A crise do coronavírus está a provocar uma crise de imunização

Por Kelsey Piper (Vox)

Coronavírus-vacinas.fx

Coronavírus, as vacinas vão acabar? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Caso me perguntassem, em Novembro quando o nosso bebé nasceu, qual seria a probabilidade de eu decidir adiar as suas vacinas por vários meses contra as recomendações do médico, teria dito que não havia qualquer hipótese disso acontecer.

Eu faço reportagens sobre saúde global; sei que as doenças que a vacinação praticamente erradicou nos EUA ainda tiram a vida a muitas crianças internacionalmente. Sei que essas doenças podem voltar a assombrar qualquer comunidade onde as taxas de vacinação diminuam. Sei que alguns pais, em partes pobres do mundo, andam a pé ao longo de dias na esperança de vacinar os seus filhos, e estou grata por viver num país onde – até há alguns meses – poderia tomar como certo o acesso a vacinas.

O nosso filho mais velho, agora com 3 anos, foi vacinado dentro do prazo. Esse não será o caso do nosso segundo filho, nascido em Novembro passado.

Recebeu as vacinas dos quatro meses com dois meses de atraso e não temos a certeza de quando irá receber as próximas. E não somos os únicos. Nos Estados Unidos, houve uma grande diminuição nas vacinas, pois as medidas de distanciamento social do coronavírus fazem com que as pessoas fiquem relutantes em sair de casa e em consultar o médico. Em todo o mundo, programas críticos de saúde pública e de vacinação foram cancelados durante esta pandemia.

Isso pode ser a base para um possível desastre de saúde pública no futuro. À medida que a parcela imunizada da população diminui, doenças contagiosas e mortais na infância – muitas delas já a ressurgir por causa do movimento anti-vacinas – podem ressurgir de um momento para o outro, matando crianças e adultos. Vivemos muito tempo livres do medo de doenças infecciosas mortais, e isso deve-se, em grande parte, à vacinação. Mas o coronavírus descarrilou esse progresso e, mesmo que se desenvolva um tratamento ou vacina para o próprio coronavírus, pode levar muito tempo para se reverter todos os danos complexos que este causou.

No nosso caso, o nosso bebé acabou por ser vacinado, apesar de um atraso de vários meses. Mas foi uma provação muito angustiante. Vivemos numa casa com 10 pessoas, várias delas com um risco elevado face ao coronavírus. O consultório médico exigia que fossemos ao hospital central em vez de abrir ambulatórios ou fazer visitas ao domicílio. O nosso seguro recusou-se a cobrir as vacinas em qualquer outro lugar. Sentimo-nos perdidos, sem informações suficientes para comparar os riscos que nos estavam a pedir que corrêssemos: em que medida seria prejudicial atrasar as vacinas do bebé? em que medida seria perigoso ir ao hospital? As garantias do médico de que seria seguro lá ir, não nos satisfaziam por completo – entendemos que o risco era baixo, mas a nossa situação em casa tornava até mesmo os baixos níveis de risco numa preocupação séria para nós.

No fim, tudo correu bem. O meu companheiro usou uma máscara, levou o bebé ao hospital, que apanhou as vacinas e voltaram para casa. O hospital examinou-os à entrada quanto a sintomas do coronavírus; todos estavam a usar máscaras; os corredores estavam desertos. Nem o meu companheiro nem o bebé ficaram doentes.

Teremos que fazer isto novamente daqui a alguns meses; talvez até lá o hospital esteja preparado para haver menor exposição ou talvez voltemos a arriscar-nos. Mas não devia ser assim, e existem ideias por aí – desde o apoio de visitas de médicos ao domicílio até clínicas de atendimento em automóveis – que podem ajudar a garantir que todas as famílias possam manter actualizada a vacinação durante uma calamidade.

Uma diminuição nas vacinas está a avizinhar-se – e pode ser desastroso

Depois de se apanhar uma doença, geralmente não é possível apanhá-la por uns tempos, porque o nosso corpo lembra-se de como combatê-la. As vacinas tentam induzir essa resposta de imunidade sem que primeiro se fique doente. A abordagem mais comum é a introdução de vírus mortos ou enfraquecidos, ou componentes essenciais de bactérias, no nosso sistema. O nosso sistema imunológico irá aprender a combatê-los, mas há pouco risco de se ficar doente.

Nos EUA, as crianças são vacinadas contra a hepatite B, tosse convulsa, rotavírus, difteria, tétano, sarampo, poliomielite e varicela, entre outras doenças. Os investigadores calcularam que, por cada ano que as crianças recebem todas as imunizações recomendadas para a infância, cerca de 20 milhões de doenças e 40 000 mortes são evitadas.

As vacinas são, simplesmente, uma das tecnologias mais transformadoras da história da humanidade. Nos anos 1800, os historiadores calculam que mais de um terço (e em muitos lugares, mais de metade) das crianças morreu antes de completar 5 anos. As doenças infecciosas foram o principal assassino. A varíola por si só matou centenas de milhões; com um programa mundial de vacinação em massa, conseguimos erradicá-la.

As vacinas diminuíram abruptamente durante a crise do coronavírus, aqui e no estrangeiro. Um estudo de 15 de Maio com autores dos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças (CCD) usou os dados das encomendas do Programa Federal de Vacinas para Crianças para rastrear exatamente quantas recusaram. Como mostra este gráfico do seu estudo, a resposta é que as vacinas diminuíram muito acentuadamente, exatamente na época em que muitos estados encerraram, em meados de Março:

Graf-Vacinas

Alteração nas encomendas das doses para vacinas pediátricas de rotina. CCD

A pandemia também interrompeu os programas de vacinação internacionalmente. A Organização Mundial da Saúde calcula que mais de 100 milhões de crianças em todo o mundo podem estar vulneráveis ​​ao sarampo, pois os programas de vacinação em massa foram interrompidos. Pelo menos 24 países interromperam ou adiaram os seus programas de imunização em massa.

Os declínios estão a levar o mundo a uma crise de saúde pública. Se houver uma população significativa de crianças não vacinadas, doenças altamente transmissíveis como o sarampo (que tem o chamado R0 calculado entre 12 e 18, o que significa que o doente médio infecta mais 12 a 18 pessoas) podem espalhar-se facilmente.

A chegada do coronavírus agrava um problema que cresceu nos últimos anos. As taxas de vacinação já estavam a diminuir nos EUA, já que a desinformação sobre os riscos das vacinas levou muitos pais a optar por não imunizar os seus filhos. O movimento anti-vacinas, reforçado pela desinformação e pela comunicação social, convenceu mais e mais famílias a adiarem a vacinação, levando a surtos de doenças em comunidades que já tinham eliminado a doença. A diminuição nas vacinas devido à pandemia tornará o problema muito pior – especialmente se a situação de muitas dessas crianças nunca for actualizada.

Nos últimos meses, quando os efeitos da pandemia atingiram a sério os EUA, muitos consultórios médicos concentraram-se apenas nas vacinas para os recém-nascidos, assumindo que insistir na imunização de crianças mais velhas não seria uma grande coisa. Mas, como se está a tornar aparente que a normalidade pode demorar um ano ou mais, estão a ser forçados a repensar isso. O estudo do CCD descobriu que os declínios nas taxas de vacinação eram muito maiores para vacinas para crianças mais velhas, provavelmente por causa da concentração nas crianças mais novas. Mas, embora a maioria das vacinas para crianças mais velhas possa ser adiada por alguns meses, estas não podem ser adiadas indefinidamente, sem correr o risco de surtos generalizados de doenças infecciosas à medida que o distanciamento social diminui.

Para vacinar crianças numa pandemia, precisamos de um sistema de saúde mais flexível

“As crianças americanas e as suas comunidades enfrentam riscos crescentes de surtos de doenças preveníveis por vacinas”, conclui o estudo.

O que pode ser feito para garantir que as crianças recebem as vacinas necessárias durante a pandemia?

“As preocupações dos pais sobre a possibilidade de expor os seus filhos à COVID-19 durante consultas pediátricas podem contribuir para o declínio observado”, argumenta o estudo de 15 de Maio. “Sendo assim, é fundamental lembrar aos pais a necessidade vital de proteger os seus filhos contra doenças graves evitáveis ​​por meio de vacinas, mesmo que a pandemia da COVID-19 continue”.

A minha experiência com a tentativa de vacinar o nosso bebé sugere que o problema não é tanto que os pais não compreendam a necessidade vital de proteger os seus filhos, mas sim que precisam de opções durante uma crise de pandemia. No nosso caso, precisávamos de levar o nosso filho ao exame pediátrico dos quatro meses, mas tínhamos algumas questões a colocar ao médico: será que podíamos ir a uma clínica em vez de ir ao hospital central, um complexo de edifícios que também está a tratar pacientes com coronavírus da nossa cidade? Uma enfermeira poderia vir ter connosco ao nosso carro e dar as vacinas ao bebé pela janela, sem que o levássemos ao hospital? Que tal uma visita ao domicílio?

De todas as vezes, a resposta foi não – o hospital não tinha estabelecido procedimentos para essas alternativas. Disseram que poderiam fazê-lo numa outra altura, mas por enquanto insistiam que o hospital era seguro. Mas, naquele ponto da disseminação do vírus, e coabitando com algumas pessoas de risco, realmente não nos sentíamos à vontade para assumir o risco.

Passamos algum tempo a analisar as nossas outras opções. O nosso seguro só cobria a vacinação do bebé no hospital. Poderíamos encontrar prestadores de cuidados de saúde não cobertos pelo nosso seguro, que estariam pelo menos dispostos a vaciná-lo em ambulatório em vez de num hospital – por 500 dólares. No final, levamo-lo ao hospital, mas não posso culpar os pais que escolheram ficar em casa, esperando que uma solução mais segura acabasse por surgir.

Muitos consultórios médicos individuais estão a fazer esforços heroicos – incluindo clínicas de vacinação com atendimento em automóveis e visitas ao domicílio – para preencher a lacuna. Mas muitos outros não estão, constrangidos pelas regras dos seguros ou pelos cortes no orçamento (muitos pediatras e as suas equipas foram demitidos porque a crise do coronavírus tornou as consultas médicas mais raras) ou pela rapidez com que a situação do coronavírus e as leis locais estão a mudar nos últimos meses.

Portanto, essa é uma área em que nos podemos concentrar: os consultórios de pediatras podem disponibilizar visitas ao domicílio e clínicas de vacinação de atendimento em automóveis, e se não puderem fazer isso, o governo deve intervir para obter o financiamento para tornar isso possível. Claro, as visitas ao domicílio são caras e podem colocar os médicos em risco, e as clínicas de atendimento em automóveis não são um bom substituto para uma verificação completa do bem-estar em circunstâncias normais. Mas em circunstâncias extraordinárias, mais opções significam maior flexibilidade para as famílias.  

Além disso, e talvez mais importante, poderíamos aumentar o número de testes para que, quando tivéssemos que levar novamente o bebé para a próxima rodada de vacinas, tivéssemos certeza de que os médicos que o vêem são testados regularmente face ao coronavírus. Também poderíamos cobrir vacinas para todas as crianças, independentemente da sua situação de seguro de saúde, reconhecendo que muitas pessoas podem precisar de usar prestadores de cuidados fora da rede nacional de saúde para ter acesso às vacinas.

Nos países em desenvolvimento, as organizações de saúde pública enfrentam escolhas difíceis entre arriscar a disseminação do coronavírus ou garantir milhões de mortes infantis evitáveis. Melhores dados sobre como se espalha o coronavírus irão ajudá-los a identificar procedimentos com riscos reduzidos para retomarem as operações que salvam vidas.

Por fim, é claro, a maneira de resolver estes problemas é ao enfrentar com êxito a crise do coronavírus – seja com testes generalizados, rastreamento de contactos e isolamento, como fizeram países como a Coreia do Sul e Taiwan, ou com o tratamento ou uma vacina eficaz, embora tais soluções estejam a anos de distância.

No entanto, as imunizações agendadas regularmente são demasiado importantes para se esperar pela nossa vitória face ao coronavírus. Não devemos pedir aos pais que descubram por si mesmos os riscos do coronavírus, nem que aceitem o risco de expor as suas famílias a uma doença para prevenir outras.

E mesmo em circunstâncias normais, dar flexibilidade a pais e médicos tem grandes vantagens. As visitas ao domicílio e as clínicas de atendimento em automóveis não reduzem apenas o risco do coronavírus, mas também ajudam os pais que não têm assistência médica infantil, os pais que não conseguem sair facilmente do trabalho para consultas médicas e os pais que não tenham uma boa maneira de se deslocar ao consultório médico mais próximo. Cobrir as vacinações independentemente do seguro de saúde de uma criança, ajuda as crianças sem seguro, das quais existem milhões.

A pandemia do coronavírus expôs, vezes sem conta, as falhas nos sistemas que já eram um problema. A vacinação nos EUA já estava ameaçada, colocando-nos numa posição em que mais diminuições nas vacinas nos colocam em grande risco. Agora é mais urgente do que nunca corrigir isso.


Texto publicado originalmente por Kelsey Piper na Vox, a 23 de Maio de 2020.

Tradução de Rosa Costa e de José Oliveira.

Assine o Boletim Mensal

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s