A pecuária cria galinhas tão grandes que estas estão em constante sofrimento

Por Kelsey Piper (Vox)

Como vivem as galinhas que comemos? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Ser uma galinha na pecuária industrial é horrível.

Algumas das razões são óbvias. Na pecuária as galinhas são colocadas de forma extremamente apertada para maximizar os lucros, de modo que uma galinha em cativeiro tem muito pouco espaço e é cercada por um mar de outras galinhas. Não há terra para bicar ou se fixar; em vez disso, andam sobre seus próprios dejetos, e todo o pavilhão cheira fortemente a amônia [Pt. amoníaco] de todo o cocô de galinha. Não há céu ou ar fresco — mesmo na pecuária em que se afirma que as aves têm “acesso ao ar livre” costumam colocar dezenas de milhares de aves em um pavilhão com um pequeno quintal onde cabe uma dúzia delas.

Em princípio, poderíamos resolver todas essas questões, e os movimentos para criar condições mais humanas na pecuária industrial estão trabalhando nisso. Poderíamos exigir gaiolas menos restritivas, mais espaço, um número razoável de companheiras de gaiola, variedade na dieta e verdadeiro acesso ao ar livre.

Mas a vida horrível de uma galinha na pecuária industrial é muito mais grave do que isso. Ao longo de décadas, temos criado galinhas para serem economicamente eficientes ao máximo, o que significa principalmente que as criamos rapidamente e para serem muito, muito mais carnudas. E acontece que isso causa dores crônicas agonizantes, problemas nas articulações e nos movimentos e outras dificuldades — mesmo quando se tenta dar às aves boas condições de vida.

Essa é a descoberta de um recente estudo de dois anos da Universidade de Guelph que analisou mais de 7.500 galinhas de corte de 16 linhagens genéticas — isto é, variedades de galinhas, assim como existem raças de cachorro. O estudo descobriu que as variedades de galinhas de crescimento rápido, comuns na pecuária industrial, têm muitos problemas de saúde para além daqueles causados ​​por suas condições de vida terríveis, o que significa que, mesmo em um ambiente ideal, elas iriam passar ainda por muito sofrimento.

Uma vez que essas raças especificamente concebidas para encher nossos pratos crescem tão rapidamente, é difícil para elas se moverem e passam grande parte do tempo imóveis. Desenvolvem lesões dolorosas e ferimentos nas patas. As aves que cresceram mais rápido apresentaram sinais de problemas cardíacos e pulmonares. No geral, quase tudo o que pode dar errado fisicamente no corpo de uma galinha, dá errado quando a galinha é criada para atingir o tamanho máximo o mais rápido que é biologicamente possível.

“Linhagens com taxas de crescimento mais rápidas e maior produção de peito tiveram níveis de atividade mais baixos, indicadores mais pobres de mobilidade, patas e tendões mais precários, marcadores bioquímicos mais altos de danos musculares, taxas mais altas de miopatias musculares e desenvolvimento de órgãos potencialmente inadequado”, constata o artigo, concluindo, “A taxa de crescimento rápido juntamente com a alta produção de peito está associada a resultados de bem-estar insatisfatórios.”

O que significa isto? Bem, a lição mais importante é que não podemos esperar evitar a crueldade contra os animais na pecuária industrial exigindo apenas boas condições para os animais (embora devêssemos fazer isso!).

Podemos também precisar, em primeiro lugar, de novas regras sobre quais variedades de animais são desenvolvidas e criadas para alimentação. As galinhas de linhagens que foram selecionadas agressivamente para crescer de forma incrivelmente rápida, provavelmente irão sentir dor constante; pelo contrário, pode ser mais fácil criar um ambiente mais humano para as aves de crescimento mais lento. Deve-se salientar que há algumas contrapartidas aqui também — se mudarmos para a criação de aves um pouco menores, ainda mais aves vão ter vidas curtas e difíceis e vão ser mortas para se produzir a mesma quantidade de carne.

É um problema complicado, mas resolvê-lo começa quando o sofrimento das galinhas é levado a sério.

Como se mede o sofrimento de uma galinha?

As galinhas não expressam dor como os seres humanos e, como muitos animais, têm como motivação esconder o sofrimento para não atrair predadores.

Os cientistas do comportamento animal observam muitas pistas diferentes. As principais são comportamentais: se uma galinha está com bastante dor, isso deve mudar a sua disposição de andar ou buscar comida. Os pesquisadores do Guelph mediram os níveis de atividade — a frequência com que as galinhas se levantavam ou se moviam, em comparação com a frequência com que ficavam imóveis. Tiraram a comida da gaiola brevemente e colocaram a comida de volta do outro lado de uma viga, e depois mediram a disposição das galinhas para cruzarem a viga para pegar comida.

Grupo de teste do obstáculo. Neste teste o comedouro foi retirado uma hora antes do teste. As aves foram movidas para o fundo do galinheiro e foi colocada uma viga de madeira entre o comedouro e o bebedouro durante um período de 5 horas. As aves tinham de atravessar a viga para aceder à comida e à água. Medimos o número de vezes que as aves sentinela (pintadas) atravessavam a viga. [Fonte: Better Chicken Project summary report]

Também examinaram as patas das galinhas em busca de feridas e lesões, que outras pesquisas com animais confirmaram serem dolorosas e debilitantes para os animais, e observaram sinais de ferimentos nos corpos das galinhas depois de mortas. “A taxa de crescimento”, concluíram os pesquisadores, “reduziu os níveis de atividade, mobilidade e interações com melhorias no ambiente”.

Em outros estudos, os pesquisadores observaram se as galinhas sentem empatia. Parece que sim, demonstram angústia, por exemplo, quando algo desagradável, mas não perigoso, acontece a seus bebês.

A ciência do comportamento animal muitas vezes requer muita criatividade, até mesmo para responder a perguntas que são bastante diretas para os seres humanos, como, “Isso dói?” Com essa criatividade, no entanto, é fácil encontrar provas de que para os animais, como para nós, a dor pode nos impedir de brincar e socializar, nos deixar parados sentados em um lugar por horas, tornar até as tarefas rotineiras desagradáveis ​​o suficiente para adiá-las ou evitá-las, e deixam suas marcas no corpo.

A pecuária industrial pode ser humanizada?

Muita carne é vendida com rótulos que nos garantem que a nossa consciência pode ficar tranquila — “sem crueldade”, “ao ar livre”, “orgânica”, “livre de gaiolas”, “natural”. As pesquisas mostram que a maioria dos americanos se preocupa com a maneira como sua carne é produzida, e muitas pessoas dizem que tentam sempre comprar carne criada de forma mais humana.

Infelizmente, esses rótulos costumam ser uma miragem. Por exemplo, não é economicamente eficiente criar frangos de corte (galinhas que matamos e comemos pela carne, ao contrário das que põem ovos) em gaiolas individuais, em vez de espaços maiores superlotados. Como resultado, elas ficam amontoados em enormes pavilhões às centenas de milhares. Tecnicamente, isso é “livre de gaiolas”, mas não é uma vida livre.

Outros rótulos são ainda menos concretos do que isso — “natural” significa que o alimento deve ser “minimamente processado”, mas não significa nada sobre se os animais viveram algo semelhante a vidas naturais.

Por esse motivo, muitos ativistas pelos animais são cínicos face aos esforços para tornar a pecuária industrial melhor, proporcionando condições menos terríveis para os animais ou mudando quais animais são criados na pecuária em favor de raças que sofram menos. Estes temem que essas mudanças acalmem a consciência do consumidor sem realmente acabar com a crueldade sistemática e generalizada contra os animais na pecuária industrial.

Isso provavelmente é verdade até certo ponto. Mas, como David Coman-Hidy, o presidente da Humane League, disse ao meu colega Ezra Klein em maio, pequenas mudanças — embora possam não mudar nossa cultura mais ampla, e embora possam não ser suficientes para tornar a vida dos animais na pecuária industrial menos cruéis, curtas e tortuosas — ainda assim têm importância.

Coman-Hidy trabalha para mudar a forma como matamos as galinhas em matadouros. Atualmente, elas são algemadas de cabeça para baixo em uma esteira rolante, um processo que pode deslocar as suas pernas e fazer com que seus órgãos exerçam uma pressão sufocante sobre os pulmões. São arrastadas por água eletrificada, que supostamente as atordoa antes de serem fervidas, mas muitas vezes não o faz. O processo é horrível e traumatizante. Portanto, a Humane League está trabalhando para convencer os matadouros a usar gás.

Vale a pena tomar medidas que tornam as coisas um pouco melhores, quando ainda estão tão longe de serem humanas? “O experimento mental que me ajudou foi este, se eu pudesse morrer, ou ter um membro da minha família, eutanasiado por gás, ou ter o que acabei de descrever, o que daria eu para conseguir o gás? Coman-Hidy disse. “E a resposta é, tudo.”

O mesmo se aplica às variedades de aves de crescimento mais lento. Não devemos nos enganar — estas ainda serão colocados em pavilhões cheios de barulho, amônia e seus próprios dejetos. Ainda irão desenvolver lesões dolorosas por estresse, algumas delas irão morrer antes de atingirem o tamanho máximo e todas serão mortas em tenra idade. Mas uma coisa — uma coisa importante — será um pouco melhor: não irão crescer rápido demais para as suas articulações poderem sustentá-las, deixando-as aleijadas pelo peso de seus próprios corpos. E para bilhões [Pt. milhares de milhões] de aves, isso importa muito, mesmo que não seja o suficiente.

No longo prazo, espero que possamos atender à demanda mundial por frango sem matar nenhuma ave, por meio de opções de carne à base de vegetais ou cultivada a partir de células. Mas um problema tão sério quanto a tortura de dezenas de bilhões [Pt. milhares de milhões] de animais por ano deve ser enfrentado de todos os ângulos possíveis.

Descobrir quais animais é possível que sejam criados humanamente — e quais sentem dor intensa mesmo em bons ambientes — é um passo importante para tornar a vida um pouco melhor para as aves na pecuária industrial. Juntamente com os esforços para proibir o tratamento cruel de animais nesse tipo de criação, isso pode fazer com que se reduza bastante o custo humano do nosso apetite por carne.


Publicado originalmente por Kelsey Piper na Vox, a 23 de setembro de 2020.

Tradução por Ligea Hoki. Revisão José Oliveira.

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