A quarentena mudou-nos — e nem tudo é mau

Por (Vox)

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Coronavírus, que hábitos manter ao acabar o confinamento? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Eis 8 hábitos novos que as pessoas querem manter depois de acabar o confinamento.

As cidades estão a reabrir. As medidas de encerramento estão a ser levantadas. E algumas pessoas estão a começar a sentir que é possível vislumbrar um retorno, ainda que lento e parcial, à “normalidade”.

Mas a pandemia mudou-nos. Embora, em geral, estar em confinamento seja bastante duro, a surpresa é que muitos de nós perceberam que há alguns aspectos da vida em quarentena que vale a pena preservar. Estamos a questionar os princípios básicos da “normalidade” que todos acabámos por aceitar sem pensar — e estamos a perceber que não queremos voltar atrás, não para aquilo que era.

Para alguns, voltar atrás nem sequer é uma opção. Aqueles que estão a sofrer com a perda de entes queridos, por exemplo, sofreram uma perda trágica e irreparável. Milhões de pessoas que perderam o seu emprego não têm qualquer trabalho para o qual voltar e muitos trabalhadores essenciais têm trabalhado durante a pandemia, sem ter escolha. As pessoas mais velhas e as imunocomprometidas ainda são aconselhadas a ficar em casa.

Ao mesmo tempo, viver em quarentena durante meses deu a alguns de nós — maioritariamente os privilegiados — uma rara oportunidade para reflectirmos sobre as nossas vidas e, potencialmente, recomeçá-las.

Os trabalhadores, cujas profissões definiam as suas vidas, estão agora a questionar para que serviu toda aquela produtividade e se queremos realmente medir o nosso valor próprio pautando-nos pelo capitalismo hipercompetitivo. Muitos estão a descobrir que as coisas que os fizeram parecer ter “sucesso” também os fizeram sentir-se miseráveis, precários ou fisicamente debilitados.

A quarentena permitiu-lhes experimentar novos hábitos e novos estilos de vida. E querem manter algumas dessas coisas, mesmo num mundo pós-confinamento.

Pedi aos leitores da Vox que me dissessem quais seriam as mudanças específicas que desejavam manter quando saírem da quarentena e voltarem aos poucos para uma nova normalidade. Responderam mais de 100 pessoas espalhadas por todo o mundo, dos Estados Unidos aos Emirados Árabes Unidos e de Portugal ao Paquistão. Destacaram-se algumas tendências gerais nas respostas. As oito mais comuns encontram-se listadas abaixo.

1) Reduzir o consumismo

Esta foi de longe a resposta mais popular. Muitos disseram-me que querem gastar menos dinheiro a comprar bens materiais novos, como aparelhos e roupas. Um longo período, em que ficámos fechados em casa e em que não gastámos tanto, levou-nos a concluir que grande parte do nosso comportamento enquanto consumidores é uma gratificação instantânea, e não uma felicidade duradoura.

Várias pessoas também reconheceram que planeiam ir comer fora em restaurantes com menos frequência. Comer em casa durante o confinamento permitiu-lhes economizar dinheiro, e alguns descobriram o gosto pelas refeições caseiras.

Alguns disseram que irão tentar “consertar e aproveitar” com mais frequência. Em situações em que tal não seja possível e que precisem de comprar algo novo, os entrevistados disseram-me que querem ser mais conscientes naquilo em que gastam o seu dinheiro.

“Penso que estarei mais inclinada a redirecionar o meu consumo para as pequenas empresas locais”, disse Nora Zeid, de 23 anos, ilustradora e designer nos Emirados Árabes Unidos. “Parte-me o coração ver como estas têm sofrido ultimamente e como, ao contrário das grandes empresas, têm menos probabilidades de sobreviver.”

2) Abrandar e exercer menos pressão sobre nós mesmos

Estarmos fechados em casa fez com que muitos de nós percebessem que temos desperdiçado anos de vida, ao pressionarmo-nos para alcançar um “bom” emprego, frequentar os sítios “certos”, mesmo que toda essa obsessão pelo status estivesse a tornar-nos miseráveis.

“A quarentena forçou-me a abrandar como já não o fazia desde criança. Desde o ensino secundário e superior, até aos meus 20 anos e ao mestrado, passei metade da minha vida em constante movimento. Sempre disse que gostava de estar ocupado, mas os últimos dois meses de abrandamento forçado fizeram-me realmente pensar acerca da forma como quero que a minha vida seja daqui em diante”, disse um leitor da Vox nos EUA que preferiu permanecer anónimo. “Estou a tentar perceber como seria arranjar intencionalmente espaço na minha vida para respirar, reflectir e concentrar-me nos aspectos mais importantes da vida — as pessoas mais próximas de nós que fazem com que tudo valha a pena”.

Alguns entrevistados mais jovens disseram-me que querem colocar menos pressão sobre si mesmos quanto à carreira, porque agora percebem que o emprego não é o que mais importa na vida. Dois adultos mais velhos disseram-me que estavam a pensar em reformar-se antes da chegada da Covid-19; a pandemia levou-os finalmente a fazê-lo. E mesmo para alguns que já estavam reformados, o ritmo mais lento da vida criado pelo confinamento acabou por ser um alívio.

Após a pandemia, o objectivo será “não preencher todos os momentos do dia com algum tipo de compromisso”, disse Patricia Murray, que vive em Savannah, na Geórgia. “Até os reformados, como eu, precisam de lazer. Parece que trabalho tanto em voluntariado como trabalhava em empregos remunerados; abrandar foi a maior mudança que fiz e a sensação é boa.”

Uma vez mais, vale a pena notar que a possibilidade de abrandar implica um enorme privilégio. Os Milhões que foram expulsos do mercado de trabalho desejariam poder trabalhar mais, não menos. E algumas pessoas mais velhas e as imunocomprometidas tiveram de voltar ao trabalho, mesmo que ainda não se sintam seguras, porque precisam do salário e do seguro de saúde garantido pelo empregador.

3) Dar prioridade à família e amigos

Nos momentos críticos é que vemos quem está do nosso lado. Várias pessoas disseram-me que passaram a valorizar os membros da família e os amigos que estiveram ao seu lado para os apoiar durante este período difícil e que, muito tempo depois do desaparecimento do coronavírus, é neste grupo que desejam investir novamente.

“A quarentena reforçou a necessidade de dizer às pessoas aquilo que sentimos por elas”, disse Andrew Goldberg, recém-licenciado na Universidade de Syracuse. “Com o distanciamento social e com as ordens para ficar em casa, é mais fácil do que nunca sentirmo-nos isolados do mundo. Mas, à medida que passam os dias e as semanas, decidi que a única maneira de me manter bem disposto é garantindo que as pessoas de quem gosto saibam exatamente o que sinto por elas.”

Outros enfatizaram que a natureza bizarra e sem precedentes desta pandemia global permitiu que procurassem contactar pessoas com quem não falavam há séculos. De repente, viram-se no Zoom com familiares afastados ou antigos colegas de faculdade espalhados pelo mundo fora.

“Conversei mais com os meus sobrinhos mais velhos nas últimas semanas do que durante anos”, disse Nancy Skinner Ringier, patologista da fala reformada, acrescentando que agora partilham receitas e anedotas.

4) Agir de forma ética e activista no nosso mundo altamente interligado

Este foi talvez o conjunto de respostas mais encorajadoras: as pessoas disseram-me que a crise global de saúde lhes mostrou como todos nós estamos interligados e disseram-me que querem continuar a fazer mais pelos outros quando acabar a pandemia. Estão a doar mais a causas de beneficência, a esforçar-se mais para reduzir a sua pegada de carbono e a envolver-se mais no activismo político.

“Gostaria de manter a minha casa como sede da coligação de três associações de ajuda mútua de diferentes condados nas quais estou filiado”, disse Erin Brown, do condado de Tazewell, Illinois. “Neste momento, tenho aqui doações armazenadas que serão recolhidas por voluntários que fazem entregas e pessoas necessitadas. O meu telefone fixo, que faz parte do meu pacote de internet, nunca foi usado antes, mas agora é um número de contacto de ajuda mútua. Estou numa boa localização, perto dos três condados, e suponho que a ajuda mútua será vital nos próximos tempos”.

Os protestos contra a brutalidade policial também galvanizaram milhões na luta pela justiça racial.

“Durante muito tempo, não acompanhei as notícias da actualidade. Não é difícil perceber porquê — o nosso mundo é caótico, e a minha saúde mental já é suficientemente má”, disse Adrian DeRoy, um leitor de 27 anos nos EUA. “Mas a comunidade negra a erguer-se uma vez mais para enfrentar os seus desafios, fez-me reparar e ver o mundo, de forma lenta mas segura, a começar a acompanhar os protestos daqui, a gritar a uma só voz… isso dá-me um pequena réstia de esperança. Espero que talvez possamos superar isto tudo e que possamos sair disto melhor do que estávamos antes.”

5) Fazer exercício diariamente

Esta foi outra resposta bastante comum. Muitas pessoas que não se interessavam por exercício físico começaram a correr, a praticar ioga e outras actividades como uma maneira de lidar com o confinamento. E ficaram surpreendidos com o modo como a vida pode melhorar com a prática diária de exercício.

“Desesperada por uma desculpa qualquer para sair de casa, finalmente consegui manter uma rotina diária de exercício. É incrível a diferença que faz mesmo uma pequena corrida todas as manhãs!” contou-me Katie Reynolds, uma leitora da Vox nos EUA. “Durmo melhor, sinto a minha cabeça mais leve, estou mais bem disposta e é mais fácil manter outros bons hábitos. Definitivamente, irei manter este hábito, pelo menos até que haja gelo no chão outra vez.”

6) Cozer pão, cozinhar pratos vegetarianos e cultivar ervas

Sim, a obsessão pela massa fermentada é algo real. Várias pessoas escreveram-me de forma entusiasta sobre os seus fermentos.

“Penso que vou continuar a tratar do meu fermento. Neste momento, é como se fosse mais um animal de estimação da família”, disse Matthew Schreiber, que vive em Nova Orleans.

Além de fazer pão, as pessoas também referiram que planeiam continuar a fermentar coisas como chucrute e, em geral, continuar a cozinhar mais as suas próprias refeições, para comerem menos alimentos processados.

Concretamente, as pessoas querem cozinhar mais refeições vegetarianas e afastar-se do consumo de carne. O impulso parece vir não apenas do facto de haver escassez de carne em alguns supermercados dos EUA, mas também do conhecimento de que um mercado de animais vivos na China pode ter originado o coronavírus e que as gigantescas pecuárias industriais que fornecem 99% da carne dos EUA também representam um risco de pandemia.

Muitos também me disseram que estão a gostar de cultivar ervas como hortelã e coentros nos seus pátios, ou de cultivar vegetais como aipo e cebolinho em pequenos copos no peitoril da janela.

Na verdade não é surpreendente que a crise do coronavírus tenha causado esta reacção. É uma reminiscência da Primeira e Segunda Guerra Mundiais, quando os americanos cultivavam as suas próprias frutas e legumes em “jardins victorianos”. O impulso de regressar à natureza dá conforto psicológico num momento de grande incerteza, além de uma protecção prática contra problemas na cadeia de abastecimento: se as lojas ficarem sem comida, pelo menos teremos os nossos vegetais!

7) Passar mais tempo na natureza

Andar ao ar livre tem sido, para muitos de nós, uma maneira crucial de manter a nossa sanidade durante o confinamento. Em particular, os pais querem dar aos seus filhos que estão fechados a oportunidade de correrem e de libertarem alguma energia (o que, francamente, é provável que seja tão crucial para a saúde mental dos pais como para a dos filhos).

“Eu desenvolvi com as crianças uma rotina matinal que envolve “escutar em silêncio” na varanda. É uma óptima maneira de começar o dia calmamente com os meus pequenos selvagens”, disse Sharon Lapin, uma pintora do Atlanta.

Outros estão simplesmente a aproveitar a possibilidade de voltarem a ligar-se ao mundo natural. Os seus ritmos e a sua resiliência podem ajudar a acalmar as nossas mentes ansiosas.

“Quero ficar nesta zona com menos distracções e aproveitar o tempo que tenho com o meu marido para desfrutar o mundo natural (fazer caminhadas, andar de caiaque) e viajar para acampar”, disse Camille Costa Nerney, do interior de Nova York.

8) (Se possível) Trabalhar a partir de casa

De um momento para o outro, os confinamentos em todo o mundo levaram milhões de pessoas a trabalhar a partir de casa — e, conseguem adivinhar? Parece que podemos fazer da mesma maneira muitos trabalhos no conforto das nossas próprias casas (e em roupa desportiva) como podemos nos nossos escritórios.

Obviamente, para muitas pessoas, isto não é uma opção. É um privilégio poder trabalhar a partir de casa. Dito isto, quanto ao mito de que o teletrabalho não é tão prático como o trabalho no escritório, das 9 às 5, foi demonstrado que era exactamente isso: um mito. Alguns estão a descobrir que, na verdade, o teletrabalho traz benefícios únicos.

“Sou psicólogo de aconselhamento e tenho trabalhado com os clientes a partir de casa. Penso que vou continuar a fazê-lo! É bastante conveniente”, disse Raphael Doval-Santos. “O meu consultório também se torna mais global e os meus clientes novos já não se situam apenas dentro da minha cidade.”

Vários entrevistados disseram que adoram o facto de já não precisarem de se deslocar para o trabalho. Significa menos poluição, mais horas de sono e menos stress.

“Na verdade, gosto disto agora; é melhor assim”, disse Hermee Sorneo, 36 anos, chefe da equipa de atendimento ao cliente de uma empresa de gestão de dados nas Filipinas. “O teletrabalho tem bastantes benefícios e acho que todos deveriam fazê-lo de forma voluntária, com ou sem pandemia, pelo menos uma vez em cada 10 anos durante pelo menos três meses”.

O assunto “com ou sem pandemia” levanta uma questão decisiva. Muitos de nós dizem querer manter os seus hábitos novos num mundo pós-pandemia, mas será mesmo que irão mantê-los?

Como sabe qualquer um que já tenha tentado cumprir uma resolução de Ano Novo, é difícil manter novos hábitos. Contudo, os psicólogos especializados em mudança de comportamento dizem que há coisas que podemos fazer agora para aumentar a probabilidade de ter sucesso a longo prazo. Por exemplo, pode preparar o seu meio envolvente, seja ao criar uma doação mensal recorrente e automática ou colocando os ténis de corrida junto à cama para o incentivar a fazer uma corrida matinal. Também é bom recompensar-se a si mesmo sempre que se envolver no comportamento em causa, mas faça com que seja uma recompensa interior, e não exterior. Portanto, em vez de preparar um smoothie depois de cada corrida, faça uma pausa para saborear o facto de se sentir com mais força e energia.

Por fim, é importante reparar que, se não sair desta pandemia com novos hábitos excelentes, não faz mal. Por vezes, sobreviver é uma conquista em si.

“Com a minha quarentena, surgiram bons hábitos. Mas quero que os outros saibam que não há problema caso o resultado desta quarentena seja bom, mau ou nenhum”, disse Farishta Saifi, uma auxiliar de saúde de 23 anos. “O mundo é agora um lugar assustador e simplesmente viver mais um dia é suficientemente bom.”


Publicado originalmente por na Vox, a 9 de Junho de 2020.

Tradução de Rosa Costa e de José Oliveira.

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