deveria trabalhar em educação, mudanças climáticas, pobreza ou outra coisa?

O conselho comum é fazer o que mais lhe interessa, e a maioria das pessoas parece acabar trabalhando em qualquer problema social que primeiro atraia sua atenção.

Foi exatamente isso que nosso co-fundador, Ben, fez. Aos 19 anos, o seu maior interesse eram as mudanças climáticas. Aqui está ele em uma manifestação, em uma fotografia adequadamente artística.

No entanto, seu interesse na mudança climática não foi o resultado de uma comparação cuidadosa dos prós e contras das diferentes áreas. Em vez disso, como ele mesmo admite, tinha lido sobre o assunto, e achou interessante porque era de natureza científica e ele era meio nerd.

O problema com essa abordagem é que você pode se deparar com uma área que não é suficientemente ampla, importante ou na qual seja fácil de progredir. Também é muito mais provável que você tropece nos problemas que já recebem mais atenção, o que os torna menos impactantes.

Então, como evitar esses erros e fazer um bem maior?

Desenvolvemos três questões que colocaríamos a nós mesmos para tentarmos entender quais são os problemas sociais mais urgentes – onde um ano extra de trabalho terá o maior impacto.

Estas são baseadas no trabalho da Open Philanthropy Project, uma fundação com bilhões [Pt. milhares de milhões] de dólares de fundos atribuídos, e o – modestamente chamado – Future of Humanity Institute, um grupo de pesquisa em Oxford.

Você pode usar estas etapas para comparar as áreas nas quais poderia entrar (por exemplo, educação ou saúde), ou se você já se dedica a uma área, pode comparar projetos dentro dessa área (por exemplo, pesquisas sobre Malária ou HIV).

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Tempo de leitura: 8 minutos ou veja nosso curto vídeo. Se você simplesmente quiser ver quais são os problemas que achamos mais prementes, avance para o próximo artigo. Você também pode ver os detalhes técnicos que fundamentam o enquadramento.

Os pontos principais

Os problemas mais prementes tendem a ter uma boa combinação das seguintes qualidades:

  1. Grande em escala: Qual a magnitude desse problema? Em que medida isso afeta a vida das pessoas atualmente? Resolver isso terá que tipo de efeito a longo prazo?
  2. Negligenciado: Quantas pessoas e recursos já se dedicam a resolver esse problema? Quão bem alocados estão os recursos atualmente dedicados ao problema? Existem boas razões pelas quais os mercados ou os governos ainda não estejam progredindo nesse problema?
  3. Solucionável: Quão fácil seria ter progresso na solução deste problema? Já existem intervenções para resolver esse problema eficazmente, e as evidências que as suportam até que ponto são fortes?

Para encontrar o problema em que você deve trabalhar, considere também se é à sua medida. Você poderia se sentir motivado em trabalhar nesse problema? Caso já tenha um longo percurso em sua carreira, você tem alguma experiência relevante?

Veja como aplicamos este enquadramento no próximo artigo.

1. Este problema é grande em escala?

Nós tendemos a avaliar a importância de diferentes problemas sociais usando a nossa intuição, ou seja, o que parece importante em um nível pessoal.

Por exemplo, em 2005, a BBC escreveu:

Todas as centrais nucleares serão desligadas dentro de alguns anos. Como podemos manter as luzes da Grã-Bretanha acesas? …Desconecte o carregador do seu celular [Pt. telemóvel] quando ele não estiver em uso.

Isso irritou tanto David MacKay, um professor de física em Cambridge, que ele decidiu descobrir exatamente o quão ruim é deixar seu telefone celular conectado. Veja a história de sua tentativa de descobrir.

O resultado é que, mesmo se nenhum carregador de celular fosse esquecido conectado novamente, a Grã-Bretanha economizaria no máximo 0,01% de seu uso pessoal de energia (e isso sem contar com o uso industrial e afins). Portanto, mesmo que fosse totalmente bem-sucedida, uma estimativa rápida mostra que essa campanha da BBC não teria nenhum efeito perceptível. MacKay disse que era como “tentar salvar o Titanic com um coador”.

Em vez disso, esse esforço poderia ter sido usado para mudar o comportamento de uma forma que poderia facilmente ter um impacto 100 vezes maior sobre a mudança climática, como a instalação de isolamento residencial. 1

Décadas de pesquisa mostraram que nossa intuição é ruim em avaliar as diferenças de escala. Por exemplo, um estudo descobriu que as pessoas estavam dispostas a pagar aproximadamente a mesma quantia para salvar 2 000 aves do derramamentos de petróleo do que para salvar 200 000 aves, mesmo que essa opção seja objetivamente cem vezes melhor. Este é um exemplo de um erro comum chamado negligência do alcance.

Em vez disso, precisamos usar números para fazer comparações, mesmo que sejam muito preliminares.

No artigo anterior, dissemos que o impacto social depende da medida em que você ajuda os outros a viver melhor. Então, com base nessa definição, um problema tem maior escala:

  1. Quanto maior o número de pessoas afetadas
  2. Quanto maior o tamanho dos efeitos por pessoa e,
  3. Quanto maiores os benefícios (a longo prazo) de resolver o problema.

A escala é importante porque o efeito das atividades em um problema é geralmente proporcional ao tamanho do problema. Lance uma campanha que acabe com 10% do problema do carregador de telefone e você conseguirá muito pouco. Lance uma campanha que convença 10% das pessoas a instalar isolamento de casas e obterá um resultado muito maior.

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Se em nossas vidas diárias nos importássemos tão pouco com a importância relativa de diferentes problemas.

2. Trabalhe em um problema que seja negligenciado

No artigo anterior, vimos que a medicina nos EUA e no Reino Unido é um problema relativamente congestionado – já existem mais de 700 000 médicos nos EUA e os gastos com saúde são altos, o que torna mais difícil para uma pessoa a mais trabalhar com saúde e fazer uma grande contribuição. 2

A saúde nos países pobres, no entanto, recebe muito menos atenção, e essa é uma razão pela qual é possível salvar uma vida por apenas 7 500 dólares.

Quanto mais esforço já estiver sendo aplicado a um problema, mais difícil será para você ter sucesso e fazer uma contribuição significativa. Isto é devido aos rendimentos decrescentes.

Quando você colhe frutos de uma árvore, você começa com aqueles que são mais fáceis de alcançar – os frutos mais baixos. À medida que estes desaparecem, fica cada vez mais difícil conseguir uma refeição.

É o mesmo com o impacto social. Quando poucas pessoas trabalham em um problema, geralmente há várias grandes oportunidades para progredir. À medida que mais e mais trabalho é feito, torna-se cada vez mais difícil ser original e gerar um grande impacto. É mais ou menos assim:

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Relação: maior esforço, menores lucros – é conhecimento básico em economia.

Os problemas que seus amigos estão comentando e que você vê nas notícias são onde todo mundo já está focado. Então, esses não são os problemas negligenciados, e provavelmente não são os mais urgentes.

Em vez disso, os problemas mais urgentes – aqueles em que você tem maior impacto – são provavelmente áreas em que você nunca pensou em trabalhar.

Todos nós sabemos sobre a luta contra o câncer [Pt. cancro], mas e quanto aos vermes parasitários? Isso não contribui para um videoclipe de caridade tão bom, mas essas criaturas minúsculas infectaram um bilhão [Pt. mil milhões] de pessoas em todo o mundo com doenças tropicais negligenciadas. 3 Essas condições são muito mais fáceis de tratar do que o câncer, mas nunca ouvimos falar delas porque elas raramente afetam as pessoas ricas.

Então, em vez de seguir a tendência, procure problemas que outras pessoas estejam sistematicamente a negligenciar. Por exemplo:

  1. O problema afeta grupos negligenciados, como aqueles muito distantes, animais ou nossos netos, em vez de nós?
  2. O problema é um evento de baixa probabilidade, que pode estar sendo negligenciado?
  3. Será que poucas pessoas sabem do problema?

Seguir este conselho é mais difícil do que parece, porque significa que você se destacará da multidão, e isso pode significar que você pareça um pouco estranho.

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Ok, isso é um problema negligenciado, mas a negligência não é a única coisa que você precisa procurar.

3. Trabalhar em problemas que são solucionáveis

Muitos programas de caridade não funcionam. Aqui está um exemplo no campo da redução do crime juvenil.

O “Scared Straight” é um programa que leva jovens que cometeram pequenos delitos a visitar prisões e a conhecer criminosos condenados, confrontando-os com o seu futuro provável, caso não mudem de rumo. O conceito provou ser popular não apenas como um programa social, mas como entretenimento; foi adaptado tanto para um aclamado documentário quanto para um programa de TV da A&E, que quebrou recordes de audiência para a rede em sua estréia.

Há apenas um problema com o “Scared Straight”: provavelmente faz com que os jovens cometam mais crimes.

Ou, mais precisamente, os jovens que passaram pelo programa de fato cometem menos crimes do que cometiam antes, então superficialmente parecia que funcionava. Mas a diminuição foi menor em comparação com jovens semelhantes que nunca passaram pelo programa.

O efeito é tão significativo que o Instituto Estadual de Políticas Públicas de Washington estimou que cada dólar gasto em programas “Scared Straight” causa mais de 200 dólares em danos sociais. 4 Essa estimativa nos parece um pouco pessimista demais, mas, mesmo assim, parece que foi um grande erro.

Ninguém sabe ao certo por que isso acontece, mas pode ser porque os jovens perceberam que a vida na prisão não era tão ruim quanto pensavam, ou porque passaram a admirar os criminosos.

Algumas tentativas de fazer o bem, como o “Scared Straight”, tornam as coisas piores. Muitas outras, não conseguem gerar impacto. David Anderson, da Coalizão para Políticas Baseadas em Evidência, estima:

Dos [programas sociais] que foram rigorosamente avaliados, a maioria (talvez 75% ou mais), incluindo aqueles apoiados por opiniões de especialistas e estudos menos rigorosos, acabam produzindo efeitos pequenos ou nulos e, em alguns casos, efeitos negativos.

Isso sugere que, se você escolher uma instituição de caridade para se envolver sem olhar para as evidências, provavelmente não terá nenhum impacto.

Pior, é muito difícil dizer, de antemão, quais programas serão eficazes. Não acredita em nós? Experimente o nosso questionário de 10 perguntas e veja se consegue adivinhar o que é eficaz:

JOGUE O JOGO

O teste pede que você adivinhe quais intervenções sociais funcionam e quais não funcionam. Nós testamos esse jogo em centenas de pessoas e elas dificilmente pontuam melhor que escolher ao acaso.

Então, antes de escolher um problema social, pergunte-se:

  1. Será que existe uma maneira de progredir nesse problema com o apoio de evidências rigorosas? Por exemplo, muitos estudos mostraram que as redes de malária previnem a malária.
  2. Será que esta é uma tentativa de experimentar um programa novo, mas promissor, para testar se funciona?
  3. Será que este é um programa com uma chance pequena, mas realista, de causar um grande impacto? Por exemplo, a pesquisa sobre uma questão-chave ou uma campanha política.

Se a resposta a tudo isso é não, então provavelmente é melhor procurar outra coisa.

(Leia mais sobre se é justo dizer que a maioria dos programas sociais não funciona.)

“Scared Straight” mostrou a vida dos delinqüentes juvenis dentro da cadeia, com o objetivo de assustá-los para longe do crime. O único problema: isso os torna mais propensos a cometer crimes do que menos.

Procure o melhor equilíbrio entre os fatores

Você provavelmente não encontrará algo que tenha sucesso em todas as três dimensões. Em vez disso, procure algo que seja melhor no equilíbrio. Pode valer a pena abordar um problema se for extremamente grande e negligenciado, mesmo que pareça difícil de resolver.

Para obter todos os detalhes sobre o enquadramento definido aqui, consulte este artigo detalhado, que também o informa sobre como fazer suas próprias comparações entre áreas.

“À sua medida” e experiência

Não adianta trabalhar em um problema se você não conseguir encontrar papéis que sejam à sua medida – você não ficará satisfeito ou irá gerar muito impacto.

Então, uma vez que você tenha identificado problemas que tenham uma boa combinação de serem grandes, negligenciados e solucionáveis:

  1. Considere todos os papéis que você poderia desenvolver para contribuir com eles. Nós tratamos disso em um artigo posterior.
  2. Limite-os com base em onde você espera ter mais sucesso. Vamos discutir como avaliar o ajuste “à sua medida” em um artigo posterior.

Se você já é especialista em um problema, provavelmente é melhor trabalhar em sua área de especialização. Não faria sentido, por exemplo, que um economista que esteja fazendo sucesso se mude para algo totalmente diferente. No entanto, você ainda pode usar o enquadramento para restringir subáreas, por exemplo, economia do desenvolvimento vs. política de emprego.

Notas e referências

  1. A pessoa britânica média usa cerca de 120 kWh por dia.Fonte: Figura 1.12, Energia sustentável sem o ar quente , por David MacKay, 2008, link arquivado, consultado em 14 de abril de 2017.
    O aquecimento de uma casa não isolada gera um gasto de cerca de 53 kWh por dia, enquanto a adição de isolamento de parede e sotão reduz em 44% a 30 kWh/d. Supondo que uma única casa contenha 2,5 pessoas, em comparação com o uso total de energia por pessoa, isso representa uma redução de 33 / (120 2,5) = 11%.Se desconectar os carregadores de telefone quando não estão em uso reduz o consumo de energia pessoal em menos de 0,01%, então adicionar isolamento residencial é 1100 vezes mais importante. Também pode cortar sua conta de aquecimento em 44%, o que pode significar economizar dinheiro a longo prazo, dependendo do custo do isolamento.Fonte: Figura 21.3, * Energia sustentável sem o ar quente, por David MacKay, 2008, link arquivado, consultado em 14 de abril de 2017.
  2. Estudos descobriram que os Estados Unidos têm cerca de 230 médicos por 100 000 pessoas. Com uma população de aproximadamente 320 milhões, isso significa que há mais de 700 000 médicos nos Estados Unidos.
    “Uma análise de Schieber et al. (1993) dos sistemas de prestação de cuidados de saúde do final dos anos 80 e início dos anos 90 nos 24 países industrializados que compunham os membros da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) revelaram uma disponibilidade de médicos que ia de 90 por 100 000 habitantes (Turquia) até 380 (Espanha). A oferta dos EUA era de 230 por 100 000 pessoas naquela época, um número próximo da média da OCDE de 240. Mais uma vez, constatou-se que os Estados Unidos têm uma proporção de especialistas a generalistas muito maior do que os outros países da OCDE. Os autores concluíram que essas diferenças na mistura de especialidade influenciaram na utilidade das comparações”. Link arquivado, consultado em 11 de março de 2016.
  3. “Doenças Tropicais Negligenciadas (DTNs) são um grupo de doenças parasitárias e bacterianas que causam doenças substanciais para mais de um bilhão [PT.mil milhões] de pessoas em todo o mundo. Afectando as pessoas mais pobres do mundo, as DTN prejudicam o desenvolvimento físico e cognitivo, contribuem para a doença e a morte da mãe e da criança, dificultam a agricultura ou a obtenção de rendimentos e limitam a produtividade no local de trabalho. Como resultado, as DTN prendem os pobres em um ciclo de pobreza e doença ”.Link arquivado , consultado em 11 de março de 2016.
  4. Uma meta-análise da Campbell Collaboration, um dos principais avaliadores da eficácia das políticas sociais, concluiu:

    RESULTADOS
    As análises mostram que a intervenção é mais prejudicial do que não fazer nada.
    O efeito do programa, assumindo um modelo de efeitos fixo ou aleatório, era quase idêntico indo na direção do negativo, independentemente da estratégia meta-analítica.

    CONCLUSÕES DO AUTOR
    Concluímos que programas como “Scared Straight” provavelmente têm um efeito prejudicial e aumentam a delinqüência em relação a não fazer nada aos mesmos jovens.
    Tendo em conta estes resultados, não podemos recomendar este programa como uma estratégia de prevenção do crime. As agências que permitem tais programas, no entanto, devem avaliá-las rigorosamente não apenas para garantir que estão fazendo o que pretendem (prevenir o crime) – e, no mínimo, que não causem mais mal do que bem aos próprios cidadãos que prometem proteger.

    Link, PDF arquivado do relatório completo, consultado em 27 de abril de 2017.
    Uma revisão dos programas sociais americanos fez uma análise de custo-benefício do programa, concluindo que havia 203 dólares de custos sociais incorridos por 1 dólar investido no programa. Veja a Tabela 1. No entanto, observe que essa estimativa é bastante antiga e pode estar desatualizada. Além disso, somos geralmente céticos quanto a diferenças muito grandes entre custos e benefícios, por isso duvidamos que a taxa real seja tão alta quanto esta. No entanto, o programa parece ter sido um uso terrível de recursos.
    Link arquivado, consultado em 31 de março de 2016.


Por , Guia de Carreiras da 80,000 Hours (parte 4), última atualização

Tradução de Celso Vieira e Thiago Tamosauskas. Revisão de José Oliveira.

 

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