Como se preparar para ficar em casa (guia de 1 pág. p/ impressão)

Por Kelsey Piper (Vox)

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Coronavírus, como preparar-se para ficar em casa? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Imagine que, daqui a duas semanas, o país está praticamente em quarentena. Apenas as mercearias e as farmácias permanecem abertas e há limites para quantas pessoas podem estar lá dentro de uma só vez. As outras lojas estão fechadas e muitos serviços de entrega foram encerrados.

Caso isso lhe pareça terrível, trata-se de uma descrição daquilo que se passa em Itália, actualmente, face à pandemia do coronavírus. E, de certa perspectiva, parece que estamos a reproduzir a trajectória da Itália de modo bastante aproximado, com um atraso de cerca de duas semanas. Portanto, esta não é uma altura para entrarmos em pânico, mas sim para nos prepararmos — para estarmos prontos por semanas ou até meses, quando quase tudo estiver fechado. Mesmo que se esteja num local onde as lojas estejam abertas, muitos de nós não vão querer entrar em espaços públicos lotados que normalmente frequentamos sem pensarmos duas vezes.

“As pessoas devem estar preparadas para ficar em casa”, disse à Vox a Dra. Caitlin Rivers, do Centro de Segurança em Saúde da Universidade Johns Hopkins. “Acho que o pior ainda está para vir”.

Então o que precisamos? Em que devemos pensar para nos prepararmos? Apesar de as prateleiras das lojas estarem mais vazias do que o costume e de uma grande quantidade de coisas estar esgotada, as pessoas ainda não pensaram realmente naquilo que irá acontecer nas próximas semanas e meses — poderá muito bem ser como algo que nunca vimos antes. Eis um guia para aquilo que é essencial (e uma versão para se imprimir).

G1(Ficar em Casa)

Amanda Northrop / Vox

 

Nem todos teremos dinheiro que chegue para reagir acumulando bens essenciais. Para muitas pessoas que vivem no limite das suas poupanças, o vírus já interrompeu os seus cheques de pagamento e os seus meios de subsistência, e mais interrupções estão para vir, mas se tiver dinheiro parar fazer algumas compras agora, isso fará com que seja mais fácil de lidar com o surto, e estará a ajudar a proteger os seus concidadãos que não têm.

Todas as pessoas a mais numa loja aumentam as possibilidades de propagação do coronavírus, e muitas pessoas podem, sem saber, ser portadoras. Ficar em casa significa que pessoas doentes (incluindo aquelas que ainda não se deram conta de que estão doentes) transmitem o vírus a menos pessoas. Se em média, estes o espalharem para menos de uma pessoa a mais, os números de casos irão diminuir. E até mesmo só atrasar o crescimento no número de casos pode salvar vidas, fazendo com que ganhemos mais tempo para nos prepararmos.

Portanto, preparar-se para o isolamento que, nós e a nossa família, podemos enfrentar em breve, não é egoísmo; é uma maneira de ajudar a proteger as pessoas que não têm recursos para se prepararem. Isso permite-lhe evitar deslocações que possam deixá-las doentes. Também lhe permite enfrentar os problemas em casa, em vez de entupir um centro de atendimento de emergência ou as urgências de um hospital, quando é provável que ambos estejam sobrelotados.

Se puder comprar algumas coisas que lhe possam permitir superar o distanciamento social, crises de reposição de bens, o encerramento das escolas e a possibilidade de ficar doente, isso será q coisa sensata a fazer-se. Dito isto, não entre em pânico comprando enormes quantidades de coisas que não lhe farão falta, tornando mais difícil para outras pessoas obter essas coisas, o que realmente o coloca em maior perigo!

Aqui está uma versão expandida do guia acima sobre algumas aquisições que podem fazer com que umas poucas semanas enervantes passem de forma mais calma.

Produtos de limpeza

Manter limpas as divisões da sua casa, electrodomésticos e superfícies não é apenas uma boa prática geral  —  é cada vez mais importante, à medida que ficamos a saber mais sobre como o coronavírus se pode propagar e permanecer em aparelhos como telefones, mas isso não significa que precise de limpar tudo com Lysol: alguns produtos de limpeza básicos e boas práticas ajudarão bastante.

  • Sabão: provavelmente já viu a corrida ao Purell e a outros desinfectantes para as mãos — que estão esgotados em muitos lugares ou são vendidos com preços proibitivos on-line — mas a lavagem tradicional com sabão e água é a maneira recomendada para se limpar e ainda estão disponíveis. Compre um sabão que goste de usar; o mais importante é que esteja realmente disposto a usá-lo para lavar as mãos regularmente por um período mínimo de 20 segundos.

“Lave as suas mãos muito mais do que pensa ser necessário lavar”, disse-me a Dra. Rebecca Katz, directora do Centro de Ciência e Segurança em Saúde Global da Universidade de Georgetown. “Não é satisfatório porque as pessoas acham que deveriam fazer muito mais, mas neste momento é o melhor conselho que podemos dar”. Não negligencie as medidas básicas mais importantes que podem proteger a sua saúde e segurança, só porque agora também foram acrescentadas precauções muito mais intensas.

  • Toalhas, lençóis limpos, qualquer outra coisa de que possa precisar mais, à medida que os seus hábitos de limpeza mudam: se a sua família é como a minha, depois de lavar as mãos, seca-as numa toalha que é lavada sempre que alguém se lembra. Considere comprar mais toalhas e trocá-las com mais frequência. No geral, volte a pensar nos seus hábitos domésticos agora que, esperemos, está a lavar mais, a limpar mais as superfícies e a passar mais tempo em casa — o que precisa para manter a melhoria dos seus hábitos?
  • Toalhetes desinfectantes: A limpeza de superfícies (incluindo o telefone) pode garantir que o vírus não permaneça nestas. A maioria dos toalhetes desinfectantes funcionará bem para isso, mas verifique esta lista da EPA [Agência de Protecção Ambiental] para garantir que o seu produto de limpeza preferido realmente mata o vírus — alguns produtos de limpeza naturais não o fazem.
  • Luvas descartáveis: Usar luvas é óptimo para me lembrar de não tocar no meu rosto (embora, a menos que se esteja a removê-las adequadamente e se não as lavarmos ou reutilizarmos, estas não tornam seguro tocar em superfícies contaminadas). Com a preocupação do vírus ser transmitido pelo correio e pelas encomendas, a minha família tem-nos aberto na varanda com luvas. Provavelmente não precisará de ser tão paranóico, mas se alguém na sua casa ficar doente, poderá querer luvas para lidar com substâncias contaminadas. E uma vez tendo uma provisão por perto, descobrimos que estas também tornam menos desagradável o mudar das fraldas.

Alimentos, mercearia, bens essenciais

A cadeia de abastecimento de alimentos não vai ser interrompida. E acumular pode causar problemas, mas “as pessoas podem querer começar lentamente a armazenar alimentos não perecíveis o suficiente para sustentar as suas famílias por várias semanas no distanciamento social em casa”, escreveram os especialistas em comunicação sobre riscos, Jody Lanard e Peter Sandman. Deve planear para a eventualidade de interrupções e inconvenientes, mas não precisa de temer a falta de alimentos.

Observando o desempenho do coronavírus noutros países, parece provável que as pessoas precisem planear idas menos frequentes aos supermercados e, se ficarem doentes, poderão não querer sair de todo para fazer compras. Também é possível que muitas comunidades fiquem em casa por muito tempo, possivelmente meses, por isso o tédio é uma preocupação real, visto que muitas actividades públicas foram restringidas. Considere as seguintes compras:

  • Abastecer-se de alimentos não perecíveis se o acesso aos supermercados for limitado por algum tempo. Por exemplo, a sua cidade ou a sua região podem começar a limitar quantas pessoas podem estar nas lojas de cada vez, criando longas filas, como aconteceu em algumas áreas da Itália. A maneira mais barata de garantir que se alimenta é provavelmente alguns sacos grandes de arroz e de feijão, mas lembre-se de que os alimentos também são importantes para a sua disposição — os aperitivos de que realmente gosta podem tornar mais suportáveis os longos períodos de restrição de movimentos. Na minha casa armazenou-se chocolate e pipocas, para além da farinha, da manteiga, das lentilhas e do arroz.
  • Café ou chá são bons para se ter à mão, especialmente se tiver um hábito de cafeína. Ficará muito menos feliz preso em casa se não os tiver e, à medida que as coisas pioram, correr para os tomar na rua pode não ser uma boa ideia (ou a sua cidade ou região podem fechar todos os negócios não essenciais).
  • Um kit de primeiros socorros: os hospitais de algumas partes dos Estados Unidos provavelmente estão sobrelotados, e muitos já estão a cancelar cirurgias que não são urgentes, o que significa que será mais difícil o acesso aos hospitais por ferimentos e doenças que não têm nada a ver com o coronavírus, disse-me uma antiga enfermeira de uma Unidade de Tratamentos Intensivos, a Miranda Dixon-Luinenburg: “Mesmo nos casos moderadamente graves, os tempos de espera no pronto-socorro” estarão fora de controlo, disse ela. E se ainda não tem o coronavírus, “não irá querer esperar por muitas horas, mesmo que acabem por atendê-lo”, porque corre o risco de apanhá-lo de outra pessoa na sala de espera.

Portanto, esteja preparado para tratar tudo a partir de casa: tem líquidos de reidratação? Ligaduras [Br. ataduras]? Medicamentos sem receita? Toalhetes anti-sépticos? Compressas de frio e calor? Coisas como intoxicações alimentares ou gastroenterite podem ser tratadas com segurança em casa, a menos que seja “incapaz de manter os líquidos ingeridos e tenha sintomas de desidratação”, disse Dixon-Luinenburg. Os cortes podem ser tratados em casa com gaze para parar o sangramento, pomada antibiótica tópica e curativos, a menos que haja “sinais de infecção (a área está quente, muito sensível, inchada, com pus, ou se o sangramento não parar”, disse-me.

“Para ferimentos que possam ser entorses/possa estar partido, provavelmente isso leva a esperar até que melhore e a tratar com gelo + descanso + analgésicos, em vez de ir imediatamente ao pronto-socorro para verificar. (Se este conseguir aguentar peso, provavelmente nem está partido). Porém, se o seu braço estiver dividido em duas partes, está definitivamente partido e não pode ser tratado em casa”.

Como disse ontem ao meu filho de 3 anos, os médicos estão muito ocupados e é uma má altura para acrobacias nas escadas — e uma má altura para não estar preparado caso o seu filho de 3 anos faça isso de qualquer das formas.

  • Se o seu médico e o seu seguro aprovarem que acumule 90 dias de medicação, o Centro de Controlo de Doenças (CDC) recomenda que o faça.

Lutar contra o tédio

Muitos estados anunciaram inicialmente as paralisações por algumas semanas, mas os especialistas dizem que devemos esperar que as coisas estejam fechadas por muito mais tempo do que isso. “Acho que continuaremos a ver uma expansão da epidemia aqui nos EUA”, disse Rivers. “Acho que também veremos as medidas de mitigação correspondentes”. Portanto, deve esperar que seja uma questão de meses antes de retomar a sua vida normal. Planeie aquilo que precisará para se manter entretido, e à sua família, em casa.

  • Passatempos: Já pensou em aprender a bordar? A fazer tricô? Fazer maquetes? Fazer bolos? Esta é uma boa altura para enveredar por uma actividade que pode fazer em casa. A disposição também conta!
  • Coisas para trabalhar a partir de casa: se for possível fazer o seu trabalho remotamente, deve preparar-se para que o incentivem ou para que lhe peçam para trabalhar a partir de casa pelos próximos meses. Tenha uma mesa e uma cadeira confortáveis ​​e considere outras contingências como um local com bom acesso à Internet pré-pago, caso esta não seja confiável.
  • Aparelhos e, possivelmente, peças para substituir: se o seu telefone ou o seu computador deixarem de funcionar, na melhor das alturas isso será uma inconveniência. Nesta altura, pode ser mais do que isso, se estiver dependente destes aparelhos de comunicação para trabalhar ou interagir com o mundo exterior e as lojas não estejam abertas para fazer a substituição. Se puder comprar um telefone de reserva, uma bateria sobressalente ou peças para substituir para os aparelhos dos quais depende, então não estará tão sujeito a esse problema.
  • Algo para o tempo de lazer: é melhor encarar a realidade, pode ficar preso com a família, com alguém com quem partilha a casa, ou com parceiros durante algum tempo (e os especialistas não recomendam mesmo os pequenos encontros com outros familiares, que ainda assim podem transmitir o vírus). Por isso, tenha à mão algumas coisas que podem fazer juntos: jogos de tabuleiro, jogos de vídeo, partituras para cantar juntos, pipocas para as noites de cinema. Se não tiver como comprar muita coisa, lembre-se de que muitas actividades que podem fazer com que os dias longos passem mais depressa, são basicamente gratuitas: a minha família está a planear um jogo de Dungeons & Dragons, que pode ser feito com materiais on-line gratuitos e com um conjunto de dados (se os dados forem muito caros, o seu telefone serve para o efeito).

Caso fique doente

De acordo com os dados da China, para cerca de 80% das pessoas que contraem o coronavírus, os sintomas são leves. “Leve”, porém, não significa que será apenas uma constipação [Br. resfriado] — significa apenas que não irá precisar de ser hospitalizado. Ainda assim poderá ser como a pior gripe da sua vida.

Ultrapassá-la em sua casa, no entanto, significa que as camas do hospital podem ser reservadas para quem precise delas. “Se está bem em casa, deve ficar em casa”, disse-me Rivers.

Por isso abasteça-se de coisas que o possam ajudar a superar uma febre e tosse intensas, para além de outros sintomas desagradáveis. Isso provavelmente inclui:

  • Medicamentos para reduzir a febre, como o paracetamol (Tylenol). Não há nada pior do que tentar descobrir as instruções de dosagem dos medicamentos, enquanto se está maldisposto ​​e doente, portanto procure essas informações agora! Se não conseguir controlar a sua febre com medicamentos sem receita, procure atendimento médico.
  • Um termómetro para monitorizar a sua febre: isso pode ajudá-lo a perceber, em primeiro lugar, que está doente (a febre é o sintoma mais comum e geralmente o primeiro) e a perceber se a sua febre está perigosamente alta ou se a medicação não está a baixá-la.
  • Medicamentos para controlar a tosse, incluindo pastilhas e xaropes para a tosse como Dayquil /Nyquil. O nariz entupido/ corrimento nasal parece ser raro entre os pacientes do Covid-19, mas para as doenças em geral, descongestionantes como Sudafed podem ser úteis.
  • Um humidificador também pode ajudar bastante com uma tosse que dificulta o sono. Se não possui um humidificador, sentar-se numa divisão cheia de vapor (como aquela em que está o chuveiro) pode ajudar.
  • Soluções de reidratação: pode comprá-las na forma de algo como Pedialyte ou Gatorade, ou pode fazer uma em casa com um litro de água potável, uma colher de açúcar e uma pitada de sal. Manter-se hidratado enquanto está doente pode ajudá-lo a recuperar mais rapidamente e garantir que não precisa de atenção médica — o que pode estar disponível apenas para pessoas muito doentes. Eu encomendei o Gatorade porque prefiro o sabor: a melhor solução de reidratação é aquela que realmente se queira beber. (mas não compre a que não tem açúcar — o açúcar é o que seu corpo precisa!)
  • Também comprei um medidor de tensão arterial — que custa cerca de 20 dólares — na última vez que tive uma doença respiratória. Quando parece que se está com problemas para respirar, pode ser difícil saber se é apenas ansiedade ou se está realmente com problemas respiratórios. O medidor revela se estamos realmente com falta de ar. Nas pessoas saudáveis os níveis de oxigénio no sangue são geralmente 96-100. “Os aparelhos domésticos não são confiáveis (honestamente, os dos hospitais também não são confiáveis!)”, disse-me Dixon-Luinenberg, “por isso leve a sério a leitura da tensão se demorar mais de cinco minutos em vários dedos diferentes enquanto estiver sentado confortavelmente imóvel e com as mãos quentes. Uma leitura repetida abaixo de 92% é preocupante.”

Mas, para mim, o medidor de tensão era muito útil para a ansiedade —podia colocá-lo no dedo e ter a certeza de que provavelmente não estava muito doente e que nem precisava de um médico.

Se o tratamento pessoal em casa não for o suficiente, deve ligar com antecedência antes de procurar o atendimento médico, para que se tomem as devidas precauções, dizem os especialistas: “Se começar a ficar preocupado com o facto de não se estar a sentir bem em casa, ligue para o seu médico ou ligue para as urgências”, disse-me Rivers. “Ligue com antecedência para que saibam que está a chegar e para que possam ter certeza de que não ficará numa sala de espera.”

Esclarecimento: Uma versão anterior deste artigo recomendou a compra de ibuprofeno como um medicamento para reduzir a febre. Devido a algumas incertezas quanto à possibilidade de agravar os sintomas do coronavírus, foi removido da lista. Actualmente, no entanto, a Organização Mundial da Saúde afirmou que “não tem conhecimento de relatos de efeitos negativos do ibuprofeno, além dos efeitos colaterais usuais conhecidos que limitam o seu uso em determinadas populações”.


Publicado originalmente por Kelsey Piper na Vox, a 19 de Março de 2020.

Tradução de Rosa Costa e de José Oliveira.

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