Por que precisamos de pensar no pior cenário para evitar pandemias

Por Toby Ord (The Gardian)

a 6 de Março de 2020

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Coronavírus, é melhor pensar no pior? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

O mundo está na fase inicial do que pode ser a pandemia mais mortal dos últimos 100 anos. Na China, milhares de pessoas já morreram; grandes surtos começaram na Coreia do Sul, no Irão e na Itália; e o resto do mundo está a preparar-se para esse impacto. Ainda não sabemos se o número final de vítimas será medido em milhares ou centenas de milhares. Apesar de todos os nossos avanços na medicina, a humanidade permanece muito mais vulnerável a pandemias do que gostaríamos de acreditar.

Para se entender a nossa vulnerabilidade e determinar quais são as medidas que devem ser tomadas para eliminá-la, é útil perguntar sobre os piores cenários. Em que medida uma pandemia poderia ser nociva? Na ficção científica, às vezes encontramos a ideia de uma pandemia tão grave que poderia causar o fim da civilização, ou mesmo da própria humanidade. Tal risco para todo o futuro da humanidade é conhecido como um risco existencial. Podemos dizer com segurança que o novo coronavírus, e a doença chamada Covid-19, não representa esse risco. Mas a próxima pandemia poderia sê-lo? Para descobrir e colocar o surto actual num contexto mais alargado, vamos voltar ao passado.

Em 1347, a morte chegou à Europa. Entrou pela cidade de Caffa na Crimeia, trazida pelo exército mongol sitiante. Mercadores em fuga, sem querer, levaram-na de volta para Itália. De lá, espalhou-se para a França, Espanha e Inglaterra. Depois, até à Noruega e ao resto da Europa – até Moscovo. Em seis anos, a Peste Negra tinha tomado o continente.

Dezenas de milhões ficaram gravemente doentes, os seus corpos sucumbiam à doença de diferentes maneiras. Alguns tinham bolhas inchadas no pescoço, axilas e coxas; alguns tinham a sua carne negra por hemorragias sob a pele; alguns tossiam sangue da inflamação necrótica nas suas gargantas e pulmões. Todas as formas envolviam febre, exaustão e um fedor intolerável do material que exalava do corpo.

Havia tantos mortos que precisavam ser cavadas valas comuns e, mesmo assim, os cemitérios ficaram sem espaço para os corpos. A Peste Negra devastou a Europa. Nesses seis anos, entre um quarto e metade de todos os europeus morreram. O Médio Oriente também foi devastado com esta praga, matando cerca de um em cada três egípcios e sírios. E também pode ter devastado partes da Ásia central, Índia e China. Devido aos escassos registos do século XIV, nunca saberemos o verdadeiro número de vítimas, mas as nossas melhores estimativas são que entre 5% e 14% de todas as pessoas do mundo morreram, o que pode ter sido a maior catástrofe que a humanidade já viu.

A Peste Negra não foi o único desastre biológico que marcou a história da humanidade. Não foi sequer a única grande peste bubónica. Em 541 DC, a praga de Justiniano atingiu o império bizantino. Ao longo de três anos, tirou a vida a aproximadamente 3% da população mundial.

Quando os europeus chegaram às Américas em 1492, as duas populações expuseram-se a doenças completamente novas. Ao longo de milhares de anos, cada população tinha adquirido resistência ao seu próprio conjunto de doenças, mas era extremamente susceptível a outras. Os povos americanos obtiveram, de longe, o pior da troca, através de doenças como o sarampo, a gripe e, principalmente, a varíola.

Durante os 100 anos seguintes, uma combinação de invasão e doença teve um enorme número de vítimas – cuja escala pode nunca vir a ser conhecida, devido à grande incerteza sobre o tamanho da população pré-existente. Não podemos descartar a hipótese da perda de mais de 90% da população das Américas durante esse século, embora o número também possa ser muito menor. E é muito difícil esclarecer o quanto se deve atribuir à guerra e à ocupação, em vez de doenças. Numa estimativa aproximada, até 10% da população mundial pode ter morrido.

Séculos depois, o mundo tornara-se tão interligado que era possível uma pandemia verdadeiramente global. Próximo do fim da primeira guerra mundial, uma estirpe devastadora da gripe, conhecida como a gripe de 1918 ou Gripe Espanhola, espalhou-se para seis continentes, e até mesmo para ilhas remotas do Pacífico. Cerca de um terço da população mundial foi infectada e entre 3% e 6% morreram. Esse número de mortes superou o da primeira guerra mundial.

No entanto, mesmo eventos como esse não são uma ameaça ao potencial da humanidade a longo prazo. Nas grandes pragas bubónicas, vimos a civilização vacilar nas áreas afectadas, mas recuperar. A taxa de mortalidade regional de 25% a 50% não foi suficiente para precipitar um colapso em todo o continente. Isso operou uma mudança relativa nos destinos dos impérios e pode ter alterado substancialmente o curso da história, mas, quanto muito, dá-nos motivos para acreditar que a civilização humana provavelmente passará por eventos futuros com taxas de mortalidade semelhantes, mesmo se fossem globais em escala.

A pandemia da gripe espanhola foi notável por ter muito pouco efeito aparente no desenvolvimento do mundo, apesar do seu alcance global. Parece que se perdeu na sequência da primeira guerra mundial, que, apesar de um número menor de mortes, parece ter tido um efeito muito maior no curso da história.

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A história completa da humanidade abrange pelo menos 200 mil anos. Embora tenhamos escassos registos durante a maior parte desses 2 mil séculos, há uma lição importante que podemos tirar da enorme extensão do nosso passado. A hipótese de extinção humana devido a catástrofes naturais de qualquer tipo deve ter sido muito baixa na maior parte desse tempo – ou não teríamos chegado tão longe. Mas será que esses riscos podem ter mudado? Será que o passado pode dar um falso conforto?

A nossa população agora é mil vezes maior do que era na maior parte da história da humanidade, portanto há muito mais oportunidades que possam dar origem a novas doenças em seres humanos. E as nossas práticas da pecuária criaram um grande número de animais que vivem em condições insalubres e muito próximas dos seres humanos. Isto aumenta o risco, pois muitas doenças graves têm origem nos animais antes destas passarem para os seres humanos. Os exemplos incluem o HIV (chimpanzés), o Ébola (morcegos), a SARS (provavelmente civetas ou morcegos) e a gripe (geralmente porcos ou aves). Ainda não sabemos de onde veio a Covid-19, embora seja muito semelhante aos coronavírus encontrados em morcegos e pangolins. As provas sugerem que essas doenças estão a passar dos animais para as populações humanas a um ritmo crescente.

A civilização moderna também pode facilitar a propagação de uma pandemia. A maior densidade de pessoas que vivam juntas em cidades aumenta o número de pessoas que cada um de nós pode infectar. O rápido transporte mesmo para longas distâncias aumenta muito a propagação de patógenos à distância, reduzindo os graus de separação entre quaisquer duas pessoas. Além disso, já não estamos divididos em populações isoladas como estávamos na maior parte dos últimos 10 mil anos.

Juntos, esses efeitos sugerem que podemos esperar mais novas pandemias, que se espalhem mais rapidamente e atinjam uma percentagem maior da população mundial.

Mas também mudamos o mundo de maneiras que oferecem protecção. Temos uma população mais saudável; melhor saneamento e higiene; medicina preventiva e curativa; e uma compreensão científica das doenças. Talvez o mais importante seja que tenhamos sistemas de saúde pública para facilitar a comunicação e a coordenação globais perante novos surtos. Temos visto os benefícios dessa protecção através do dramático declínio de doenças endémicas infecciosas no século passado (embora não possamos ter a certeza de que as pandemias irão obedecer à mesma tendência). Finalmente, espalhamo-nos para uma variedade de locais e ambientes sem precedentes para qualquer espécie de mamífero. Isso oferece protecção especial contra eventos de extinção, porque exige que o patógeno possa florescer em uma vasta gama de ambientes e alcançar populações excepcionalmente isoladas, como tribos remotas, investigadores da Antárctica e equipas de submarinos nucleares.

É difícil saber se estes efeitos combinados aumentaram ou diminuíram o risco existencial de pandemias. Essa incerteza é, em última análise, uma má notícia: anteriormente possuíamos um argumento poderoso de que o risco era pequeno; agora não.

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Vimos as maneiras indirectas como as nossas acções ajudam e favorecem a origem e a disseminação de pandemias. Mas e os casos em que temos uma acção muito mais directa no processo – em que usamos deliberadamente, melhoramos ou criamos os patógenos?

A nossa compreensão e controlo de patógenos é muito recente. Há apenas 200 anos, nem sequer entendíamos a causa básica das pandemias – uma teoria importante no ocidente alegava que a doença era produzida por um tipo de gás. Em apenas dois séculos, descobrimos que era causada por uma variedade diversa de agentes microscópicos e descobrimos como cultivá-los em laboratório, criá-los para terem diferentes características, para sequenciar os seus genomas, para implantar novos genes e criar vírus inteiramente funcionais a partir do código escrito.

Esse progresso continua num ritmo acelerado. Nos últimos 10 anos, ocorreram grandes avanços qualitativos, como o uso da ferramenta de edição de genes Crispr para inserir com eficiência novas sequências genéticas num genoma e o uso de unidades de genes para substituir eficientemente populações de organismos naturais no seu habitat natural por versões geneticamente modificadas.

É improvável que este progresso na biotecnologia venha a acabar tão cedo: não há desafios intransponíveis à vista; e nenhuma lei fundamental a impedir os novos desenvolvimentos. Mas seria optimista supor que esse novo terreno desconhecido apresenta apenas perigos familiares.

Para começar, vamos deixar de lado os riscos de intenções maliciosas e considerar apenas os riscos que podem surgir de pesquisas bem-intencionadas. A maioria das pesquisas científicas e médicas apresenta um risco insignificante de danos na escala que estamos a considerar. Mas há uma pequena fracção que usa patógenos vivos de tipos conhecidos por ameaçarem danos globais. Estes incluem os agentes que causam a gripe espanhola, a varíola, o SARS e o H5N1 ou a gripe aviária. E uma pequena parte dessa investigação envolve a produção de estirpes desses patógenos que representam ainda mais perigo do que os tipos naturais, aumentando a sua transmissibilidade, letalidade ou a resistência à vacinação ou ao tratamento.

Em 2012, um virologista holandês, Ron Fouchier, publicou detalhes de uma experiência sobre a recente estirpe H5N1 da gripe aviária. Essa estirpe foi extremamente mortal, matando cerca de 60% dos seres humanos infectados – muito para além até da gripe espanhola. No entanto, a sua incapacidade de passar de ser humano para ser humano tinha impedido uma pandemia até agora. Fouchier queria descobrir se (e como) o H5N1 poderia desenvolver naturalmente essa capacidade. Passou a doença através de uma série de 10 furões, que são comummente usados ​​como modelo de como a gripe afecta os seres humanos. Quando passou para o furão final, a sua estirpe de H5N1 tinha-se tornado directamente transmissível entre mamíferos.

Esta investigação causou uma feroz controvérsia. Grande parte desta concentrou-se nas informações contidas na sua investigação. O Conselho Consultivo Nacional de Ciência dos EUA para a Biossegurança decidiu que ao seu artigo deveriam ser retirados alguns dos seus detalhes técnicos antes da publicação, para limitar a capacidade de malfeitores causarem uma pandemia. E o governo holandês alegou que a pesquisa violou a legislação da UE sobre exportação de informações úteis para armas biológicas. Mas não é a possibilidade de uso indevido que me preocupa aqui. A pesquisa de Fouchier fornece um exemplo claro de cientistas bem-intencionados, aprimorando as capacidades destrutivas de patógenos que ameaçam uma catástrofe global.

Obviamente, essas experiências são realizadas em laboratórios seguros, com rigorosos padrões de segurança. É altamente improvável que, em qualquer caso particular, os patógenos aperfeiçoados escapem para a natureza. Mas em que medida será improvável? Infelizmente, não temos dados fidedignos, devido à falta de transparência sobre as taxas de incidentes e de fuga. Isso impede que a sociedade tome decisões bem informadas, equilibrando os riscos e os benefícios desta investigação, e limita a capacidade dos laboratórios de aprender com os incidentes uns dos outros.

A segurança de patógenos altamente perigosos tem apresentado inúmeras falhas e mantém-se insuficiente. Em 2001, a Grã-Bretanha foi atingida por um surto devastador de febre aftosa no gado. Seis milhões de animais foram mortos na tentativa de impedir a sua propagação, e os danos económicos totalizaram 8 mil milhões [Br. bilhões] de Libras. Depois, em 2007, houve outro surto, que foi atribuído a um laboratório que trabalhava com a doença. A febre aftosa foi considerada um patógeno da categoria mais alta e exigiu o mais alto nível de biossegurança. No entanto, o vírus escapou de um tubo em mau estado, vazando para as águas subterrâneas da instalação. Após uma investigação, a licença do laboratório foi renovada – para ocorrer uma outra fuga, apenas duas semanas depois.

Na minha opinião, esse histórico de fugas mostra que mesmo o nível mais alto de biossegurança (BSL-4) é insuficiente para trabalhar com patógenos que representam risco de pandemias globais na escala da gripe espanhola ou pior. Ter passado treze anos desde o último surto reconhecido publicamente de uma instalação de BSL-4 não é suficiente bom. Não importa se isso decorre de padrões, inspecções, operações ou penalizações insuficientes. O que importa é o fraco histórico neste domínio, agravado pela falta de transparência e responsabilidade. Nos laboratórios actuais de BSL-4, a fuga de um patógeno pandémico é apenas uma questão de tempo.

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Uma das tendências mais impressionantes da biotecnologia é sua rápida democratização – ou seja, a velocidade com que as técnicas de ponta podem ser adoptadas por estudantes e amadores. Quando se alcançada um novo avanço, o conjunto de pessoas com talento, formação, recursos e paciência para reproduzi-lo expande-se rapidamente: de um punhado dos melhores biólogos do mundo, a pessoas com Doutoramentos nessa área, a milhões de pessoas com formação superior em biologia.

O Projeto Genoma Humano foi a maior colaboração científica já realizada em biologia. Foram necessários 13 anos e 500 milhões de dólares para produzir a sequência completa de DNA do genoma humano. Apenas 15 anos depois, um genoma pode ser sequenciado por menos de 1000 dólares e apenas numa única hora. O processo inverso também se tornou muito mais fácil: os serviços de síntese de DNA on-line permitem que qualquer pessoa faça upload de uma sequência de DNA à sua escolha para que depois seja construída e enviada para a sua morada. Embora ainda seja caro, o preço da síntese desceu mil vezes nas últimas duas décadas e continua a descer. Os primeiros usos do Crispr e unidades de genes foram as conquistas biotecnológicas da década. Porém, em apenas dois anos, cada uma dessas tecnologias foi usada com sucesso por estudantes brilhantes que participavam em competições científicas.

Essa democratização promete alimentar um boom de biotecnologia empresarial. Mas como a biotecnologia pode ser mal utilizada para um efeito letal, a democratização também significa proliferação. À medida que o número de pessoas com acesso a uma técnica cresce, aumentam as hipóteses que esse número contenha alguém com intenção maligna.

Pessoas com a motivação de causar destruição global são, felizmente, raras. Mas existem. Talvez o melhor exemplo seja o culto Aum Shinrikyo no Japão, activo entre 1984 e 1995, que procurou provocar a destruição da humanidade. Atraiu vários milhares de membros, incluindo pessoas com competências avançadas em química e biologia. E demonstrou que não era mera ideia misantrópica. Lançaram vários ataques letais usando gás VX e gás sarin, matando mais de 20 pessoas e ferindo milhares. Tentaram usar o antraz como arma, mas não tiveram sucesso. O que acontecerá quando o círculo de pessoas capazes de criar uma pandemia global se tornar suficientemente amplo para incluir membros desse tipo de grupo? Ou membros de uma organização terrorista ou estado desonesto que poderia tentar construir uma arma omnicida para fins de extorsão ou dissuasão?

O principal candidato ao risco existencial biológico nas próximas décadas decorre, portanto, da tecnologia – particularmente o risco de uso indevido por estados ou pequenos grupos. Mas este não é um caso em que o mundo desconheça ingenuamente os riscos. Bertrand Russell escreveu a Einstein, em 1955, sobre o perigo de extinção pela guerra biológica. E, em 1969, a possibilidade foi levantada pelo Prémio Nobel de Medicina, Joshua Lederberg: “Como cientista, estou profundamente preocupado com o envolvimento contínuo por parte dos Estados Unidos e outras nações no desenvolvimento da guerra biológica. Este processo coloca o próprio futuro da vida humana na Terra em sério perigo.”

Em resposta a esses avisos, já iniciámos esforços nacionais e internacionais para proteger a humanidade. Há iniciativas por parte da saúde pública e convenções internacionais, e auto-regulamentação por empresas de biotecnologia e pela comunidade científica. Serão adequadas?

Os esforços nacionais e internacionais em saúde pública oferecem alguma protecção contra pandemias projectadas e as infra-estruturas existentes podem ser adaptadas para enfrentá-las melhor. No entanto, mesmo para os perigos existentes, essa protecção é desigual e insuficiente.

Apesar da sua importância, a saúde pública é subfinanciada em todo o mundo, e os países mais pobres mantêm-se vulneráveis ​​a serem sobrecarregados por surtos. As empresas de biotecnologia estão a trabalhar para limitar o lado sombrio da democratização da sua área. Por exemplo, a síntese irrestrita de DNA ajudaria os malfeitores a superar um grande obstáculo na criação de patógenos extremamente mortais. Isso permitiria que estes tivessem acesso ao DNA de patógenos controlados, como a varíola (cujo genoma está prontamente disponível on-line) e criassem DNA com modificações para tornar o patógeno mais perigoso. Portanto, muitas empresas de síntese fazem esforços voluntários para gerir este risco, examinando os pedidos que lhe são remetidos quanto a sequências perigosas. Mas os métodos de triagem são imperfeitos e cobrem apenas cerca de 80% dos pedidos. Há espaço significativo para melhorar esse processo e um forte argumento para tornar a triagem obrigatória.

Também podemos esperar da comunidade científica uma gestão cuidadosa dos riscos biológicos. Muitos dos avanços perigosos que podem ser utilizados ​​por estados e pequenos grupos vieram da ciência aberta. E temos visto que a ciência produz riscos substanciais de acidentes. A comunidade científica tentou regulamentar as suas investigações perigosas, mas com sucesso limitado. Existem várias razões pelas quais isso é extremamente difícil, incluindo dificuldade em saber onde traçar um limite, falta de autoridades centrais para unificar as práticas, uma cultura de abertura e de liberdade para procurar o que quer que seja de interesse e o ritmo acelerado da ciência que ultrapassa o do governo. Pode ser possível que a comunidade científica supere esses desafios e forneça uma forte gestão dos riscos globais, mas exigiria uma disposição para aceitar sérias mudanças na sua cultura e governação – tais como tratar a segurança em torno da biotecnologia como se trata a energia nuclear. E a comunidade científica precisaria de encontrar essa predisposição antes da catástrofe.

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As ameaças à humanidade, e como as enfrentamos, definem o nosso tempo. O advento das armas nucleares representou um risco real de extinção humana no século XX. Há fortes razões para acreditar que o risco será maior neste século, e irá aumentar a cada século que o progresso tecnológico continua. Como estes riscos antropogénicos superam o conjunto de todos os riscos naturais, acabam por definir o tempo que resta à humanidade para se afastar do abismo.

Não estou a afirmar que a extinção é a conclusão inevitável do progresso científico, ou mesmo que seja o resultado mais provável. O que estou a afirmar é que houve uma forte tendência no sentido de o poder da humanidade aumentar, este chegou a um ponto em que colocamos um sério risco à nossa própria existência. A maneira como reagimos a esse risco depende de nós. Também não estou a argumentar contra a tecnologia. A tecnologia provou ser imensamente valiosa na melhoria da condição humana.

O problema não é tanto um excesso de tecnologia, mas sim uma falta de sabedoria. Carl Sagan afirmou isso particularmente bem: “Muitos dos perigos que enfrentamos surgem realmente da ciência e da tecnologia – mas, mais concretamente, porque nos tornámos poderosos sem nos tornarmos proporcionalmente sábios. Os poderes que alteram o mundo que a tecnologia nos colocou nas mãos agora exigem um grau de consideração e previsão que nunca antes nos foi exigido.”

Como não podemos voltar da extinção, não podemos esperar até que uma ameaça nos atinja para agirmos – devemos ser pro-activos. E por que ganhar conhecimento leva tempo, precisamos de começar agora.

Penso que será provável que superemos este período. Não porque os desafios sejam pequenos, mas porque iremos estar à sua altura. O próprio facto de que esses riscos resultam da acção humana mostra-nos que a acção humana pode resolvê-los. O derrotismo seria injustificado e contraproducente – uma profecia auto-realizável. Em vez disso, devemos encarar esses desafios de frente com um pensamento claro e rigoroso, guiado por uma visão positiva do futuro a longo prazo que estamos a tentar proteger.

Este é um excerto editado do livro “The Precipice: Existential Risk and the Future of Humanity”, de Toby Ord, publicado pela Bloomsbury e disponível na guardianbookshop.com.


Publicado originalmente por Toby Ord no The Guardian, a 6 de Março de 2020.

Tradução de Rosa Costa e de José Oliveira.

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