Fazer Campanha Animal Eficaz: conhecimento atual e princípios orientadores

Por Mia Rishel (Faunalytics)

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Defender os animais, como ser eficaz? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Em sua essência, fazer campanha animal eficaz significa maximizar o sofrimento evitado por cada dólar que gastamos. Recentemente, um relatório de avaliação da pesquisa pela Vegan Society forneceu recomendações para a criação de campanhas mais eficazes, com base em pesquisas produzidas principalmente por: Faunalytics Animal Tracker, Animal Charity Evaluators, Humane League Labs e Mercy For Animals.

O relatório destaca descobertas anteriores, ao mesmo tempo em que destaca novas ideias perspicazes: animais da pecuária, especialmente galinhas e peixes, são os que mais sofrem; mensagens baseadas na crueldade contra os animais são geralmente mais eficazes com públicos mais jovens do que aquelas baseadas no meio ambiente e na saúde individual; mensagens que desencorajam o consumo de carne vermelha devem ser evitadas, pois os consumidores podem se voltar para frango e peixe, causando mais sofrimento aos animais em geral, por serem consumidos mais indivíduos; embora alguns grupos demográficos sejam mais receptivos às mensagens de defesa dos animais, a divulgação geralmente deve ser projetada para alcançar o máximo de pessoas e ser relativa ao contexto quando necessário; o direcionamento das campanhas a indivíduos a longo prazo cria mais veg*nos e mais defensores dos animais.

Se você é fã da Faunalytics, pode já estar familiarizado com essas lições. De nossa parte, examinamos a eficácia das campanhas face a corporações e a importância de equilibrar as campanhas dirigidas a indivíduos vs. campanhas dirigidas a instituições. Analisamos os dados demográficos de quem é mais favorável às causas animais e encorajamos mensagens relativas ao contexto quando possível. Sabemos que tornar as pessoas  veg*nas é metade da batalha – manter as pessoas veg*nas é vital. Finalmente, estamos no meio da nossa próxima pesquisa que se concentra no sofrimento de frangos e peixes.

Por sua vez, a Vegan Society analisa como o foco, o conteúdo e o enquadramento são importantes para a defesa dos animais. Embora eles não enquadrem necessariamente as coisas em termos de um modelo de Defesa Animal Eficaz (DAE), as suas sugestões se encaixam bem dentro desse enquadramento. Usando os nossos recursos e os de outros grupos, aqui está o que eles descobriram.

Foco

Muitas organizações recomendam que se deve focar em animais da pecuária, galinhas e peixes em particular, por causa da enorme quantidade de sofrimento e do número de indivíduos mortos. Os animais usados ​​para alimentação nos Estados Unidos recebem uma fração das doações de caridade para animais: apenas 0,8% vai para organizações de animais da pecuária, enquanto 66% vai para abrigos para animais. As galinhas isoladamente representam 98% dos animais terrestres mortos nos EUA. Embora alguns argumentem que um frango de corte que pode viver apenas dois meses, sofra menos do que uma vaca de corte que vive mais de um ano, mesmo quando se leva em consideração a diferença de longevidade as galinhas ainda respondem por mais de 90% do sofrimento dos animais terrestres. Na pecuária industrial comum, a vida das galinhas é muito pior do que a das vacas. Enquanto isso, os peixes são mortos, potencialmente na casa dos trilhões [Pt. biliões], a cada ano.

Embora esse foco em galinhas e peixes faça sentido do ponto de vista geral e na perspectiva do custo-eficácia, sabemos que os defensores dos animais nunca irão parar de trabalhar em uma gama mais ampla de questões – nem devem parar. Os animais de companhia, a vida selvagem e os animais usados ​​na ciência precisam sempre de nossa ajuda. Existem esforços contínuos que ajudam inúmeros animais, bem como oportunidades em constante mudança para ajudar mais. Os programas TNR [apanhar, castrar, vacinar e devolver à liberdade] estão provando ser altamente eficazes na resolução de problemas com gatos selvagens, e agora surgiram oportunidades estratégicas para a defesa da vida selvagem por causa da ligação com a pandemia da COVID-19. Nunca devemos ignorar áreas onde podemos alcançar “vitórias” estratégicas com base nos dados disponíveis e no contexto atual.

Conteúdo da Mensagem

Com base em recentes pesquisas empíricas fundamentais, existem algumas recomendações para as abordagens mais eficazes ao criar material para campanhas.

Fazer:

Focar na crueldade animal

Mostrar conteúdo explícito

Mostrar animais da pecuária ao lado de animais de companhia

Não Fazer:

Comparar a pecuária industrial com o estupro e a escravidão

Usar imagens sexualizadas de mulheres

Equiparar seres humanos a animais

O material para campanhas apresentando apenas galinhas geralmente é menos eficaz para persuadir as pessoas a reduzir o consumo de carne, no entanto, um estudo mostrou que fotos de aves foram mais impactantes do que fotos de vacas, cabras/ovelhas e peixes, perdendo apenas para fotos de porcos. O mesmo estudo sugere que fotos de grandes grupos de animais têm mais impacto, assim como fotos de mães e bebês juntos. Mais impactantes são as fotos de animais doentes ou feridos e animais em gaiolas pequenas.

Mensagens de campanha com foco em anti-crueldade podem ser eficazes com o público mais jovem, no entanto, promover benefícios para a saúde pode ser mais eficaz com consumidores mais velhos. As principais preocupações nas quais os defensores dos animais devem se concentrar são a redução do risco de doenças e a prevenção da contaminação por antibióticos. Mensagens que desencadeiam reações de nojo podem ser tão eficazes quanto mensagens anti-crueldade, e os defensores dos animais devem retratar os produtos de origem animal como contaminados por doenças, hormônios [Pt. hormonas] e antibióticos. Os consumidores que abandonam a carne vermelha e preferem as galinhas por motivos de saúde devem ser informados de que as galinhas têm maior probabilidade de transportar bactérias como o E. coli e a Salmonella.

Os meios de comunicação parecem ter aceitado mais prontamente as mensagens com foco no impacto ambiental dos produtos de origem animal e, de acordo com a Vegan Society, essas mensagens tiveram algum sucesso na criação de mais veg*nos, especialmente entre as pessoas jovens. Estudos mostram que a maioria dos consumidores de carne acreditam que o veg*nismo é uma dieta melhor do ponto de vista ambiental, ético e da saúde. No entanto, o sabor e a conveniência são barreiras significativas para uma mudança para dietas baseadas em vegetais. Fornecer aos consumidores o “como” em vez do “porquê” de adotar tal dieta pode ser mais eficaz na redução do consumo de produtos de origem animal.

Também pode ajudar a reduzir a reincidência. Um estudo da Faunalytics de 2014 descobriu que 84% dos veg*nos retornam à dieta onívora e que na verdade há cinco vezes mais ex-veg*nos do que os atuais. As razões incluem o desejo por produtos de origem animal, a mudança demasiado rápida para essa dieta e a falta de ligação com outros veg*nos. As fontes mais comuns de informações que os consumidores usam para aprender a comer uma dieta mais baseada em vegetais são sites, seguidos de livros, amigos e familiares. Documentários e filmes, por outro lado, são os recursos mais comuns que influenciam as pessoas a adotarem uma dieta mais baseada nas plantas.

Enquadramento da Mensagem

O relatório observa que um estudo da Mercy for Animals identificou essas dicas para a criação de conteúdo eficaz no Facebook:

Publique muitos vídeos

Evoque sentimentos fortes

Use poucas palavras

Peça compartilhamentos [Pt. partilhas]
(em vez de curtidas [Pt. gostos])

Use citações

Compartilhe o link para artigos de notícias

Mostre fotos de comida

Para criar um conteúdo de vídeo persuasivo, o relatório recomenda que deve ter um narrador (especialmente uma celebridade) e deve falar sobre a inteligência dos animais da pecuária.

Muitos traços específicos conhecidos por estarem associados ao veg*nismo – feminino, jovem, liberal, urbano, bem-educado, etc. – podem ser visados diretamente no Facebook. No entanto, outros dados demográficos, embora não sejam tão facilmente persuadidos, podem causar maior impacto. Por exemplo, persuadir um homem a se tornar veg*no pode reduzir significativamente mais o sofrimento porque os homens consomem mais carne, em média, do que as mulheres.

Há muitos fatores a serem levados em consideração ao criar campanhas com o objetivo de reduzir ao máximo o sofrimento animal, e a Vegan Society oferece muitas recomendações úteis. O relatório destaca o risco de os defensores dos animais encorajarem uma mudança do consumo de alguns animais da pecuária para o de outros. Quando se trata de mensagens baseadas na saúde e no meio ambiente, os defensores dos animais devem tomar cuidado para não induzir involuntariamente as pessoas a consumir mais galinhas e peixes. Estes são mais saudáveis ​​do que a carne vermelha e cultivá-los causa níveis relativamente baixos de emissões, por isso parecem uma escolha sensata para muitos consumidores. Além disso, é mais difícil para as pessoas se simpatizarem com eles porque são muito diferentes de nós; isso faz com que tenhamos a percepção que são menos inteligentes e sencientes. Os defensores dos animais devem destacar a imensa escala de crueldade e o seu sofrimento para inspirar eficazmente uma mudança na dieta.

Alguns dos estudos incluídos neste relatório são mais sólidos do que outros. Nem todos atendem aos padrões atuais de confiabilidade dos pesquisadores da defesa animal, mas estes ainda assim fornecem uma direção útil para focar nossos esforços. O que esperamos fazer, ao destacar os pontos-chave deste relatório, é sublinhar alguns princípios básicos de eficácia, para que você possa aplicá-los em seu próprio trabalho. Embora você possa não se identificar totalmente com a DEA [Defesa Animal Eficaz], esta é um ramo forte da árvore da defesa animal e para o qual a Faunalytics também se orgulha de contribuir.

Para saber mais sobre como aplicar os princípios gerais da DEA à sua defesa animal, encorajamos você a navegar pelos resumos de nossa biblioteca e a ler suas conclusões. Nossa biblioteca é organizada para fornecer estudos que podem ser aplicados a uma ampla gama de questões animais, e a maioria dos resumos contém parágrafos conclusivos que explicam como os defensores dos animais podem usar os resultados de forma mais eficaz.


Publicado originalmente por Mia Rishel na Faunalytics, a 27 de Maio de 2020.

Tradução de Ligea Hoki. Revisão de José Oliveira. 

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