Qual é “O maior bem que podemos fazer?”

Por José Oliveira (The Life You Can Save)

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Qual é “O maior bem que podemos fazer?” (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

“Muitas pessoas em países pobres sofrem de uma doença chamada tracoma. O tracoma é a principal causa de cegueira evitável no mundo. O tracoma começa com bactérias que entram nos olhos das crianças, especialmente crianças que vivem em ambientes quentes e empoeirados, onde a higiene é fraca. Se não for tratada, uma criança com tracoma começará a ter visão turva e ficará gradualmente cega, embora esse processo possa levar muitos anos. Existe um tratamento muito barato que cura a doença antes que a cegueira se desenvolva. Com um donativo de apenas 25 cêntimos, a uma organização eficaz, pode-se evitar que alguém fique cego mais tarde na vida.

Quanto pagaria para evitar que o seu próprio filho ficasse cego? A maioria de nós pagaria 25 000 dólares, 250 000 dólares, ou até mais, se pudéssemos pagar. O sofrimento das crianças nos países pobres deve importar mais do que um milésimo do sofrimento do nosso próprio filho. É por isso que é bom apoiar uma das organizações eficazes que estão a prevenir a cegueira causada pelo tracoma e precisam de mais doações para alcançar mais pessoas”.

Recentemente, um estudo propôs-se a encontrar o argumento mais convincente para levar as pessoas a doar a instituições de caridade, e o argumento acima foi o vencedor. Talvez não seja surpreendente que este argumento tenha tido a coautoria de um dos eticistas mais proeminentes, que tem escrito sobre a pobreza desde os anos 1970, e que muitos consideram ser o “pai do Altruísmo Eficaz” (EA): Peter Singer. Parece-lhe que este argumento é suficiente para mudar os nossos hábitos ou a maneira como somos?  

Desde que me lembro, há duas coisas que sempre quis ser: um pintor e uma boa pessoa. Mal sabia eu que, por causa da obra de Peter Singer, chegaria um momento em que me iria parecer impossível ser essas duas coisas ao mesmo tempo. Mas talvez deva explicar, e irei fazê-lo novamente usando as ideias de Peter Singer: se por acaso um demónio maligno fizesse com que uma pessoa em cada mil que entrassem numa sala de um museu ficasse cega, você entraria nessa sala? Mesmo que seja, como eu, um amante de arte, acho que iria preferir entrar numa outra sala do museu (sem esse demónio maligno) ou iria visitar um museu totalmente diferente. Bem, isso deve mostrar que valoriza a sua visão 1000 vezes mais do que a experiência que teria naquela sala do museu. E se tivesse que escolher entre doar para construir aquela sala do museu ou doar para salvar alguém de perder a visão, então também deveria valorizar mais esta última acção, porque o seu dinheiro proporcionaria um bem muitas vezes maior. 

Fazer boas acções e não arte?

A esta altura, deve estar a supor que alguém que use o seu tempo para proporcionar experiências artísticas aos outros se encontra em apuros. Bem, eu sou professor de artes há quase 25 anos, por isso pode dizer-se que realizei uma parte do meu sonho de infância. Mas, em 2011, quando o livro de Peter Singer, The Life You Can Save [Pt. A Vida Que Podemos Salvar; Br. Quanto Custa Salvar uma Vida], foi publicado aqui em Portugal, li-o e isso levou-me a começar a voluntariar todo o meu tempo livre para promover a organização que Peter Singer fundou com o mesmo nome do livro. Desde então, parei de pintar quase completamente, mas tive alguns dos momentos mais gratificantes da minha vida.   

E então o meu sonho de infância? 

Eu tinha dois, lembra-se? E estava a viver um sonho na sua plenitude: a última vez que escrevi um post para a The Life You Can Save, há 3 anos, este foi mais longe do que poderia ter imaginado, mesmo nos meus sonhos mais fantásticos: tornou-se o primeiro post de um altruísta eficaz lusófono a ser publicado na Newsletter AE, e foi amplamente partilhado. E, quando pensei que as coisas não poderiam melhorar, o post foi partilhado pelo próprio Peter Singer! Ok, isto pode ser uma coisa extraordinária para afagar o nosso ego, mas, por incrível que pareça, o melhor ainda estava para vir: enquanto representante do AE aqui em Portugal, fui informado que dois portugueses assumiram o compromisso da Giving What We Can (GWWC). Sabe o que isso significa? Isso significa que de alguma forma o meu trabalho levou duas pessoas a tomar a decisão de doar pelo menos 10% dos seus rendimentos, ao longo da sua vida, para as organizações que podem fazer o maior bem com esse donativo. Consegue imaginar a quantidade de bem que isso poderia realizar? Com apenas um post?! 

Será que tinha encontrado “o maior bem que EU poderia fazer”?  

Acredita que passei a maior parte de um ano a tentar responder a essa pergunta? Em trabalho de equipa com alguns amigos do nosso pequeno Grupo AE aqui no Porto, começámos por ordenar todas as nossas actividades AE de acordo com o seu impacto. Mas coisas como traduzir textos para o nosso site AE (Brasil e Portugal) ou outras formas de promover o AE – seja nas redes sociais, seja nas nossas reuniões mensais, ou em apresentações públicas, etc. – eram coisas muito difíceis de comparar, especialmente por causa da falta de provas concretas do seu impacto. Cada vez que tentávamos ordenar as nossas actividades, tínhamos um resultado diferente. Por isso pensamos: talvez ajudasse dividir este grande problema em problemas menores. Então, usei a minha experiência de avaliação como professor e pensei em alguns critérios para classificar cada actividade – critérios como o custo de implementação de cada uma (considerando o tempo e outros recursos), o seu impacto (imediato e a longo prazo), os benefícios individuais para as pessoas implicadas (os agentes e os beneficiários) e a possibilidade de replicá-las com sucesso no futuro (escalabilidade). Mas demos ainda um outro passo para refinar essa avaliação e, a cada critério, associamos uma taxa de probabilidade de estarmos certos nessa avaliação. Porque quando se está a tomar decisões difíceis (como escolher uma instituição de caridade para onde doar), parece ser muito útil ter uma escala de (in)certeza com mais nuances. E depois, melhor ainda, deve-se tentar expressar essa (in)certeza numericamente, por exemplo: 

Qual é a minha probabilidade de estar certo?

Em palavras

Em números

Em cores

Certo de certeza

100%

▄▄▄▄

Quase de certeza certo

85% a 99%

▄▄▄▄

Provavelmente certo

60% a 84%

▄▄▄▄

Entre o certo e o errado

40% a 59%

▄▄▄▄

Provavelmente errado

15% a 39%

▄▄▄▄

Quase de certeza errado

1% a 14%

▄▄▄▄

Errado de certeza

0%

▄▄▄▄

Adaptado das Palavras de Probabilidade Estimativa de Sherman Kent. Veja aqui.

Mais de 6 meses a avaliar?! Qual foi o resultado? 

Às vezes, o que parece muito bom à primeira vista não parece tão bom quando se olha de perto. E esse acabou por ser o caso para os dois doadores ao longo da vida, inspirados pelo meu post. Deixe-me explicar porquê: seria uma tremenda coincidência se essas duas pessoas tivessem assumido o compromisso de doação ao mesmo tempo que eu escrevi o post, mas também seria uma tremenda coincidência se estas tivessem assumido o compromisso exclusivamente porque eu escrevi o post. O mais provável é que o post tivesse apenas uma pequena influência (digamos 5% a 10%) para fazer com que decidissem assumi-lo mais cedo (digamos 1 a 3 meses antes). Mesmo assim, para um post, isso é muito bom, não é? Bem, mesmo que uma doação eficaz de uma fracção tão pequena de 10% do salário de um mês pudesse ir muito longe (lembre-se do compromisso de 10% da GWWC?), esse tipo de resultado era muito difícil de repetir – ainda mais quando não se é um escritor e apenas se publica uma vez em cada 3 anos!

Felizmente, às vezes, quando se olha de perto, o que não parece tão bom à primeira vista acaba por ser muito bom.

“Não tão bom” = “Muito bom”: O que poderia ser?      

A certa altura, um casal de amigos artistas estava a promover a sua galeria de arte “caseira” e convidaram-me para fazer uma exposição. Longe do meu sonho de infância, concordei em participar naquilo que considerava ser a carreira de artista mais curta de todos os tempos: começava e terminava com uma exposição. E concordei com isso porque eles concordaram que todos os lucros seriam doados a uma instituição de caridade eficaz: a The Against Malaria Foundation (AMF). Resumindo e concluindo: passei o meu tempo livre a pintar e depois 29 pessoas compraram 53 impressões artísticas e as suas doações compraram 225 redes para proteger 405 pessoas de uma das doenças mais mortais do mundo

Sabendo que o mercado da arte não está a fervilhar de galerias de arte que abraçassem um projecto sem fins lucrativos deste tipo (arte por doações eficazes), lavei os meus pincéis pela última vez e guardei-os. Nós, do grupo AE, consideramos isto um golpe de sorte único e também o colocamos de lado. Porém, repetidamente, percebemos que a ideia pontuava tão bem na nossa avaliação que talvez valesse a pena pensar numa maneira diferente de repeti-la.      

Faça arte e boas acções?

Durante todo este tempo, lutei contra o meu enviesamento pessoal a favor das artes, sentindo que, se tivesse de escolher entre os meus dois sonhos de infância, nunca deveria escolher entregar-me a prazeres egoístas. Mas e se afinal esses sonhos não se excluíssem mutuamente?   

Peter Singer usou frequentemente as artes como um exemplo onde não investir o seu dinheiro num mundo com tanto sofrimento evitável, quando o mesmo dinheiro pode fazer uma grande diferença. Mas também falou sobre o que um artista pode fazer com o seu talento para ajudar os outros, especialmente despertando-nos para a situação do mundo em que vivemos. E também guardei na minha memória quando ouvi outro filósofo moral de renome, Derek Parfit, dizer que ser um artista poderia ser uma carreira AE, contanto que se tivesse lucro suficiente e se executasse o plano de ganhar para dar. E mesmo que não fizesse parte dos meus planos imediatos tornar-me num artista extraordinariamente bem-sucedido, quando um outro amigo me pediu para fazer o seu retrato, comecei a perceber que a desculpa de que não poderia fazê-lo porque estava a fazer algo mais importante, não seria necessariamente verdade. Se lhe fizesse um retrato em troca de uma doação à AMF, isso poderia ter um impacto positivo maior do que a maioria das coisas que eu poderia estar a fazer. E quando o meu amigo me perguntou qual seria a quantia para uma doação razoável, pensei: Mesmo que eu trabalhe apenas ao nível do salário mínimo, isso significaria mais ou menos três mosquiteiros anti-malária por uma hora de trabalho! Imagine se cada hora que passa a fazer o seu hobby pessoal (fazer exercício, jogar videojogos, tuitar, etc.) resultasse em 6 pessoas protegidas de uma doença mortal. Esse é certamente um “valor razoável”!  

Então, o que será “o melhor que VOCÊ pode fazer”?

Somos todos tão diferentes e é por isso que essa pergunta é tão difícil de responder. Mesmo como professor, há muito parei de aconselhar os meus alunos sobre o caminho que estes deveriam seguir. Do meu ponto de vista, o melhor que se pode fazer é aprender o máximo que se puder para que se possa escolher bem por si mesmo, diante de tanta informação (às vezes contraditória). Algumas das ferramentas mais benéficas para fazer esse tipo de escolha – como o compromisso com os outros, uma mentalidade científica, abertura, integridade e um espírito colaborativo – são precisamente os princípios orientadores do AE. E algo maravilhoso sobre o movimento AE é que este o ajuda a encontrar a resposta a essa pergunta de muitas maneiras diferentes: seja ao fornecer aconselhamento gratuito para o ajudar a ter um maior impacto positivo com a sua carreira (80,000 Hours), ao ajudá-lo a avaliar instituições de caridade (GiveWell), ao promover as instituições de caridade mais eficazes (The Life You Can Save) para que possa encontrar facilmente as melhores oportunidades de ter o maior impacto por meio de doações eficazes, ao ajudá-lo a manter o seu compromisso ao fazer parte de uma comunidade (GWWC), e mantendo-o sempre informado sobre as investigações mais recentes e as discussões actualizadas para descobrir como beneficiar os outros tanto quanto possível e agir com base nisso (EA Forum).  

De qualquer das formas, há algo que nunca deixa de me surpreender: o pensamento de que uma pessoa sozinha num quarto, a fazer aquilo de que mais gosta, começando com uma fina linha num pedaço de papel, coloca em movimento um processo complexo que, no decorrer de 4 anos, protege mais de 2500 pessoas de uma doença mortal do outro lado do planeta! Usando apenas o seu tempo livre! Não será isso uma prova suficiente de que se deve pensar cuidadosamente sobre o que é “o maior bem que podemos fazer”?

Esta é a resposta que eu encontrei:

# Art4EffectiveDonations 

Qual é a sua? 

Nota do Autor (no artigo original): Agradeço à Rosa Costa, ao Luís Campos e principalmente ao Adam Sneed por me ajudarem a melhorar o meu inglês, tornando possível que exprimisse as minhas ideias com mais clareza.


Publicado originalmente por José Oliveira no blog da The Life You Can Save, a 23 de Novembro de 2020.

Tradução de José Oliveira.

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