Chegou a hora de desmontar a pecuária industrial e ganhar o hábito de comer menos carne

Por Gene Baur (The Guardian)

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Coronavírus, é hora de deixar de comer carne? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Deveríamos conceber um sistema alimentar mais resiliente e sustentável, que não transforme em mercadoria a vida de seres sencientes.

Os matadouros são um terreno fértil para doenças e são pontos críticos para o coronavírus, e dezenas fecharam quando milhares de trabalhadores ficaram doentes. O presidente Trump ordenou a abertura dessas atividades e as protegeu da responsabilização legal por expor os trabalhadores indefesos a riscos intoleráveis. Ao mesmo tempo, o governo está gastando 200 milhões de dólares por mês para apoiar as indústrias de carne e laticínios, enquanto o agronegócio faz lobby por mais dinheiro de estímulo para voltar à matança habitual. A pecuária industrial prejudica as pessoas, os animais e a terra, e não deveria receber resgates financeiros do governo. Deveria, na verdade, ser desmontada e substituída. Para ser franco: está na hora de ganhar o hábito de comer menos, ou não comer de todo, carne.

A pecuária industrial e os matadouros exigem uma fonte contínua de trabalhadores mal pagos e considerados dispensáveis para executar tarefas perigosas e difíceis. Para atender a essa necessidade, o agronegócio obteve concessões legais para explorar o trabalho de imigrantes e de prisões. Ainda assim, o setor tem enfrentado escassez crônica de mão-de-obra e a sua capacidade de matança não se conseguiu aguentar durante o recente surto de infecções por coronavírus em trabalhadores de matadouros, fazendo com que os animais para abate recuassem na cadeia de abastecimento. Milhões dessas criaturas inocentes foram eufemisticamente “despovoadas”, ou seja, foram mortas e descartadas. Essas mortes são trágicas, mas também o são os bilhões [Pt. milhares de milhões] de mortes desnecessárias que ocorrem no curso normal dos negócios. Podemos viver bem sem explorar e sem consumir outros animais.

Mais de 9 bilhões [Pt. 9 milhares de milhões] de animais da pecuária são forçados a atravessar a pecuária industrial dos EUA e, todos os anos, centenas de milhões morrem antes mesmo de chegar ao matadouro. A indústria considera que os animais individualmente, e mesmo os próprios trabalhadores, são dispensáveis ​​desde que o sistema seja lucrativo. As galinhas criadas para carne, por exemplo, foram geneticamente alteradas para crescer quatro vezes mais rápido e maiores que o normal, o que causa doenças dolorosas e resulta em milhões de aves que morrem antes de serem vendidas para abate. Essas mortes prematuras são consideradas aceitáveis ​​pela indústria porque os lucros gerados pelas galinhas que crescem mais rapidamente superam os custos.

Ao olharmos para um mundo pós-pandemia, deveríamos conceber um sistema alimentar mais resiliente e sustentável, que não transforme em mercadoria a vida de seres sencientes. Podemos alimentar mais pessoas com menos terra e menos recursos através da agricultura à base de plantas, o que diminuiria significativamente a nossa pegada ecológica e libertaria milhões de hectares de terra, já que usamos dez vezes mais terra nos EUA para a pecuária industrial do que para plantar vegetais. Mudar para comer plantas em vez de animais permitiria o regresso dos ecossistemas naturais, dos habitats da vida selvagem e da biodiversidade. Isso permitiria que a Terra se regenerasse e se curasse, e que se reduzissem as ameaças da crise climática e das futuras pandemias, que estão ligadas aos nossos abusos de outros animais e do meio ambiente.

As cadeias de abastecimento inflexíveis que foram expostas durante a pandemia devem ser mais curtas e ágeis, com os consumidores mais próximos da fonte de alimentos e dos agricultores. O amplo interesse em jardinagem desencadeado pela pandemia é encorajador. As hortas domésticas poderiam fornecer mais alimentos do que imaginamos, como o Victory Gardens, que cultivou 40% da produção do nosso país durante a Segunda Guerra Mundial. A agricultura urbana, os mercados de agricultores, os programas de agricultura apoiados pelas comunidades e as hortas comunitárias podem fornecer alimentos nutritivos e empregos significativos em diversos contextos, e estavam a propagar antes da pandemia. Estes merecem mais apoio governamental e institucional, em vez da pecuária industrial e dos matadouros.

O agronegócio está usando a sua influência indevida para obter bilhões [Pt. milhares de milhões] de dólares de estímulo sendo gastos após esta pandemia e explora programas governamentais para financiar a pecuária industrial há décadas. Um estudo divulgado em 2018 constatou que 73% da receita da indústria de laticínios em 2015, mais de 22 bilhões [Pt. 22 milhares de milhões] de dólares, veio do governo. Em 2018 e 2019, a agricultura recebeu 14 e 16 bilhões [Pt. 14 e 16 milhares de milhões] de dólares, respectivamente, por comércio perdido, para além dos bilhões [Pt. milhares de milhões] que já recebe todos os anos. A indústria também teve acesso preferencial a recursos escassos como água, abaixo do custo de mercado, e isenções por legislações laborais, ambientais, de bem-estar animal e outras leis que permitem evitar responsabilização, para que possa externalizar os custos decorrentes da sua conduta irresponsável. Isso precisa acabar.

Em vez de matar animais, explorar trabalhadores e espoliar o meio ambiente, podemos nos alimentar de forma sustentável e ajudar a curar a terra através da agricultura à base de plantas, orientada pelas comunidades. A terra agrícola que atualmente cultiva monoculturas com petroquímicos para alimentação animal, pode mudar para a produção de legumes, grãos, frutas, vegetais, leguminosas, nozes, sementes e outras culturas diretamente para consumo humano. Os gramados [Pt. relvados] dos subúrbios podem ser transformados em jardins e, em ambientes urbanos, os alimentos já estão sendo cultivados em terrenos vazios, nos pátios de escolas e igrejas, nos terraços, na jardinagem florestal, em recipientes e caixas de plantio e até em prédios abandonados reconfigurados em fazendas verticais. Esta é uma tendência positiva que deve ser incentivada.

Ao olharmos para o futuro, procuremos criar um novo “normal”, sem pecuária industrial, nem matadouros. As políticas governamentais que permitiram abusos deviam ser redirecionadas para apoiar um sistema mais diversificado e saudável, que sustentasse comunidades vibrantes e produzisse alimentos que fossem nutritivos, em vez de voltar ao status quo quebrado que causa tanta dor e sofrimento simultaneamente para as pessoas e para os animais. E da nossa parte, chegou a hora de ganhar o hábito de comer menos carne, ou não comer carne de todo.

 

 


Texto publicado originalmente por Gene Baur no The Guardian, 19 de maio de 2020.

Tradução de Ligea Hoki. Revisão de José Oliveira.

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