Os dois lados sombrios da COVID-19

Por Peter Singer e Paola Cavalieri (Project Sindicate)

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Coronavírus, como acabar com ele? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Historicamente, tragédias como a atual epidemia da COVID-19, levaram por vezes a mudanças importantes. A provável fonte do novo coronavírus os chamados wet markets [“mercados molhados”], nos quais os animais vivos são vendidos e abatidos aos olhos dos clientes deve ser proibida não apenas na China, mas em todo o mundo.


As imagens apocalípticas do encerramento total da cidade chinesa de Wuhan chegaram a todos nós. O mundo suspendeu a sua respiração por causa da disseminação do novo coronavírus, a COVID-19, e os governos estão tomando ou preparando medidas drásticas que necessariamente sacrificam os direitos e liberdades individuais para o bem geral.

Alguns focam a sua raiva na falta de transparência da China sobre o surto no início. O filósofo Slavoj Žižek falou da “paranoia racista” que atua na obsessão pela COVID-19, quando há muitas doenças infecciosas piores, das quais milhares morrem todos os dias. Aqueles que são propensos a teorias da conspiração acreditam que o vírus é uma arma biológica que tem por alvo a economia da China. Poucos mencionam, muito menos confrontam, a causa subjacente da epidemia.

Tanto a epidemia de SARS (Síndrome Respiratória Aguda Grave) de 2003 quanto a atual podem ser atribuídas aos “mercados molhados” da China – mercados ao ar livre onde os animais são comprados vivos e depois abatidos no local para os clientes. Até ao final de dezembro de 2019, todos os afetados pelo vírus tinham alguma ligação com o Mercado Huanan de Wuhan.

Nos mercados molhados da China, muitos animais diferentes são vendidos e mortos para serem comidos: filhotes de lobos, cobras, tartarugas, porquinhos da índia, ratos, lontras, texugos e civetas. Existem mercados semelhantes em muitos países asiáticos, incluindo Japão, Vietnã e Filipinas.

Nas áreas tropicais e subtropicais do planeta, os mercados molhados vendem mamíferos, aves, peixes e répteis vivos, amontoados e compartilhando a sua respiração, o seu sangue e os seus excrementos. Como relatou recentemente o jornalista da Rádio Pública Nacional dos EUA, Jason Beaubien: “Peixes vivos em bacias abertas espalham água por todo o chão. As bancadas das tendas estão vermelhas de sangue, enquanto os peixes são estripados e cortados em filetes diante dos olhos dos clientes. Tartarugas e crustáceos vivos sobem uns para cima dos outros em caixas. Gelo derretendo aumenta a lama no chão. Há muita água, sangue, escamas de peixe e tripas de frango”. São mercados molhados, de fato.

Os cientistas nos dizem que manter diferentes animais em estreita proximidade entre si e com pessoas, por longos períodos de tempo, cria um ambiente insalubre que é a provável fonte da mutação que permitiu a COVID-19 infectar seres humanos. Mais precisamente, em tal ambiente, um coronavírus presente há muito tempo em alguns animais sofreu uma rápida mutação ao mudar de hospedeiros não humanos para outros hospedeiros não humanos e, finalmente, ganhou a capacidade de se ligar a receptores celulares humanos, adaptando-se assim ao hospedeiro humano.

Essas evidências levaram a China, em 26 de janeiro, a impor uma proibição temporária ao comércio de animais selvagens. Não é a primeira vez que tal medida é introduzida em resposta a uma epidemia. Após o surto de SARS, a China proibiu a criação, o transporte e a venda de civetas e outros animais selvagens, mas a proibição foi suspensa seis meses depois.

Hoje, muitas vozes estão pedindo o encerramento permanente dos “mercados de animais selvagens”. Zhou Jinfeng, chefe da Fundação Chinesa para a Conservação da Biodiversidade e Desenvolvimento Verde, apelou para que o “tráfico ilegal de animais selvagens” seja proibido por tempo indeterminado e indicou que o Congresso Nacional do Povo está discutindo um projeto de lei que proíbe o comércio de espécies protegidas. O foco nas espécies protegidas, no entanto, é uma manobra para desviar a atenção do público das circunstâncias terríveis em que os animais em mercados molhados são forçados a viver e morrer. O que o mundo realmente precisa é de uma proibição permanente de mercados molhados.

Para os animais, os mercados molhados são um inferno na terra. Milhares de seres sencientes e palpitantes suportam horas de sofrimento e angústia antes de serem brutalmente massacrados. Essa é apenas uma pequena parte do sofrimento que os seres humanos infligem sistematicamente aos animais em todos os países – na pecuária industrial, em laboratórios e na indústria do entretenimento.

Se pararmos para refletir sobre o que estamos fazendo – e na maioria das vezes não o fazemos – temos uma propensão para justificar isso apelando à suposta superioridade da nossa espécie, da mesma maneira que os brancos costumavam apelar à suposta superioridade da sua raça para justificar a sujeição de seres humanos “inferiores”. Mas, neste momento, quando interesses humanos vitais são tão claramente paralelos aos interesses dos animais não humanos, essa pequena parte do sofrimento que infligimos aos animais nos oferece a oportunidade de uma mudança de atitudes em relação aos membros de espécies não-humanas.

Para conseguir uma proibição de mercados molhados, teremos que superar algumas preferências culturais específicas, bem como a resistência ligada ao fato de que uma proibição causaria dificuldades econômicas àqueles que vivem do mercado. Mas, mesmo sem dar aos animais não humanos a consideração moral que estes merecem, essas preocupações localizadas são decisivamente superadas pelo impacto calamitoso que as epidemias globais cada vez mais frequentes (e talvez as pandemias) virão a ter.

Martin Williams, um escritor que vive em Hong Kong, especializado em conservação e meio ambiente, explica isso bem: “Enquanto esses mercados existirem, a probabilidade de surgir outras doenças novas permanecerá. Certamente, já é hora de a China fechar esses mercados. De uma vez só, esta estaria progredindo em relação aos direitos dos animais e na conservação da natureza, ao mesmo tempo que estaria a reduzir o risco de uma doença ‘Made in China’ prejudicar as pessoas em todo o mundo”.

Mas nós iríamos mais longe. Historicamente, as tragédias às vezes levaram a mudanças importantes. Os mercados em que os animais vivos são vendidos e abatidos devem ser proibidos não apenas na China, mas em todo o mundo.


Publicado originalmente por Peter Singer e Paola Cavalieri no Project Syndicate, a 2 de março de 2020

Tradução de Ligea Hoki. Revisão de José Oliveira.

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