Estamos a ganhar ou a perder contra a COVID-19 (Marc Lipsitch, um reconhecido epidemiologista)

Por e (80,000 Hours)

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Coronavírus, estamos a ganhar ou perder? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Penso que restará saber se nós, nos Estados Unidos, podemos fazer melhor do que deixar que todos a contraiam gradualmente (…) Se hoje são cerca de 5 ou 10% da população, não posso imaginar um cenário em que tenhamos uma vacina ou um tratamento realmente bom, antes que seja quase o dobro disso. (…) Certamente, precisamos de muita criatividade sobre formas alternativas para fazer com que a vida continue.

Marc Lipsitch

Em Março, o professor Marc Lipsitch — Director do Centro de Dinâmica de Doenças Transmissíveis de Harvard — tornou-se, abruptamente, numa celebridade global, o número de seguidores nas suas redes sociais cresceu 40 vezes e os jornalistas batem à sua porta, enquanto todos vão ter com ele em busca de informações em que possam confiar.

Aqui mostra-nos em que ponto se encontra hoje a luta contra a COVID-19, a razão pela qual está aberto à ideia de contagiar deliberadamente as pessoas com COVID-19 para acelerar o desenvolvimento de vacinas e como podemos melhorar para a próxima vez.

Como Marc nos diz, países insulares como Taiwan e a Nova Zelândia estão a suprimir com sucesso o SARS-COV-2. Mas o resto do mundo está a ter dificuldades.

Até Singapura, com muitos avisos e um dos melhores sistemas de testes e rastreamento do mundo, perdeu o controle do vírus em meados de Abril, depois de ter contido a maré por 2 meses.

Isto não é um bom presságio para a maneira como os EUA ou a Europa irão lidar com a situação à medida que abrandam os seus encerramentos. Também sugere que teria sido extremamente difícil para a China parar o vírus antes que este se espalhasse para o exterior.

Mas, infelizmente, não há uma solução fácil.

As estimativas originais da taxa de mortalidade por infecção da COVID-19, de 0,5 a 1%, mostraram-se basicamente correctas. E as pesquisas mais recentes de serologia indicam que apenas 5 a 10% das pessoas em países como os EUA, o Reino Unido e a Espanha foram infectadas até agora, deixando-nos muito aquém da imunidade de grupo. Para lá chegarmos, mesmo esses países mais afectados precisariam enfrentar algo como dez vezes o número de mortes que tiveram até agora.

Marc tem uma boa notícia: a investigação sugere que a maioria das pessoas infectadas realmente desenvolve imunidade, pelo menos por um tempo.

Para escapar da armadilha da COVID-19, mais cedo ou mais tarde, Marc recomenda que analisemos todas as opções familiares — vacinas, antivirais e testes em massa —, mas também recomenda uma abertura da nossa mente para opções criativas que até agora deixamos na prateleira.

Apesar da importância do seu trabalho, mesmo agora os programas de formação e os subsídios que produziram a comunidade de especialistas de que Marc faz parte, estão a diminuir. Analisamos um novo artigo que escreveu sobre como construir e melhorar a área da epidemiologia, para que a humanidade possa responder mais rapidamente e com mais inteligência da próxima vez que enfrentarmos uma doença que possa matar milhões e custar dezenas de biliões [Br. trilhões] de dólares.

Também abordamos o seguinte:

  • O modo como os ouvintes podem contribuir como futuros especialistas em doenças contagiosas ou como doadores para projectos actuais
  • O modo como podemos aprender com comparações entre países
  • Modelagem científica que correu mal de maneira instrutiva
  • O que os governos devem parar de fazer
  • O modo como as pessoas podem descobrir em quem confiar e quem está em maior risco neste momento
  • A razão pela qual Marc apoia a infecção de pessoas com COVID-19 para acelerar o desenvolvimento de vacinas
  • O modo como podemos garantir que haja vigilância ao nível da população no início da próxima pandemia
  • Se as pessoas das outras áreas que tentaram ajudar face à COVID-19 causaram mais benefícios do que prejuízos
  • Se são os especialistas em doenças ou os especialistas em previsões que produzem melhores previsões de doenças

Pontos chave

A verdadeira taxa de mortalidade por infecção nos EUA

Penso que está claramente abaixo de, digamos, 1% e meio, e é muito provável que esteja abaixo de 1%. Está claramente acima de 0,2% e provavelmente acima de 0,4%. Por isso penso que se tivesse realmente de cobrir todas as minhas apostas, diria entre 0,2 e 1,5, mas colocaria a maior parte do meu dinheiro no intervalo intermédio.

Um dos desafios parece-me que é o ser tão variável pelos seus factores de risco, que um pouco de falta de representatividade na amostragem de casos pode traduzir-se numa inferência realmente errada sobre a taxa de mortalidade.

Imunidade

Penso que ontem foram publicadas algumas notícias relativamente encorajadoras, na Cell, por um grande grupo de pessoas, creio que principalmente investigadores norte-americanos, aparentemente mostrando que a grande maioria das pessoas desenvolve os três tipos de imunidades por meio de células tipo T e anticorpos e que basicamente toda a gente que estudaram desenvolve uma resposta de anticorpos caso se espere o tempo suficiente.

Nesse caso isso é um bom sinal. Obviamente, o que não sabemos exactamente é o grau de protecção que dá, mas não o sabemos para nenhum novo vírus. Assumimos, na maioria dos casos, que há uma imunidade bastante boa. A única razão pela qual todos hesitam face a este é por se tratar de um coronavírus e muitos coronavírus têm uma espécie de imunidade fraca, mas penso que todas as indicações são que haverá algum nível de imunidade em praticamente toda a gente.

Testes com risco humano

Penso que a resistência a isso é que, infelizmente, há uma tradição muito longa de investigações que foram feitas com pessoas contra a sua vontade, não voluntárias ou pessoas que estavam sob coacção ou de outras maneiras anti-éticas. Portanto, a investigação tem sido vista como uma área em que a ética deve ser muito mais restritiva do que em outras actividades que realizamos. Penso que, de certa forma, é por uma razão muito boa, especialmente a relutância de muitos médicos em envolver-se deliberadamente na transmissão de uma infecção a alguém é uma característica admirável. Por outro lado, penso que numa situação como esta, onde um teste tem, como disse, um enorme valor social, há a possibilidade, é claro, que um teste possa falhar. E algumas pessoas sugeriram que não há valor social em descobrir que uma vacina não funciona, mas discordo disso, porque precisamos de saber quais funcionam e quais não funcionam.

Mas penso que numa situação como esta em que fazer esse estudo tem um grande valor social e a possibilidade de que existem realmente milhares de pessoas que já declararam estar dispostas a assumir, na verdade, em alguns casos, riscos bastante grandes… Algumas delas não são jovens e saudáveis ​​e entendem que isso significa um risco. Devemos pensar nisso como uma actividade como outras actividades altruístas nas quais as pessoas se envolvem. É da própria natureza das actividades altruístas e, principalmente, das actividades arriscadas, que nem sempre se saiba qual é o risco. Uma pessoa não se alista nas forças armadas alegando que, ao longo da história, 7% dos recrutas militares sofreram algum tipo de consequência grave. Acabei de inventar esse número. Uma pessoa alista-se nas forças armadas e, na medida em que é uma decisão altruísta, decide: “Estou disposto a correr este risco porque quero servir um propósito no qual acredito.”

Apresente as incertezas e fale com clareza

Sou um verdadeiro admirador de pessoas que sejam muito claras sobre as suas fontes de incerteza e o que as suas descobertas implicam, ou não, na tomada de decisões. E penso que isso é característico das pessoas que acabei de descrever. E isso, às vezes, entra em competição com a tentativa de obter uma publicação interessante, mas acho que os melhores grupos da nossa área descobriram uma maneira de equilibrar isso e dizer o que descobriram, mas sem exageros. E basta aplicar esse filtro de “Será que há uma boa apresentação das incertezas e das limitações” para nos livrarmos de muito lixo nesta área. Não é um filtro perfeito, mas é uma heurística bastante boa.

E também me parece que o meu orientador de doutoramento, Bob May, que morreu muito recentemente, há algumas semanas, costumava dizer, era australiano por isso dizia isso de um modo mais pitoresco. Ele dizia: “Se o raio do sujeito não consegue explicar que não entende aquilo de que está a falar, a culpa não é tua”. E também vejo uma correlação muito forte entre as pessoas que explicam as coisas claramente e as pessoas que são confiáveis. Porque é mais difícil esconder o que realmente se está a passar… Penso que muitas pessoas que fazem um trabalho de baixa qualidade não entendem por que tiveram os resultados que tiveram. Apenas obtiveram esses resultados e pensaram: “Oh, isto é extraordinário”. E as pessoas que fazem um trabalho de alta qualidade e que conseguem explicar o que fizeram, penso que são muito mais credíveis. Porque, em última análise, tudo isto se resume à multiplicação, à divisão e a um pouco de cálculo.

Não é física quântica. Não há coisas realmente contra-intuitivas a acontecer na nossa área. Há algumas coisas surpreendentes quando se ouve pela primeira vez. Acabámos de fazer um exercício desse tipo na minha aula antes de falar consigo. Portanto, há coisas que são surpreendentes, mas não há coisas que sejam tão surpreendentes para que se diga: “Bem, o modelo diz isto e eu não percebo porquê”. Por isso, caso não se consiga explicar, realmente não se entende. E essas duas heurísticas juntas, parece-me, são na verdade um filtro muito bom para o trabalho que provavelmente seja significativo.

Riscos biológicos catastróficos globais

Penso que as pandemias mais graves possível serão combatidas pelos tipos de abordagens que desenvolveremos para uma pandemia como esta, ou então lidar com elas será inútil, e iremos ter uma catástrofe. Não me parece que exista um conjunto de abordagens que seja distinto do cenário de catástrofe total. Quer dizer, isto de certa forma é quase catastrófico, mas não vai acabar com a humanidade. Isto causará muitos danos económicos e à saúde, mas não irá acabar com a humanidade, nem mesmo com uma grande parte da humanidade. Mas parece-me que, numa perspectiva metodológica, esta já é suficiente má e por isso estamos a usar basicamente tudo o que temos contra ela. Não há algo mais para podermos dizer: “Bem, não vamos fazer X, porque isto não é suficientemente mau.”

Estamos praticamente a fazer tudo o que sabemos fazer. Além disso, pandemias menos graves são mais comuns porque até ao momento não houve uma pandemia que exterminasse a espécie humana, por definição. E da perspectiva dos recursos humanos, novamente, as pessoas que vão lidar com o problema num cenário catastrófico, são as pessoas que estão a lidar com este problema. São exactamente as mesmas pessoas e os seus sucessores. Portanto, a ideia que achei difícil de compreender nalgumas discussões no altruísmo eficaz, é a ideia de que sabemos que todos os casos menores são resolvidos e que precisamos de nos concentrar nos casos extremos. Mas não vejo qualquer actividade que seja útil para lidar com os casos extremos que não envolva também a preparação para casos menos extremos como este. Literalmente, não consigo pensar numa coisa assim.

Artigos, livros e publicações em blogues discutidos no programa

O trabalho de Marc Lipsitch

Tudo o resto


Originalmente publicado por e 80,000 Hours, a

Tradução de Rosa Costa e de José Oliveira.

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