Temos de acordar: a pecuária industrial cria pandemias

 Por Jonathan Safran Foer e Aaron S. Gross (The Guardian)

Coronavírus-pecuária-insdustrial.fx

Coronavírus, razão para acabar com a pecuária industrial? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Pode parecer errado, ou simplesmente impossível, concentrar-se em outra coisa que não seja superar este que é um dos momentos mais desafiadores. É razoável argumentar que, uma vez que as lições não irão reduzir o nosso sofrimento imediato, devemos aprendê-las assim que isto terminar. Mas a vulnerabilidade que torna o presente tão doloroso é exatamente a razão porque algumas discussões não podem esperar. O sofrimento que acabarmos por reduzir ou aumentar pelas linhas de ação que começarmos a adotar agora poderá tomar proporções muito maiores do que as que estamos vivendo.

Imagine que, enquanto o seu país praticava o distanciamento social, o seu país vizinho respondia à Covid-19 acumulando cidadãos às dezenas de milhares em ginásios. Imagine se, além disso, instituíssem intervenções genéticas e farmacêuticas que ajudassem os seus cidadãos a manter a produtividade em condições tão adversas, mesmo que isso tivesse o infeliz efeito colateral de devastar o seu sistema imunitário. E, para completar essa visão distópica, imagine se os seus vizinhos reduzissem dez vezes o número de médicos. Tais ações aumentariam radicalmente as taxas de mortalidade não apenas no país deles, mas no seu também. Patógenos não respeitam as fronteiras nacionais. Estes não são espanhóis ou chineses.

Os patógenos também não respeitam os limites das espécies. A gripe e os coronavírus se movem fluidamente entre populações humanas e animais, assim como se movem fluidamente entre nações. Quando se trata de pandemias, não há saúde animal e saúde humana – do mesmo modo que não há saúde coreana e saúde francesa. O distanciamento social funciona apenas quando todos o praticam, e “todos” inclui os animais.

A carne que comemos hoje vem predominantemente de animais geneticamente uniformes, imunocomprometidos e regularmente drogados, alojados às dezenas de milhares em edifícios ou gaiolas empilhadas – independentemente de como a carne é rotulada. Sabemos disso, e a maioria de nós tem uma clara preferência que isso fosse de outra forma. Mas existem muitas coisas no mundo que preferíamos que não fossem como são e, para a maioria de nós, o futuro da pecuária está lá no fim em nossa lista de prioridades, especialmente agora. É compreensível estar mais preocupado consigo mesmo. O problema é que não estamos fazendo um bom trabalho ao sermos egoístas.

Ainda não sabemos a história toda do surgimento da Covid-19, a linhagem específica de coronavírus que agora nos ameaça. Porém, com as recentes ameaças de vírus pandêmicos da gripe, como o H1N1 (gripe suína) ou o H5N1 (gripe aviária), não há dúvida: esses vírus evoluíram nas pecuárias industriais de frangos e suínos. As análises genéticas mostraram que componentes cruciais do H1N1 emergiram de um vírus que circula em porcos norte-americanos. Mas são as operações comerciais de aves que parecem ser o Vale do Silício do desenvolvimento viral.

É nas pecuárias industriais de frango que encontramos com mais frequência vírus que sofreram mutações de uma forma encontrada apenas em animais para uma forma que prejudica os seres humanos (o que os cientistas chamam de “mudança antigênica”). São estes “novos” vírus, com que o nosso sistema imunitário não está familiarizado, que podem ser os mais mortais.

Das 16 estirpes de novos vírus da gripe atualmente identificados pelo Centro de Controle de Doenças (CCD) como sendo “de preocupação especial”, incluindo o H5N1, 11 são provenientes de vírus do tipo H5 ou H7. Em 2018, um grupo de cientistas analisou as 39 mudanças antigênicas, também chamadas de “eventos de conversão”, que sabemos desempenhar um papel fundamental no surgimento dessas estirpes particularmente perigosas. Os seus resultados provam que “todos, exceto dois desses eventos, foram provenientes de sistemas comerciais de produção de aves”.

Imagine se os nossos líderes militares nos dissessem que quase todos os terroristas da história recente haviam passado algum tempo no mesmo campo de treinamento, mas nenhum político pedia uma investigação desse campo de treinamento. Imagine se soubéssemos que esses terroristas estavam desenvolvendo armas mais destrutivas do que qualquer outra que tenha sido usada ou testada na história da humanidade. Essa é a nossa situação quando se trata de pandemias e pecuária industrial.

O CCD dos Estados Unidos é a abreviação de uma agência cujo nome é literalmente Centros de Controle e Prevenção de DoençasAbandonamos a prevenção da sigla, o que é suficientemente inocente. Mas também tendemos a abandonar sérias discussões sobre prevenção em favor de táticas para responder quando as pandemias nos atingem. Isso é compreensível – especialmente enquanto enfrentamos uma pandemia –, mas é imprudente e perigoso. Estamos preocupados com a produção de máscaras faciais, mas parecemos despreocupados com as pecuárias industriais que estão a produzir pandemias. O mundo está a arder e estamos tentando alcançar mais extintores de incêndio, enquanto a gasolina encharca o pavio a nossos pés.

Para reduzir o risco de pandemias para nós mesmos, o nosso olhar precisa se voltar para a saúde dos animais. No caso de populações de animais selvagens, como os morcegos que os cientistas teorizaram como sendo um provável ponto de origem da Covid-19, a melhor solução parece ser limitar e regulamentar a interação humana. Muito foi escrito, com razão, sobre isto e, lenta e desigualmente, as políticas parecem estar caminhando na direção certa. Quando se estabeleceu que várias pessoas contraíram o vírus depois de visitar um mercado molhado em Wuhan, onde o vírus provavelmente passava por humanos a partir de morcegos por meio de um hospedeiro intermediário, a China fechou 19.000 operações de criação de animais selvagens e proibiu a venda de carne de animais selvagens em mercados molhados.

No entanto, no caso dos animais da pecuária industrial, a falta de entendimento do público permitiu que empresas sem escrúpulos movessem as políticas exatamente na direção errada. Em todo o mundo, as empresas conseguiram criar políticas que usam recursos públicos para promover a pecuária industrial. Um estudo sugere que o público está fornecendo 1 milhão de dólares por minuto em subsídios globais para a pecuária, amplamente utilizados para sustentar e expandir o modelo nocivo atual. O mesmo 1 milhão de dólares por minuto que promove a pecuária industrial também aumenta o risco de pandemia.

Nos EUA, a taxa de mortalidade pela Covid-19 tem sido inferior a 2%, mas se fosse o H5N1, por exemplo, a taxa de mortalidade seria muito maior –  o CCD registra uma taxa de mortalidade de 60%. Após um pico de mortes por H5N1 em 2017, a propagação do vírus diminuiu por motivos que ainda não estão claros. Deveríamos estar aliviados? Nancy Cox, que liderou as operações do CCD face à gripe por mais de duas décadas, enfatizou: “Não sabemos como a história vai acabar”. O fracasso do H5N1 em atingir proporções pandêmicas significa simplesmente que temos um terrorista que está apenas à distância de uma pequena mutação viral para obter o equivalente a um arsenal nuclear.

As implicações de uma taxa de mortalidade de 1 a 2% estão por todo o lado ao nosso redor: metade do mundo vive sob ordens de ficar em casa, as crianças não vão à escola, os hospitais estão ficando sem equipamentos para salvar vidas, estamos enfrentando uma depressão financeira geracional e os serviços funerários que tradicionalmente nos permitem pelo menos lamentarmos juntos, estão sendo (com razão) proibidos. Será que na nossa imaginação conseguimos extrapolar as implicações de uma taxa de mortalidade de 60%? Isso seria um aumento de 30 vezes em relação à nossa situação atual. E se a próxima pandemia não poupar as crianças? A taxa de mortalidade de crianças infectadas com H5N1 é próxima dos 50%. Como se sente ao imaginar que uma pessoa que ama pode ter uma morte horrível, dependendo do resultado de uma moeda atirada ao ar? Tente imaginar se metade de todos os seus conhecidos que tiveram gripe no ano passado estivessem agora a morrer. Se você tem filhos, quantos deles tiveram gripe no ano passado? Tente se forçar a imaginar essas coisas e pergunte a si mesmo: quanto valeria a pena sacrificar agora para evitar que isso venha a aconteçer?

Isso leva à pergunta mais pertinente: o que podemos fazer? A ligação entre a pecuária industrial e o aumento do risco de pandemia está bem estabelecida cientificamente, mas a vontade política de reduzir esse risco esteve ausente no passado. Agora é a hora de construir essa vontade. É realmente importante falarmos sobre isso, compartilharmos as nossas preocupações com os nossos amigos, explicarmos essas questões para nossos filhos, pensarmos juntos sobre como devemos comer de maneira diferente, apelarmos aos nossos líderes políticos e apoiarmos organizações de defesa dos animais que combatam a pecuária industrial. Os líderes estão ouvindo. Mudar o complexo industrial mais poderoso do mundo – a pecuária industrial – nunca seria fácil, mas neste momento, com o que está em jogo, talvez pela primeira vez em nossas vidas, é possível.

O fato de sabermos que o nosso sistema alimentar é parcialmente culpado, pode nos dar poder. Sabemos como atacar aquele que é o maior fator de risco para pandemias. Sabemos como nos tornar, e às nossas famílias, mais seguros. A própria incerteza que nos incomoda também nos lembra que tudo pode mudar para melhor também. Felizmente, a Covid-19 parece atacar muito raramente os nossos filhos, e se respondermos com sabedoria suficiente, esse tempo tão marcado pela morte talvez também seja lembrado por eles como um ponto de virada, um tempo de acerto de contas, de heroísmo silencioso e, com o passar dos meses, de renovação.


Publicado originalmente por Jonathan Safran Foer e Aaron S. Gross no The Guardian, a 20 de abril de 2020.

Tradução de Ligea Hoki. Revisão de José Oliveira.

Botao-assineBoletim

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s