O multimilionário mais jovem da Grã-Bretanha ganhou sozinho a sua fortuna e vai doá-la — a pessoas que ainda não existem

Por Kelsey Piper (Vox)

Alguém para impedir a próxima pandemia ou guerra nuclear? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Ben Delo fundou, há cinco anos, uma empresa de criptomoeda — e agora, tendo enriquecido por si mesmo, é o multimilionário mais jovem do Reino Unido.

O britânico de 35 anos fundou a BitMEX, uma empresa de transacção de criptomoeda que realizou mais de 600 mil milhões [Br. 600 biliões] de dólares em transacções no ano passado. Em 2018, o valor da BitMEX foi estimado em 3,6 mil milhões [Br. 3,6 biliões] de dólares; Delo detém 30% da empresa, o que significa que o seu património líquido é superior a mil milhões [Br. 1 bilião] de dólares.

No mês passado, fez algo notável: prometeu dar grande parte da sua fortuna. Delo assinou o que é conhecido como o Giving Pledge [Compromisso de Doação], um compromisso iniciado por Bill Gates e Warren Buffett para encorajar outros ultra-ricos a “dedicar a maior parte da sua riqueza para retribuir”. Os signatários mais recentes desse compromisso foram anunciados esta semana.

Embora a notícia de que o multimilionário mais jovem do Reino Unido se comprometeu a doar pelo menos metade da sua fortuna seja notável por si só, o que é realmente fascinante é para onde Delo vai doar o seu dinheiro. Os signatários do compromisso não precisam de anunciar para onde direccionarão as suas doações, mas Delo fê-lo. Este quer doar para organizações que melhoram a vida na Terra para as gerações futuras — isto é, os milhares de milhões [Br. biliões] de pessoas que ainda não existem, mas que irão existir (se não fizermos demasiadas asneiras). Para já, financiou investigações sobre como prevenir guerras nucleares e sobre prevenção e mitigação de pandemias, bem como investigações académicas sobre como moldar o futuro a muito longo termo.

A escolha de doações de Delo é muito influenciada pela filosofia conhecida como altruísmo eficaz. Este diz que foi motivado pelo trabalho do colega formado em Oxford, Will MacAskill, um dos fundadores do movimento do altruísmo eficaz. “Para usar o enquadramento que o Will faz da ideia”, disse-me por escrito Delo, “considero que o altruísmo eficaz seja o projecto de usar provas e a razão para descobrir como beneficiar os outros tanto quanto possível e agir com base nisso.”

Delo analisou os argumentos a favor das diferentes maneiras que o seu dinheiro poderia fazer o bem. A sua conclusão: deveria doar o seu dinheiro para promover os interesses das gerações vindouras de seres humanos.

Existem vários novos multimilionários cujos compromissos do Giving Pledge foram anunciados esta semana. Mas dar não é louvável por si mesmo. O que torna o acto louvável é quando é feito de maneira cuidadosa, atenciosa e orientada pelo o impacto.

É isso que faz Delo destacar-se entre os multimilionários que assinaram o compromisso — a sua escolha de onde o seu dinheiro é mais necessário. Algumas pessoas podem considerar um absurdo o facto de se concentrar no futuro distante, mas não há dúvida de que é uma área geralmente ignorada pelos governos e filantropos existentes — o que significa que, se estiver certo, poderá ter um grande impacto.

Fazer o bem a olhar para o futuro

No seu livro Doing Good Better e outros textos e discursos, MacAskill argumenta que a filantropia tem o poder de fazer uma enorme quantidade de bem — mas tem de haver muita ponderação na forma como a abordamos.

Os altruístas eficazes acreditam que os recursos devem ser direccionados para onde quer que façam o maior bem. Frequentemente, as melhores oportunidades de fazer o bem são aquelas que, por qualquer motivo, actualmente não são atendidas por governos e ONGs, como a ajuda a nações em desenvolvimento ou os esforços para melhorar o bem-estar na pecuária industrial.

Os altruístas eficazes também fazem uma afirmação surpreendente e polémica — que uma boa forma de aplicar o nosso dinheiro é no sentido de garantir e melhorar a vida de pessoas que ainda não existem e que podem não existir a não ser daqui por milhões de anos.

“Quais são as coisas que mais se valorizam na civilização humana actual?” pergunta um artigo intitulado “The Long-Term Value Thesis[A Tese do Valor do Longo Termo], do 80,000 Hours, um site do altruísmo eficaz de aconselhamento de carreiras:

As pessoas serem felizes? As pessoas realizarem o seu potencial? Conhecimento? Arte?

Em quase todos estes casos, potencialmente, há muito mais coisas dessas para acontecer no futuro:

A Terra poderá permanecer habitável por 600 a 800 milhões de anos, pelo que poderá haver cerca de 7 milhões de gerações futuras, e estas poderão ter uma vida óptima, seja qual for o significado de “óptima”. Mesmo que se considere que as gerações futuras não importam tanto quanto a geração actual, visto que podem haver tantas, estas poderão, ainda assim, ser a nossa preocupação principal.

A civilização também pode, eventualmente, alcançar outros planetas — só na Via Láctea, existem 100 mil milhões [Br. biliões] de planetas. Portanto, mesmo que haja apenas uma pequena hipótese de isso acontecer, poderá também haver muito mais pessoas por geração do que hoje. Ao alcançarmos outros planetas, a civilização poderá também durar ainda mais do que se ficássemos na Terra.

MacAskill, no seu livro, observa que o argumento a favor de se combater as mudanças climáticas, ou outros riscos para a civilização humana (que é sólido, mesmo se estivermos preocupados apenas com as pessoas que existem), é muito mais poderoso se nos preocuparmos em “manter uma civilização próspera no futuro”. Quase todas as políticas e planeamentos estão concentrados, no máximo, no próximo século, não em garantir vidas boas para os distantes descendentes humanos. Isso significa que, ao concentrarmo-nos no futuro distante, potencialmente podemos fazer um bem muito maior.

Delo achou isto convincente. Em Novembro de 2018, fez as suas primeiras doações a organizações recomendadas pela Effective Giving, uma organização altruísta eficaz em Oxford que trabalhou em estreita colaboração com este para descobrir maneiras promissoras de ajudar o futuro distante.

Na sua carta Giving Pledge no mês passado, escreveu: “Resumindo, acredito que todas as vidas são valiosas, incluindo as das gerações futuras. Espero que haja um futuro vasto e extraordinário pela frente, se formos capazes de navegar os desafios e oportunidades apresentados pelas novas tecnologias no próximo século. E estou confiante de que nós, na geração actual, podemos agir com prudência para salvaguardar esse futuro extraordinário para os nossos descendentes. Aliás, podemos estar num momento crítico para o fazer.”

“A Terra poderá permanecer habitável por 500 milhões de anos e, se algum dia explorarmos o espaço, a nossa civilização poderá continuar por mais milhares de milhões [Br. biliões]. Os nossos descendentes poderão realmente ser mais numerosos do que nós num rácio de milhões para um”, disse-me.

Até agora, Delo deu prioridade à redução dos riscos de guerra nuclear e às mudanças climáticas, à investigação em biossegurança e IA, e a instituições que estão a tentar tornar-nos melhores a antecipar os desafios do amanhã, como a Forethought Foundation. A ideia é que precisamos de garantir que não destruímos as gerações futuras e que temos de ser melhores a prever o que está para vir, para que possamos gerir isso de forma adequada.

Será que os governos poderiam ser mais eficazes do que multimilionários individuais neste tipo de trabalho? Talvez — mas na prática, não o são. Os esforços governamentais nesta área costumam concentrar-se estritamente nos interesses da segurança nacional, o que significa que iniciativas com uma perspectiva mais ampla tendem a ser muito subfinanciadas.

Por exemplo, as forças armadas dos EUA gastam muito em biossegurança numa perspectiva militar, mas o financiamento não militar para a unidade de apoio à implementação da Convenção de Armas Biológicas — uma organização encarregada de garantir o cumprimento do direito internacional que impede as nações de transformarem vírus em armas — tem um orçamento total de 1,4 milhões de dólares por ano, menos do que uma típica sucursal do McDonald’s.

Frequentemente, os políticos têm dificuldade de ver a longo prazo e de dar prioridade a questões que só surgirão quando os seus eleitores estiverem mortos, uma tendência que pode ter motivado parte da nossa inacção relativamente às mudanças climáticas.

Portanto, é uma área em que a filantropia privada preencheu a maioria das lacunas. As organizações financiadas por Delo, como a Forethought Foundation e o Center for Human-Compatible AI, não têm fontes óbvias de financiamento governamental. Estas dependem de doadores privados que tentam ajudar um eleitorado que não pode votar nem protestar: os nossos descendentes.


Publicado originalmente por Kelsey Piper na Voz, a 29 de Maio de 2019. 

Tradução de Luis Campos. Revisão de José Oliveira.

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