A Covid-19 pode reverter décadas de progresso global

Por Sigal Samuel (VOX)

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Coronavírus, vamos recuar 30 anos? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

A atenção do mundo, nos últimos dois meses, centrou-se na pandemia do coronavírus, e com razão. O número global de mortos atingiu os 285 mil, a economia está um caos e as nossas vidas quotidianas estão completamente transformadas. Isto, obviamente, é um grande problema.

Mas enquanto nos concentramos todos nisso, quais são os outros problemas que estão a ser negligenciados e a piorar? Que tipo de danos colaterais estão a acontecer no mundo?

Os impactos secundários da Covid-19 — incluindo uma possível “pandemia da fome” e um “tsunami de pobreza” — devem ser levados a sério. Os especialistas alertam que o número de mortes que causam pode facilmente ultrapassar o número de mortes da própria Covid-19.

Este não é um argumento para levar a Covid-19 menos a sério, para relaxar o distanciamento social ou para reabrir a economia; nos EUA, os epidemiologistas enfatizam que não estamos, de todo, prontos para fazê-lo com segurança.

Em vez disso, a questão é que faríamos bem em adoptar uma visão mais ampla sobre o sofrimento humano. Quando pensamos nesta pandemia, não são apenas os efeitos directos que nos devem preocupar, mas também os efeitos secundários. Noutras palavras, embora o coronavírus seja um problema sério ao qual devemos prestar atenção, esses outros problemas também são problemas sérios que são negligenciados e que exigem urgentemente a nossa atenção.

Abaixo estão oito exemplos que merecem destaque, embora esta lista não seja exaustiva.

1) As vacinas de rotina estão a cair no esquecimento

As pessoas estão a adiar a vacinação, para si e para os seus filhos, porque têm medo de ser expostas à Covid-19. Em muitos casos, mesmo que as pessoas queiram ir, os hospitais e as clínicas estão a pedir-lhes que fiquem em casa.

“Os programas nacionais de vacinação foram suspensos em mais de duas dúzias de países, o que também poderá deixar vulneráveis mais de 100 milhões de crianças”, informou o New York Times.

Se as crianças não tomam as vacinas, são colocadas em risco de doenças fatais evitáveis, como o sarampo, a poliomielite e a difteria. Os especialistas prevêem que iremos ver essas doenças surgirem mais nos próximos anos porque as taxas de imunização estão a cair durante a pandemia.

Além disso, a Organização Mundial da Saúde adverte que a perturbação relacionada com o coronavírus nos programas anti-malária na África subsariana pode causar aí o dobro de mortes por malária neste ano.

2) As pessoas estão a evitar ir ao médico, mesmo em caso de ataques cardíacos e AVCs

Os médicos americanos estão alarmados ao ver uma queda vertiginosa no número de pacientes que apresentam sintomas de ataque cardíaco e AVCs. “Onde estão os nossos pacientes todos? Não fizemos nada da noite para o dia que tenha curado doenças cardíacas”, disse Martha Gulati, chefe de cardiologia da Universidade do Arizona, ao STAT News. “A minha preocupação é que algumas dessas pessoas estejam a morrer em casa por estarem com demasiado medo de ir ao hospital.”

Para pessoas com sintomas de ataque cardíaco ou AVC, é crucial que procurem tratamento imediatamente. Quanto mais cedo um paciente é tratado, maior a probabilidade de atenuar os danos causados ao coração e ao cérebro e de reduzir o risco de paralisia.

Os especialistas também estão preocupados com o facto de irmos assistir ao aumento das taxas de infecções sexualmente transmissíveis (IST) e que a luta contra o HIV provavelmente será prejudicada porque as pessoas não estão a ser testadas. “Estamos a ver uma ruptura completa na prevenção de DST [doenças sexualmente transmissíveis] aqui nos Estados Unidos”, disse David Harvey, director executivo da National Coalition of STD Directors, ao The Hill. “Como consequência, esperamos ver taxas de DST ainda mais altas”.

3) Cirurgias “electivas” incluindo cirurgias ao cancro [Br. câncer] e transplantes de órgãos estão a ser adiadas

Quando se pensa em cirurgias electivas, provavelmente pensamos numa cirurgia plástica ao nariz ou substituições da anca — coisas que podem ser adiadas sem colocar em risco a vida de alguém. Mas, como o ProPublica explicou, a categoria estende-se muito além disso: “A cirurgia electiva é, por definição, qualquer cirurgia programada. Isso significa que cirurgias ao cancro [Br. câncer], transplantes de órgãos e outros procedimentos que salvam vidas, estão agora todos suspensos.”

Isso acontece em parte porque muitos hospitais têm escassez de equipamentos de protecção individual e estão a tentar reservar tudo para os médicos e enfermeiros que tratam a Covid-19. Também estão a tentar manter os ventiladores e as camas de UTI livres para pacientes com Covid-19, principalmente em áreas que foram intensamente afectadas pelo vírus.

O American College of Surgeons viu-se na posição de ter de recomendar que a remoção de pólipos do cancro [Br. câncer] do cólon seja adiada por três meses e as cirurgias do cancro [Br. câncer] da mama sejam adiadas caso a terapia hormonal possa ajudar entretanto.

Como resultado disso surgiram muitas histórias comoventes. Refere-se apenas uma: Zach Branson, do Colorado, nasceu há 33 anos com uma doença rara e por isso precisava de um fígado novo. Depois de uma longa espera, finalmente foi informado que faria um transplante em 25 de Março. Mas depois surgiu o coronavírus e a cirurgia foi cancelada. O seu médico disse-lhe que poderiam restar-lhe apenas 30 a 45 dias de vida. E, no entanto, o hospital considerou a cirurgia que lhe daria o fígado do seu doador voluntário como sendo “electiva”. A sua família chamou a isto “uma sentença de morte”.

Branson acabou por receber um novo fígado em Abril, depois de o hospital ter mudado a sua posição. Mas muitos outros que precisam de transplantes ou cirurgias não tiveram a mesma sorte.

4) Uma “pandemia da fome” e um “tsunami de pobreza” podem estar a caminho

A pandemia da Covid-19 pode estar a arrastar consigo outro desastre — o que David Beasley, director executivo do Programa Alimentar Mundial da ONU, chama de “a ameaça iminente da pandemia da fome”. Este adverte que “poderemos vir a assistir à fome em cerca de três dezenas de países” e que “a análise do PAM mostra que 300 mil podem morrer à fome todos os dias nos próximos três meses” se não mantivermos em acção a ajuda humanitária perante o encerramento de fronteiras.

Além disso, a crise económica do coronavírus irá intensificar a pobreza global. De acordo com uma nova análise do King’s College London e da Australian National University, esta crise poderá empurrar para a pobreza mais 8% da população do planeta — cerca de 500 milhões de pessoas. Isso de facto iria eliminar três décadas de desenvolvimento económico. “Ficámos surpreendidos com a enorme escala do potencial tsunami de pobreza que poderia acompanhar a Covid-19 nos países em desenvolvimento”, disse um dos autores.

5) O risco de uma pandemia bacteriana está a aumentar 

A Covid-19 pode fomentar ainda mais um desastre: uma potencial pandemia bacteriana, desencadeada pelo agravamento da crise de resistência aos antibióticos.

“Embora a Covid-19 seja uma doença viral que não é afectada por antibióticos”, relata a Wired, “os dados iniciais de hospitais mostram que proporções muito elevadas de pacientes — mais de 90% em algumas coortes — estão a ser tratadas com esses medicamentos para curar ou proteger contra infecções secundárias durante doenças respiratórias ou hospitalização.” Além disso, muitas pessoas estão a tomar antibióticos por iniciativa própria, numa tentativa, errada, de se protegerem contra o coronavírus.

Esse uso excessivo pode piorar a resistência aos antibióticos, que é quando as bactérias evoluem e se adaptam para que os nossos antibióticos já não consigam matá-las. Já é uma crise enorme: uma pessoa nos EUA morre a cada 15 minutos por causa de uma infecção que os antibióticos já não são capazes de tratar de maneira eficaz. Globalmente, isto representa cerca de 700 mil mortes por ano. Se não tivermos cuidado agora, esse número irá aumentar.

6) Infelizmente a crise do coronavírus está a causar um prejuízo enorme na investigação

A pandemia do Covid-19 interrompeu os ensaios clínicos em praticamente tudo, excepto a Covid-19. Para os pacientes que estão desesperados por novos tratamentos para doenças resistentes ou raras, é devastador, e potencialmente fatal, colocar em espera essa investigação.

Ao mesmo tempo, manter pacientes imunocomprometidos inscritos em ensaios clínicos, neste momento, também pode ser fatal, pois iria colocá-los num elevado risco de exposição à Covid-19. Não é fácil perceber qual será o ponto de equilíbrio certo.

Entretanto, muitas investigações estão a ser suspensas por uma razão completamente diferente e bastante desagradável: as mulheres parecem estar a submeter menos trabalhos académicos durante a pandemia do que antes, porque estão sobrecarregadas com a maior parte dos deveres de cuidados infantis agora que as escolas e as creches estão encerradas.

Mesmo com o número de submissões por parte das mulheres a diminuir, o número de submissões por parte dos homens está a aumentar — mais de 50%, em algumas contagens.

Esta realidade ameaça perturbar as carreiras de académicas brilhantes. Quando regressarem aos seus cargos num mundo pós-pandemia, não é claro se os seus avaliadores irão acreditar nelas quando disserem: “Não me castigue por não publicar tanto quanto esperava — é que de repente eu tive de cuidar de três filhos a tempo inteiro!”

7) As populações vulneráveis ​​estão a ser ainda mais atingidas do que o costume

Longe de ser um factor de igualdade, a pandemia da Covid-19 tem exposto e ampliado disparidades pré-existentes. São precisamente as populações que já estavam em pior situação — meninas e mulheres, pessoas LGBTQ, pessoas sem-abrigo e pessoas de cor — que estão a sentir os efeitos mais severos da crise actual.

Disseram-nos a todos que ficássemos em casa, mas para milhões de pessoas, a sua casa é perigosa. “Todos os anos, mais de 10 milhões de americanos sofrem violência doméstica, e os especialistas temem que a pandemia e o isolamento necessário para combatê-la, possam elevar ainda mais estes números”, escreveu Anna North para a Vox em Março. “A Linha Directa Nacional de Violência Doméstica está a receber denúncias de agressores que usam o coronavírus como outra desculpa para isolar e maltratar os membros da família.”

Em França, os relatos de violência doméstica aumentaram 30% durante a pandemia. As chamadas para linhas directas aumentaram 30% no Chipre e 33% em Singapura. E o ACNUR, a agência de refugiados das Nações Unidas, alerta que os refugiados, os deslocados internos e as pessoas apátridas são especialmente vulneráveis ​​a abusos físicos e sexuais. Ficar fechado em casa enquanto as economias falham e as emoções se intensificam é uma receita para o aumento da violência por parte de parceiros íntimos, diz a agência.

As pessoas LGBTQ também sofreram sob as ordens para ficar em casa. Como Katelyn Burns relatou, alguns não se podem dar ao luxo de regressar às casas das suas famílias quando, por exemplo, as suas residências universitárias são encerradas. E a comunidade trans está a ter de lidar com um sistema de saúde que a marginaliza de forma perigosa.

E depois há pessoas que vivem sem-abrigo. Como o New York Times explicou, correm maior risco de contrair e morrer da Covid-19. Costumam morar em alojamentos apertados em abrigos com poucos recursos e muitos têm condições de saúde inerentes, como infecções respiratórias crónicas. A falta de cuidados de saúde acessíveis e baratos, juntamente com a falta de postos de lavagem de mãos nas ruas, aumenta o risco para mais de meio milhão de pessoas sem-abrigo nos EUA.

Este é um problema global e talvez seja mais evidente na Índia. Quando este país repentinamente instituiu o maior encerramento total já realizado na Terra, o Times informou que “centenas de milhares de trabalhadores migrantes iniciaram longas viagens a pé para chegar a casa, tendo ficado sem abrigo e sem emprego”. Por outras palavras, a população de sem-abrigo aumentou precisamente porque ter moradia estável se tornou ainda mais crucial do que o costume. “Esta pode ter sido uma boa decisão para os ricos”, disse um trabalhador ao Times, “mas não para aqueles de nós que não têm dinheiro”.

Além disso, há provas claras de que as pessoas de cor estão a sofrer as consequências desta pandemia. A Covid-19 está a acabar com vidas negras de forma desproporcional. Na Louisiana, por exemplo, os negros representam mais de 70% das mortes; o estado tem apenas 33% de pessoas negras. Para quem entenda como a opressão sistémica funciona, isto não será um choque.

Como Fabiola Cineas escreveu para a Vox, “Centenas de anos de escravidão, racismo e discriminação acumularam-se para ditar resultados prejudiciais na saúde e na economia das pessoas negras — doenças cardíacas, diabetes e pobreza, por exemplo — que apenas estão a ser ampliadas por meio da implacável lente da pandemia de coronavírus”.

8) Milhões de animais estão a ser mortos 

Enquanto os americanos estão a ficar obcecados com a possibilidade de falta de carne, milhões de animais estão a ser mortos na pecuária e a ser completamente desperdiçados. Estão a encher as suas instalações com uma espuma que os sufoca até a morte. Todos esses animais estão a morrer em vão; a carne nunca chegará ao prato de ninguém.

E a razão para este terrível massacre em massa é a seguinte: Muitos agricultores não têm para onde mandar abater os seus animais, porque algumas das principais fábricas de processamento de carne foram forçadas a encerrar após se terem tornado focos de intensa transmissão da Covid-19.

“As pessoas podem pensar: «Bem, se [esses animais] forem para o matadouro, irão morrer de qualquer das maneiras. O que importa isso?» Mas é uma grande diferença em termos da quantidade de sofrimento durante a morte”, disse Leah Garcés, presidente da Mercy for Animals. “E também é um desperdício absurdo — o facto de todos estes animais terem passado pela pecuária industrial, tendo uma vida horrível, apenas para serem sufocados com espuma até a morte e depois serem descartados”.

A pandemia expôs as falhas no nosso sistema da pecuária industrial, assim como expôs a ruptura nos nossos sistemas de armazenamento de seres humanos — como os lares de terceira idade e as prisões. Esperemos que a crise do coronavírus nos venha a motivar para mudarmos estes sistemas, que já eram crises em si mesmos muito antes de surgir a Covid-19.


Publicado originalmente por Sigal Samuel na Vox, a 11 de Maio de 2020.

Tradução de Rosa Costa e de José Oliveira.

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