ACE Entrevistas: Lynette Bye [Coaching AE]

Por Erika Alonso (Animal Charity Evaluators)

Aumentar produtividade AE.fx

Coronavírus, produtividade vs. bem-estar? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Lynette Bye é coach de produtividade e fundadora do Coaching AE. Antes disso,  pesquisou sobre autocontrole sob orientação de Angela Duckworth, da Universidade da Pensilvânia. Lynette se envolveu no Altruísmo Eficaz em 2014 enquanto se graduava em psicologia pela Universidade de Harvard.

Que tipo de valor você acha que o coaching em produtividade traz para a comunidade AE?

Duas coisas. Primeiro, meus clientes conseguem produzir mais agora. Eles podem conseguir mais bolsas de estudos, ou concluir as suas teses mais rapidamente, ou escrever um artigo extra. E para altruístas eficazes, conseguir produzir mais, significa mais impacto. Analisei os números há algum tempo e os meus clientes relatavam ter uma média de quatro horas de trabalho produtivo a mais por semana — a partir de uma sessão de coaching de uma hora. Isso sem contar com o impacto contínuo que ocorrerá depois do coaching.

Segundo, os meus clientes estão investindo em seu capital de carreira. Eles estão desenvolvendo competências para planejar, experimentar e realizar tarefas. Levarão isso para os seus trabalhos futuros, os quais poderão realizar melhor porque aprenderam essas competências. E, esperemos, ao investir nessas competências agora, a comunidade do altruísmo eficaz estará em uma posição ainda melhor para causar um impacto daqui a dez ou cinquenta anos.

Com base em suas interações com membros e organizações da comunidade AE, de que outros serviços de desenvolvimento profissional/pessoal você acha que os AEs poderiam beneficiar?

Obviamente, terapia, se você estiver enfrentando problemas de saúde mental. Estou muito empolgada que agora haja um par de terapeutas concentrados na comunidade AE, Ewelina Tur e Damon Pourtahmaseb-Sasi. Espero que eles possam ajudar as pessoas a atravessar o pesadelo logístico de ter acesso a terapia.

Quais são alguns dos problemas mais comuns que você encontra ao fazer coaching?

Priorização surge muito. Mas, na verdade, é porque cobre muitos assuntos.

Para uma pessoa, a priorização pode incluir a resolução de grandes questões para decidir sobre uma meta de alto nível e trabalhar na sua direção, tal como a segurança da IA. E passar seis meses refletindo, discutindo e construindo modelos para identificar o que precisa acontecer para atingir essa meta. E escolher apenas uma seleção de uns poucos projetos para se concentrar naqueles que parecem promissores com base nesses modelos. E retornar aos projetos à medida que você obtém mais informações sobre o quanto eles são valiosos na prática. E, friamente, realizar as ações mais importantes todos os dias, para não desperdiçar energia.

Por isso, sim, eu falo muito sobre priorização. Também podemos discutir hábitos ou rotinas de trabalho intenso para se começar a trabalhar, mas geralmente acabamos por voltar à priorização.

Devido à COVID-19, muitas pessoas que trabalhavam em um escritório (ou cafeteria, biblioteca, etc.) agora estão trabalhando em casa. Você tem algum conselho geral ou melhores práticas para manter a produtividade enquanto trabalhamos em casa?

Honestamente, a minha maior dica de quarentena é cuidar de si primeiro. Ninguém será otimamente produtivo caso se sinta sozinho, cansado ou se estiver enlouquecendo por não se mexer o dia todo. E embora a quarentena seja adequada para algumas pessoas, outras estão descobrindo que esta destrói as rotinas e a rede de suporte em que elas confiam. Portanto, concentre-se na produtividade depois de ter tido tempo para interação social, exercícios, refeições bem saudáveis ​​e sono suficiente.

Depois disso, os meus principais conselhos de produtividade são os mesmos, independentemente de onde você estiver trabalhando. Escolha deliberadamente o seu trabalho mais importante, defina metas claras sobre como realizá-lo e conquiste um tempo de trabalho intenso para se concentrar nele. Se você está cumprindo a sua principal prioridade todos os dias e dedicando várias horas de trabalho concentrado, provavelmente está indo bem.

Existem livros ou recursos que você recomendaria para pessoas que desejam melhorar a sua produtividade?

Eu tenho sempre um pouco de dificuldade com essa questão. Ou seja, há muitos livros excelentes que eu poderia dizer. Em primeiro lugar, há Motivation Hacker, Peak, Deep Work, The 4-Hour Work Week, The Power of Habit, Getting Things Done, e The Procrastination Equation. São todos muito bons, cada um à sua maneira. Mas cada livro é como se pensasse que é a resposta para a vida, o universo e tudo mais. E não é. Mas todos eles têm boas ideias e você pode ir longe escolhendo as dicas mais úteis de cada um.

Ok, na verdade, tenho algumas recomendações mais fortes para públicos específicos.

Acho que todos os estudantes ambiciosos do ensino médio, ou nos primeiros anos de graduação, deveriam ler How to be a High School Superstar de Cal Newport. É útil para descobrir aquilo em que você deseja ser bom. Além disso, eu gosto daquele seu estilo sobre a capacidade de agir a partir da crença de que realmente você pode se tornar bom em alguma coisa, mesmo quando jovem.

Para as pessoas no início de suas carreiras, mas que sabem aquilo em que querem ser boas, o Top Performer Course é bastante útil. Abrange várias coisas sobre como descobrir o que é necessário para se tornar um especialista, além de dicas práticas para depois realmente se fazer o trabalho.

Para as pessoas que fazem pesquisa, recomendo o artigo de Jacob Steinhardt “Pesquisa como um processo de decisão estocástico”. Ele descreve uma maneira de aumentar a eficiência de seus projetos, principalmente na pesquisa. A versão bem resumida é que é mais rápido primeiro executar as partes do projeto com maior probabilidade de se falhar ou alterar as outras etapas que se irá fazer, em vez de executar as partes mais fáceis primeiro.

E por último, mas não menos importante, acho que muitos altruístas eficazes se beneficiariam da leitura da série Substituindo a Culpa de Nate Soares. Isso pode parecer uma recomendação estranha para a produtividade. Mas um grande número de pessoas vem ter comigo sentindo-se culpado por não ser mais produtivo do que é, e acho que a culpa acaba por sabotar as suas tentativas de se tornarem mais produtivos. Eles se sentem culpados por não serem mais produtivos, por isso se sentem mal quando se lembram do trabalho. Portanto, é menos provável que gostem de seu trabalho. Às vezes, têm menos probabilidade até mesmo de pensar no trabalho, o que definitivamente torna mais difícil a produtividade. Daí as dicas para criar um sistema de motivação que não seja à base de culpa.

Com relação à produtividade, o que mais perturba você e como o superou?

Provavelmente como me manter motivada sem pressão externa. Quero dizer, meus clientes esperam que eu esteja presente e concentrada. Mas e fora disso? Não tenho chefe, professor ou colegas de trabalho. Não tenho prazos finais. Eu trabalho sozinha, em casa. As recompensas estão distantes no futuro para, por exemplo, publicar um artigo. E ainda por cima, tenho uma condição de saúde chamada POTS [Síndrome da taquicardia ortostática postural] que me deixa cansada quase um terço do tempo. Basicamente, meu trabalho é a tempestade perfeita de responsabilidade zero, sem nenhum monstro do pânico à vista.

Por outras palavras, tenho que encontrar maneiras de me motivar inteiramente por conta própria.

Então, criei a minha própria rede de responsabilidade, começando com as sanções monetárias no Stickk. Algum dinheiro em jogo era uma boa maneira para me motivar quando eu estava realmente com dificuldades, e agora eu o uso para colocar pressão face aos prazos finais que estipulei. Após muita experimentação, adicionei sessões diárias de coworking no focusmate.com para reservar momentos de trabalho intenso. E todos os meses, envio um e-mail a um grupo de pessoas que respeito, comprometendo-me com as metas para o novo mês e informando sobre meus sucessos ou fracassos nas metas do mês passado.

É claro que essas ferramentas funcionam assim tão bem porque eu passei muito tempo me treinando para querer fazer meu trabalho. Parte desse processo foi descobrir o que eu gostava e prestar atenção nessa felicidade, de modo que, quando me sento para trabalhar, eu espero que fazer isso me faça sentir bem. Outra parte de aprender a querer trabalhar foi aprender a apreciar o desafio. Posso definir uma meta e aproveitar o desafio de atingi-la com eficiência, de produzir a qualidade desejada de trabalho sem desperdiçar nenhum esforço.

E, finalmente, aceito que há limites para o que consigo fazer. Contanto que eu faça algumas horas de trabalho intenso todos os dias, mais as minhas consultas de coaching, fico feliz. E se eu falhar em minhas metas, usarei a falha como um dado sobre o que mudar da próxima vez para obter melhores resultados — mas não me culpabilizo por isso.

Existem tendências/novidades/estratégias populares de produtividade sobre as quais você seja particularmente cética?

Em geral, não sou fã de “uma solução única para todos” na abordagem da produtividade. É possível perder muito tempo com coisas que “deveríamos” fazer. Por exemplo, meditação. É ótimo para algumas pessoas. Mas vejo pessoas tentando meditar regularmente e realmente tendo dificuldade para manter isso. Elas não se sentem motivadas, não conseguem apontar nenhum benefício claro em suas vidas e realmente não parecem gostar. No entanto, elas querem gastar nisso 15 minutos por dia. Isso é muito tempo!

Se você tivesse a capacidade de dar magicamente a todos em uma organização uma hora adicional por semana para se concentrar apenas em melhorar a sua produtividade, como você recomendaria que eles gastassem esse tempo?

Faça experiências! Nesse período, você pode realizar uma experiência por semana ou quinzenalmente.

Estas podem ser super simples. Por exemplo, tentei várias combinações e achei que seria melhor tomar um comprimido de cafeína a cada três dias. E testei, por isso sei que definir metas para o meu dia funciona muito melhor do que bloquear o tempo ou apenas fazer o que me apetece.

As experiências não precisam ser complicadas. Realmente, basta perguntar a si mesmo quais são os seus maiores bloqueios de produtividade. Pergunte talvez se há uma ideia óbvia que o ajudaria ou arranje uma lista de ideias de um livro ou blog. Em seguida, tente algumas ideias para ver o que funciona. Para muitas experiências, uma semana ou duas é o suficiente para testá-las.

Se funcionar o suficiente para valer a pena, continue a fazer isso! Caso contrário, deixe isso para trás com a consciência tranquila. Seja como for, você pode tentar uma nova experiência!


Entrevista publicada originalmente por Erika Alonso na Animal Charity Evaluators, a Junho 22 de 2020.

Tradução de Ligea Hoki. Revisão de José Oliveira.

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