Decolonialismo e Altruísmo Eficaz, uma reflexão por concessões

Por Celso Vieira

Decolonialismo e AE, a colaboração é possível? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Introdução

Colonialismo e a sua contraparte, o decolonialismo, tornaram-se termos em voga nas discussões públicas que envolvem questões sociais, econômicas e filosóficas atuais. O Altruísmo Eficaz, ainda que não faça parte dessa onda, está longe de passar incólume por ela. O movimento é alvo de críticas que vão desde ser epistemicamente arrogante até ser um perpetrador de uma estrutura colonialista. Essa postagem é uma primeira reflexão, pouco ambiciosa, que pode guiar uma interação mais produtiva entre duas abordagens tão diferentes. Para começar, é preciso afinarmos os nossos instrumentos. Numa discussão filosófica, isso se faz com definições.

Para evitar confusões, convém distinguir o colonialismo físico do colonialismo epistêmico.

ColonialismoF: A prática de conquista de um território em que há um grupo organizado de pessoas que é conquistado por um outro grupo organizado de pessoas. No caso que nos interessa, o termo tem um escopo bem específico. Grande parte dos países ricos de hoje em dia colonizaram grande parte dos países que estão em desenvolvimento hoje em dia, e se beneficiaram bastante dessa situação.

ColonialismoE: Mesmo que hoje em dia a maioria dos países não possua colônias, os métodos epistêmicos reconhecidos como universais se referem àqueles desenvolvidos nos países que perpetraram o ColonialismoF. Ou seja, a colonização seria agora no âmbito do conhecimento e do pensamento e como estes se impõem.

Decolonialismo: A postura reativa de várias minorias que ainda hoje sofrem por terem sido vítimas de uma postura colonialista. A reação abarca o campo político, social, econômico, científico e tem uma agenda prática.

O campo conceitual

Uma estratégia útil para se começar uma discussão é encontrar a sua crux, ou seja, o último ponto em que as duas (ou mais) posições que debatem concordam. No entanto, uma vez que, na realidade e no discurso cotidiano, as noções não são muito precisas, acredito que seja mais proveitoso apresentar um campo mais difuso de ideias em que o grau de discórdia começa baixo ou inexistente mas vai, gradualmente, aumentando. Dessa maneira, veremos quais pontos de acordo podem levar a concessões de ambas as partes em vista de um benefício agregado.

Injusto

Hoje em dia, praticamente todos concordam que o que as nações colonizadoras fizeram foi completamente injusto.

Privilégio

Outro ponto de acordo será que os cidadãos das nações ricas reconhecem que os seus privilégios, a riqueza em que vivem, têm origens nessas ações que eles concordam ser injustas.

Não-culpabilidade

Nesse ponto a unanimidade começa a diminuir, mas, em geral, parece razoável aceitar que as gerações de agora não têm responsabilidade moral pelo que foi feito pelas suas nações no passado.

Supererrogatoriedade

Também é amplamente aceito que as nações ricas devem ajudar as nações menos desenvolvidas. Não apenas porque, sendo ricas, elas estão em condição de ajudar, mas também pelo reconhecimento do privilégio advindo de injustiças passadas. No entanto, isso não é visto como uma obrigação, principalmente por causa da Não-culpabilidade, como referido acima. Uma ação que é vista como louvável, mas não obrigatória é chamada supererrogatória no jargão filosófico.

Eu suponho que diferentes leitores vão ter reações diferentes aos parágrafos acima. No entanto, eu suponho que a variação será bem pequena, e, com certeza, menor do que nos parágrafos seguintes.

Menos acordo

Exploração

Os decolonialistas terão posições mais fortes do que as expressadas acima. No entanto, o ponto mais marcante de mudança talvez seja a crença de que as nações com um passado ColonialistaF ainda se beneficiam de práticas exploratórias que incluem, mas vão além de um mero ColonialismoE. Entre essas ações exploratórias estão sanções e restrições econômicas, exploração de matéria-prima e mão de obra barata, etc.

Obrigação

A postura do Altruísmo Eficaz diante dos casos acima, com o adendo de que o movimento é bem diverso e não defende posições particulares, é, eu suponho, mais fraca do que a dos descolonizadores, mas, mesmo assim, mais forte do que a média da população. Para citar um exemplo, o movimento flerta com a ideia de que é uma obrigação ajudar os menos afortunados, seja qual for o seu país de origem, e que se deve dedicar a sua carreira e os seus talentos para fazê-lo.1

Exploração Sistêmica

Ainda assim, o movimento é alvo de críticas fortes dos decolonialistas. A crítica depende da Exploração, como referido acima. Porém, uma vez que se trata de um movimento que tenta ajudar também os menos afortunados de qualquer país ou continente, essa exploração, caso aconteça, não pode ser consciente. Ela poderia ser, por exemplo, consequência de alguma injustiça que faz parte do sistema em que eles operam, mas que passa desapercebida.

Emancipação

Para os decolonialistas, em vista da exploração que passa desapercebida, é parte fundamental da solução do problema combater também o ColonialismoE. Para tanto, é preciso aceitar métodos não ocidentais de pensamento, ação, valores, instituições, comunhão, socialização, espiritualidade e similares.

As Ciências

Aqui chegamos ao principal ponto de discórdia. Isso porque o AE tem como premissa metodológica utilizar o estado da arte das suas ferramentas epistêmicas para identificar as melhores maneiras de gerar o maior bem possível. Isso quer dizer usar o método científico empírico para avaliar intervenções que combatem a pobreza global, usar os princípios da lógica clássica para especular sobre intervenções que podem afetar o bem-estar da população no longo-termo e usar os procedimentos da ciência da computação para simular situações e refletir sobre o futuro de tecnologias como a Inteligência Artificial. Segundo um decolonialista, todos esses procedimentos racionais fariam parte do ColonialismoE e, potencialmente, poderiam contribuir para a Exploração inconsciente, mas sistêmica.

Uma vez atingido o ápice do dilema, é hora de procurar áreas que motivem concessões.

Concessões

Relativismo

O decolonialismo, ao lutar pelo reconhecimento de outros saberes, flerta com algum tipo de relativismo. Relativismo é a posição segundo a qual questões como valores, moral e até verdade são dependentes de um campo específico de conhecimento. Assim, o que é verdade em um campo pode ser incomensurável com o que é verdade em outro. Por exemplo, a lei da física clássica de que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço pode não ser aplicável na física quântica.

Altruísmo

Ainda que o valor altruísta seja, numa abordagem relativista, dependente também de um campo de valores. Parece que AEs e decolonialistas concordam que ajudar os outros é um bem, e que há muitas pessoas em várias partes do globo que precisam de uma postura de ajuda mais ativa por parte dos outros. Ademais, acho que nenhum dos dois lados defende que um agente só pode ajudar quem pertence ao seu próprio grupo.

Condição de Concessão

Porém, aceitando o relativismo, teríamos que achar algo dentro do método adotado por cada um dos lados que seja persuasivo para eles sobre a postura dos outros. Isso nem sempre é fácil de fazer, mas, nesse caso é possível.

Concessão para o decolonialista

O decolonialista deve conceder que o AE está usando o que tem de melhor na sua visão de mundo para ajudar os outros, e, se se aceita o Relativismo, não poderia fazer diferente. A postura do AE, portanto, não deveria ser criticável por si só uma vez que seria impossível fazê-lo de outro jeito. Ademais, o decolonialismo é também um projeto prático e, no que tange a resultados específicos, os métodos científicos trazem um impacto positivo inegável aos que recebem a ajuda. Esse impacto pode não ser suficiente, mas, com certeza, pode fazer parte da solução.

Negligência.

Uma das críticas mais comuns do decolonialismo contra o AE seria que a sua abordagem falha em dar a voz necessária aos pequenos agentes locais e minorias. Mesmo ao ajudar com boas intenções, e usando as suas melhores ferramentas e uma enorme quantidade de recursos, o movimento teria pontos cegos que o impedem de analisar a situação dos ajudados com a complexidade que eles merecem. Para quem aceita o relativismo, seria impossível para o AE lidar com essa limitação internamente. A solução, portanto, seria diversificar a demografia dos participantes do movimento para incluir pessoas que partilham algum pano de fundo com os descolonizados.

Concessão para o AE

No entanto, um AE não aceita o relativismo e, portanto, ele não aceitaria a crítica acima. Se vai haver concessão, a motivação precisaria sair de outra fonte. E, de fato, casos empíricos revelam que há sim a possibilidade de alguns dos agentes e processos que fazem parte do que chamaríamos de campo científico cometerem erros no que concerne às minorias. Por exemplo, alguns algoritmos usados para decidir quem vai ganhar ou não um emprego, empréstimo e até liberdade condicional tendem a fazer julgamentos tendenciosos que prejudicam as minorias. Uma vez que o AE está comprometido com os resultados das intervenções, mesmo sem aceitar o Relativismo, é do interesse do movimento salvaguardar-se face a problemas desse tipo. A solução passa por tentar diversificar o perfil demográfico daqueles que participam do movimento. E, de fato, o AE reconhece que ainda é um movimento com uma hiper-representatividade de um grupo, mesmo assim, é muito mais diverso do que anteriormente. De modo que a mudança pode estar em curso.

Conclusão

Essa breve reflexão não tem o intuito de apagar as divergências entre os dois métodos. Trata-se apenas de um primeiro passo para que participantes de ambos os movimentos reconheçam que há mais pontos em comum entre eles do que ambos os lados reconhecem. Uma vez feito isso, pode se abrir o espaço para a cooperação entre indivíduos que se identificam com cada um dos movimentos. Ademais, um mesmo indivíduo que se identifica com um lado poderá também ver que não precisa abandonar seus valores fundamentais para se identificar também com vários aspectos do outro lado.

Nota:

1 Há nuanças que não serão tratadas aqui. Os AEs reconhecem o seu privilégio advindo do colonialismo, mas a sua motivação para ajudar depende muito de haver a oportunidade de acabar com uma grande quantidade de sofrimento desnecessária.


Celso Vieira

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