A GiveWell está a explorar oportunidades de doação que são mais difíceis de medir

Por Catherine Cheney (Devex)

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GiveWell, novas oportunidades de doação? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Elie Hassenfeld e Holden Karnofsky, co-fundadores da GiveWell, não tinham qualquer experiência em filantropia quando lançaram a organização que avalia instituições de caridade.

Os ex-analistas de fundos de investimento criaram a GiveWell em 2007 como uma maneira de responder à simples pergunta “Para onde devo doar?” e ao concentrar-se em programas com resultados que poderiam ser facilmente medidos.

Mas, desde então, a GiveWell tornou-se influente no campo da filantropia, orientando as doações das pessoas que se identificam como altruístas eficazes, o que significa que estas procuram fazer o maior bem que podem com cada moeda que doam.

Agora, depois de mais de uma década de pesquisa, a organização está a expandir o seu âmbito ao explorar oportunidades “para potenciar recursos governamentais e afectar políticas governamentais”. E nos próximos três anos, a organização tem nos seus planos dobrar o tamanho da sua equipa de pesquisa, de 10 para 20 pessoas.

Expandir o âmbito da pesquisa

Tradicionalmente, a GiveWell tem-se concentrado nos tipos de intervenção que podem ser medidos por meio de estudos aleatórios controlados, tais como a distribuição de mosquiteiros tratados com insecticida.

Mas, recentemente, ao explorar se iria apoiar a defesa de políticas, a organização que avalia instituições de caridade fez uma doação de incubação a uma organização que se ocupa da remoção de pesticidas altamente perigosos da agricultura local de pequena escala para prevenir mortes por envenenamento intencional por pesticidas.

A decisão foi inspirada na pesquisa de James Snowden, analista de pesquisa sénior da GiveWell, que trabalhou anteriormente para o Centre for Effective Altruism no Reino Unido.

Aí, deparou-se com um assunto sobre o qual nunca tinha ouvido falar: pelo menos 1 em cada 8 pessoas que morrem por suicídio por ano fazem-no ingerindo pesticidas. Em países de rendimentos baixos e médios, onde há menos regulamentações sobre pesticidas, é mais fácil para os indivíduos obterem as formas mais letais, disse Snowden.

“Isto encaixa-se no conjunto de coisas que muitas vezes são promissoras para grupos como nós”, disse ele à Devex. “Caso se encontre uma causa de morte surpreendentemente grande sobre a qual nunca se ouviu falar no Ocidente, o mais provável é que ninguém esteja a doar dinheiro para ajudar.”

Snowden começou a investigar a prevenção do suicídio por pesticidas como uma área potencial de alto impacto para a filantropia, ao analisar os dados do Sri Lanka, onde os suicídios diminuíram após a proibição de pesticidas particularmente perigosos.

Cinco meses depois de ingressar na GiveWell como consultor de pesquisa, a organização concedeu uma doação de 1,3 milhão de dólares ao Centro de Prevenção ao Suicídio por Pesticidas.

“Quando se trabalha como financiador filantrópico, o seu impacto é em função de 1) quanto financiamento se influencia, e 2) em que medida se pode melhorar a distribuição desse financiamento”, escreveu Snowden em um post sobre como é trabalhar na GiveWell, onde explicou como o seu trabalho em grande medida promove ambos.

A GiveWell movimenta cerca de 150 milhões de dólares por ano para as suas melhores instituições de caridade. Isso deve-se em parte à sua parceria com a Good Ventures, uma fundação privada co-fundada pelos filantropos bilionários, Cari Tuna e Dustin Moskovitz, que forneceram mais de 75 milhões de dólares em doações às principais instituições de caridade da GiveWell em 2017. Essas melhores instituições de caridade actuam na prevenção da malária, na suplementação de vitamina A, em programas de desparasitação e na distribuição de dinheiro directamente aos pobres.

Caso se encontre uma causa de morte surpreendentemente grande sobre a qual nunca se ouviu falar no Ocidente, o mais provável é que ninguém esteja a doar dinheiro para ajudar.

– James Snowden, analista de pesquisa sénior da GiveWell

Agora, à medida que a GiveWell expande o âmbito da sua pesquisa para além das intervenções directas, várias organizações que trabalham em sectores como nutrição, agricultura, educação ou saúde mental podem ser elegíveis para financiamento.

Snowden disse que, à medida que a GiveWell expande o seu âmbito de pesquisa para incluir políticas, está a começar pela regulamentação da saúde pública.

“Ainda são intervenções bem definidas”, disse ele referindo-se a áreas como o controle do tabagismo ou a regulamentação de tintas à base de chumbo.

A partir daí, a equipa de pesquisa irá considerar outras intervenções directas em sectores onde o impacto pode ser mais difícil de medir, inclusive na melhoria de implementações governamentais ou aumentando os gastos com a ajuda internacional.

Aumentar a equipa de pesquisadores

Hassenfeld, o director executivo da GiveWell, reconheceu que será um desafio progredir em áreas onde é mais difícil determinar a causalidade.

“Na minha opinião, somos excelentes avaliadores de pesquisa empírica, mas ainda precisamos demonstrar a capacidade de tomar boas decisões sobre oportunidades de doação quando há menos informações empíricas disponíveis”, escreveu Hassenfeld num post recente.

Hassenfeld explica que uma alteração será mudar da pergunta: “Esta intervenção atende aos nossos critérios?” para: “Qual é a nossa melhor estimativa sobre quão promissora será esta intervenção relativamente às nossas melhores instituições de caridade?”

A GiveWell tem nos seus planos continuar a partilhar os detalhes das suas pesquisas e a fundamentação das suas recomendações. A redacção da sua recomendação recente de uma atribuição de fundos à Iniciativa de Inovação no Governo do Abdul Latif Jameel Poverty Action Lab demonstra como essa abordagem se estende ao seu trabalho exploratório em políticas.

Mas como a GiveWell começa a avaliar sectores onde o impacto é mais difícil de medir, a organização está à procura de novos perfis de competências nas suas novas contratações.

“O nosso objectivo é contratar pessoas que sejam entusiastas relativamente a ajudar os pobres do mundo o máximo possível, que sejam hábeis em expressar aquilo em que acreditam e por que acreditam nisso, e que possam interpretar e criticar análises estatísticas e entender inferências causais”, disse Catherine Hollander, analista de pesquisa na GiveWell, num fórum online onde as pessoas colocaram questões sobre as mudanças na GiveWell.

Apesar de ter dito que espera que a maioria dos analistas de pesquisa tenha formação em áreas como matemática, economia ou estatística, enfatizou que é igualmente valioso aquilo que a GiveWell define como “atitude de busca-da-verdade” face à “objectividade, curiosidade, mentalidade aberta e humildade”.

Esses novos papéis exigirão “mais criatividade, mais capacidade de decisão, mais pensamento a um nível sistémico”, disse Snowden. Explicou que, quanto mais se sobe na pirâmide do impacto, mais isso envolve decisões pessoais difíceis.

“Não é: «Aqui estão todas as intervenções. Vamos alinhá-las e ordená-las»”, disse Snowden. “O melhor que se pode fazer é tentar ser o mais explícito que se puder acerca das razões para se tomar determinadas decisões pessoais difíceis.”


Originalmente publicado por Catherine Cheney na Devex, a 24 de Maio de 2019.

Tradução de José Oliveira.

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