A verdade sobre a vitamina D, zinco e outros boatos sobre o coronavírus

Por Dana G. Smith (Elemental)

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Cura para o coronavírus, verdade ou mentira? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

O que pode funcionar, o que provavelmente não funciona e o que está completamente errado

Há muitas informações erradas e meias-verdades sobre o novo coronavírus a andar por aí. Isso é compreensível — o vírus é muito novo e médicos e cientistas ainda estão a descobrir como a infecção funciona e as melhores maneiras de tratá-la. As notícias relatadas sobre testes, sintomas e tratamentos às vezes são contraditórias, o que é confuso. Para além disso, todo mundo quer se proteger da melhor maneira possível, por isso faz sentido que as pessoas tentem qualquer coisa, comprovada ou não, para evitar o vírus.

Aqui, a Elemental separa os fatos da ficção.

Será que os suplementos de zinco podem proteger contra o coronavírus?

Ainda não há pesquisas sobre se o zinco afetará o novo coronavírus, oficialmente chamado SARS-CoV-2. No entanto, o zinco pode interferir com os outros seis coronavírus, incluindo a SARS original e os quatro coronavírus que causam o resfriado [Pt. constipação] comum.

Quer o zinco possa, ou não, prevenir infecções, não foi estudado tanto quanto as suas propriedades terapêuticas. Um estudo de 2010 feito com células em um recipiente — que, é importante ressaltar, não é como numa pessoa completa — descobriu que o zinco bloqueou a replicação do primeiro coronavírus SARS. Nos seres humanos, no entanto, os dados são contraditórios. Uma metanálise de sete estudos diferentes descobriu que os suplementos de zinco diminuíram a duração de um resfriado [Pt. constipação], que pode ter sido causado por um coronavírus ou um rinovírus, em 33%. Mais recentemente, um estudo duplo-cego e controlado por placebo, publicado pelo mesmo cientista, não observou diferença na duração dos sintomas do resfriado [Pt. constipação] entre as pessoas que tomaram zinco e as que tomaram placebo.
“Se existe um efeito do zinco apenas em resfriados [Pt. constipações] comuns, é bastante modesto e não há informações sobre o zinco e este coronavírus em particular”, diz o especialista em doenças infecciosas, Dr. William Schaffner, professor de medicina preventiva na Vanderbilt University School of Medicine. “Vou repetir isto novamente: mesmo que houvesse um efeito, é apenas modesto. Você não pode tomar suplementos de zinco como substituto de qualquer outra coisa.”

Veredicto: se você se sentir doente, pode valer a pena tomar suplementos de zinco, mas estes não irão impedir que você pegue o vírus.

E o que dizer quanto à vitamina D?

O ex-diretor do Centro de Controle e Prevenção de Doenças, o Dr.Tom Frieden, publicou um artigo de opinião na Fox News nesta semana, afirmando que tomar suplementos de vitamina D poderia ajudar a reforçar o sistema imunológico, uma peça essencial do quebra-cabeça em termos da gravidade que a Covid-19 pode ter.

As vitaminas são essenciais para manter o corpo saudável, especialmente o sistema imunológico. Se você tiver uma deficiência de vitaminas, será uma boa ideia tomar um suplemento; no entanto, poucas pessoas nos EUA têm realmente deficiência de alguma vitamina. A única exceção assinalável pode ser a vitamina D.

Segundo algumas estimativas, quase metade dos americanos tem deficiência de vitamina D, que os seres humanos sintetizam a partir da luz ultravioleta. Agora que a maioria de nós está recolhida em casa, provavelmente estamos recebendo ainda menos vitamina D da exposição ao sol do que antes, por isso, em teoria, tomar um suplemento de vitamina D faz sentido. Em seu artigo, Frieden cita uma meta-análise de 2017 que relatou que pessoas que tomaram vitamina D diariamente ou semanalmente reduziram o risco de desenvolver uma infecção do trato respiratório [Pt. das vias respiratórias]. No entanto, o benefício foi encontrado apenas em pessoas com deficiência de vitamina D; se as pessoas não tinham essa deficiência, não havia benefício. Também é importante observar que não houve pesquisas especificamente sobre vitamina D e a Covid-19.

Veredicto: se você está preocupado com os níveis de vitamina D ou foi informado por um médico que tem essa deficiência, tomar um suplemento faz sentido. Mas por favor não vá ao seu médico pedir um teste agora e tomar vitamina D não é desculpa para não ser obsessivo quanto à lavagem das mãos e a aderir ao distanciamento social.

É perigoso tomar ibuprofeno na época do coronavírus?

A Elemental abordou essa questão em profundidade anteriormente, mas não há provas publicadas de que medicamentos anti-inflamatórios não esteroides como o ibuprofeno aflijam o sistema imunológico ou exacerbem a Covid-19.

Veredicto: O ibuprofeno ou o acetaminofeno (Tylenol) são seguros e eficazes para aliviar as dores e a febre.

Gargarejar com água morna salgada ou beber muita água protege contra o vírus?

Gargarejar com água morna e salgada é um remédio caseiro que serve para aliviar os sintomas de dor de garganta, mas isso é tudo o que isto pode fazer. Não funciona como antiviral para prevenir ou resolver uma infecção. (Além disso, dor de garganta não é um sintoma comum da Covid-19.)

“Se você quiser gargarejar com água salgada três vezes ao dia, tudo bem. Isso fará com que a sua garganta fique melhor, mas não a protegerá contra o vírus”, diz Schaffner.

A hidratação é definitivamente importante se você estiver doente, especialmente se tiver febre ou diarreia, o que pode causar a perda de umidade do corpo, mesmo que você não esteja suando. No entanto, não há provas de que a água potável tire o vírus da sua boca e evite que você fique doente.

Schaffner diz que, aparentemente, faz sentido que alguém possa pensar que, se o vírus tiver que se ligar às células na parte posterior da garganta, este poderá beber um pouco de água e enviar o vírus pelo trato intestinal. Mas, diz ele: “Não me parece que isso funcione dessa maneira. Beber água é bom porque mantém a hidratação, e isso é bom. Mas isso não irá protegê-lo contra o vírus”.

Veredicto: gargareje com água salgada se você tiver dor de garganta para aliviar os seus sintomas e beba água porque é bom para você e a hidratação é importante. Nenhum desses atos o protegerá contra o coronavírus.

O sol matará o coronavírus com o calor e a luz ultravioleta?

Muitos vírus, incluindo o coronavírus SARS original, são destruídos por altas temperaturas (acima de 55 graus celsius) e luz ultravioleta. De fato, alguns hospitais usam regularmente máquinas que emitem luz ultravioleta para higienizar salas e equipamentos. No entanto, ainda não está confirmado se o novo coronavírus, SARS-CoV-2, reage da mesma maneira. Mais importante, o calor e os raios ultravioleta do sol não são suficientemente fortes para ter esse efeito. Estar ao ar livre em um dia ensolarado não destrói as partículas virais nem impede que você seja infectado.

“O calor e a luz ultravioleta não agem com rapidez suficiente para interromper a transmissão entre as pessoas”, diz Schaffner. “Se você está a menos de um metro de mim e eu expiro o vírus, no momento em que você respira o vírus, mesmo se estivermos sob a luz do sol, o vírus ainda não foi morto”.

Essa questão também leva ao debate sobre se o surto desaparecerá durante o verão, como outros vírus sazonais. Há evidências de que o novo coronavírus se espalha mais rapidamente em condições frias e secas, por isso alguns cientistas permaneceram otimistas de que o verão quente e úmido possa proporcionar algum alívio. No entanto, epidemiologistas como o Dr. Marc Lipsitch, de Harvard, disseram que o efeito será modesto e “insuficiente para interromper a transmissão por si só”.

Veredicto: Embora o calor extremo e a luz ultravioleta possam matar o novo coronavírus, ficar ao ar livre ao sol não.

Será que se pode diagnosticar a Covid-19 prendendo a respiração por 10 segundos?

Essa é outra questão que Schaffner diz que aparentemente faz sentido. Se você tem Covid-19 grave com pneumonia, os seus pulmões estão comprometidos e você fará um esforço maior para respirar. Nesse ponto, você provavelmente não conseguirá prender a respiração por 10 segundos, porque precisará respirar com mais frequência para inspirar ar bom e expirar ar ruim.

Mas, diz ele: “Se você está doente, acredite, não precisa fazer um teste prendendo a respiração. Nesse momento, você está com febre, está se sentindo péssimo, com dificuldades para respirar e espero que esteja no consultório do seu médico ou na sala de emergência.”

O teste não lhe dirá nada caso você tenha sido infectado, mas não apresente sintomas ou tenha sintomas sem tosse, dos quais há cada vez mais relatos desde o início do desenvolvimento da doença.

Veredicto: Só porque você pode prender a respiração por 10 segundos não significa que você não foi infectado pelo coronavírus.


Publicado originalmente por Dana G. Smith na Elemental, a 26 de março de 2020.

Tradução de Ligea Hoki. Revisão de José Oliveira.

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