O que o filósofo Peter Singer aprendeu em 45 anos defendendo os animais

Por Kelsey Piper (Vox)

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Porquê ser vegano? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Derek Goodwin e Alletta Vaandering)

Há quarenta e cinco anos, o filósofo australiano Peter Singer publicou o livro “Libertação Animal”. Os argumentos que apresentou – que os animais podem sofrer; que é moralmente errado infligir sofrimento extraordinário nos animais; e que, consequentemente, temos que repensar os nossos sistemas alimentares e da pecuária – são aqueles que muitos consumidores atuais já terão ouvido.

Na época, porém, a perspectiva de Singer era extremamente incomum. Certamente haviam grupos de defesa dos animais, mas estes tendiam a se concentrar nas dificuldades dos animais de estimação abandonados, como cães e gatos, sem nenhuma organização importante trabalhando na situação dos animais da pecuária (mais sobre isso abaixo).

Em 1999, em um perfil do New Yorker, o jornalista Michael Specter escreveu que Singer “deu à luz o movimento dos direitos dos animais”. O livro de Singer, escreveu a ativista Ingrid Newkirk, “foi uma bomba filosófica. Mudou para sempre a discussão sobre como tratamos os animais. Fez com que as pessoas – eu mesma inclusive – mudassem o que comiam, o que vestiam e como encaravam os animais”. Em poucas palavras, o movimento pela causa animal não estaria onde está hoje sem Singer e o seu livro.

Agora, 45 anos depois, ele está revisitando o assunto em um novo livro – uma coleção de seus ensaios com o título Why Vegan? (Porquê Vegano?), lançado para venda nos Estados Unidos na semana passada. Conversei com Singer sobre a história do movimento da causa animal, o progresso que fizemos desde o lançamento do seu livro Libertação Animal e o que será necessário para mudar o mundo que ele critica há quase meio século.

Esta transcrição foi editada para maior clareza e brevidade.

Kelsey Piper

Você escreveu pela primeira vez em defesa de darmos importância aos animais há 45 anos atrás. O que mudou?

Peter Singer

Muita coisa mudou, realmente. Houve uma grande mudança de consciências. Muito honestamente, agora existe um movimento animal, que se preocupa com todos os animais, não apenas com cães, gatos e cavalos.

E isso efetivamente não havia em 1975. Não é que não existissem pequenas organizações. Haviam, na verdade, muitas organizações contra vivissecções [que trabalhavam para combater a prática da vivissecção em animais para pesquisa]. Mas quanto aos animais da pecuária, não havia nada acontecendo. Tinha uma pequena organização chamada Compassion in World Farming (Compaixão na Pecuária Mundial) no Reino Unido quando eu comecei, e que agora é uma espécie de organização global bastante grande. Mas era administrada por uma pessoa a partir de sua casa, acho eu, na época, e não havia legislação para proteger o bem-estar dos animais da pecuária.

Agora, toda a União Europeia proibiu algumas das piores formas de confinamento que descrevi em Libertação Animal. E o mesmo aconteceu no estado da Califórnia. E acho que seis ou sete outros estados dos EUA também têm legislações que protegem os animais da pecuária. Portanto essa é uma grande mudança.

Depois, há uma grande mudança na disponibilidade de comida vegetariana e vegana. Ninguém saberia o que significava vegano em 1975. Havia uma organização britânica muito pequena que foi fundada no final dos anos 40, chamada Vegan Society (Sociedade Vegana). Seriam provavelmente quase todos os veganos do Reino Unido. E praticamente também não havia nenhuns nos EUA. Tem havido um grande crescimento da conscientização – desde organizações como a People for the Ethical Treatment of Animals (Pessoas pelo Tratamento Ético dos Animais – PETA), a cursos de direito animal ministrados em Harvard. Não havia nada disso acontecendo [em 1975].

Portanto, é uma mudança imensa. Mas não houve mudanças suficientes na maneira como tratamos os animais.

Kelsey Piper

Talvez haja uma mudança no interesse das pessoas pelo assunto e em como pensamos sobre isso, mas, ainda assim, temos uma situação muito ruim acontecendo no terreno, e de certa forma piorando, certo? Porque temos mais automação, temos mais tecnologia. Criamos aves de maneira diferente.

Peter Singer

Sim, a criação de galinhas em particular é um aspecto muito ruim disso. Elas agora crescem mais rápido, engordam mais rápido e parecem sentir mais dores só de ficar em pé. Essa é uma diferença sobre a qual você escreveu.

A outra coisa que eu diria é: não é ruim que a China e muitos outros países sejam mais prósperos. Isso é ótimo porque há menos pessoas em pobreza extrema. Mas também há mais centenas de milhões de pessoas querendo comer carne, [que anteriormente] não tinham dinheiro para comer carne. E a China, em particular, não tem qualquer tipo de lei nacional sobre bem-estar animal. A pecuária industrial que se multiplica, as condições a que os animais são submetidos – são bastante terríveis. Quando se vai à China, você vê [abusos de animais] que são bastante horríveis e que não se veriam aqui nos EUA.

Kelsey Piper

Também estou curiosa sobre o lado filosófico disto. Os argumentos que você apresentou há 45 anos ainda são os que vê como sendo alguns dos argumentos mais fortes a favor dos animais?

Peter Singer

Acho que os argumentos que apresentei em 1975 ainda são os argumentos básicos, os que me parecem ser os mais convincentes. Assim, o que aconteceu depois que escrevi a “Libertação Animal” foi que vários filósofos diferentes utilizam abordagens diferentes. O argumento dos direitos dos animais do [filosofo americano] Tom Regan, por exemplo, não estava na literatura até então, não da forma em que Tom o colocou, e uma variedade de outros pontos de vista diferentes. [Regan argumenta que, de uma perspectiva kantiana, pelo menos alguns animais têm direitos intrínsecos como os seres humanos, porque são o que ele chamou de “sujeitos-de-uma-vida”].

Portanto, há mais pluralismo sobre diferentes abordagens, filosoficamente, que levam a conclusões um pouco semelhantes. Mas eu continuo sendo um consequencialista. [Existem] abordagens baseadas em direitos – para aqueles que gostam dessas abordagens… [elas] estão aí, e isso é uma coisa boa. A abordagem das capacidades de Martha Nussbaum também chega a uma conclusão semelhante. [A abordagem adotada por Nussbaum argumenta que a ética deveria estar focada na liberdade para alcançar o bem-estar, e ser entendida em termos de quantas oportunidades reais alguém tem para fazer isso].

Kelsey Piper

Eu já ouvi dizer que os animais importarem e terem significado moral – e em conseqüência disso, a pecuária industrial ser muito ruim – é uma área rara de concordância na filosofia moral.

Peter Singer

Sim, absolutamente. E até mesmo pessoas que discordam em alguns pontos, como Roger Scruton, que morreu recentemente, era um filósofo britânico conservador, com algum tipo de inclinação religiosa, eu acho, porque ele falou sobre [como] deveríamos ter piedade para com os animais. Ele definitivamente continuou a comê-los, e até defendia mesmo que fossem comidos, mas ele definitivamente se opunha à pecuária industrial.

Kelsey Piper

Estou curiosa para saber o que você considera como o argumento mais forte, e mais simples, para ser vegano.

Peter Singer

Eu acho que é porque isso nos afasta completamente da cumplicidade face a práticas que não são moralmente defensáveis acerca da criação e do abate de animais para alimentação.

Há argumentos mais complicados sobre se haveria justificação para trazer animais à existência que de outra forma não existissem e tivessem uma boa vida, sobre animais criados em condições adequadas e mortos de forma humana. Portanto, existem argumentos para defender algumas formas de consumo de animais. Não sei qual é o impacto disso nas atitudes para com os animais e se isso reforça a ideia de que os animais ainda são coisas para nós usarmos.

Kelsey Piper

Você pessoalmente é vegano?

Peter Singer

Estritamente falando, não. Por exemplo, eu não acho que os bivalves – mexilhões e amêijoas – possam sofrer, por isso eu os como. Eu certamente comeria carne de cultura celular, uma vez que estivesse disponível. E não sou muito rigoroso quanto a evitar ovos de galinhas criadas ao ar livre.

Kelsey Piper

Essa tem sido uma das lutas de nossa família, encontrar ovos que tenhamos confiança que são provenientes de galinhas que foram bem tratadas.

Peter Singer

Sim, é verdade. Eu acho que é um pouco mais fácil conseguir ovos de galinhas genuinamente criadas ao ar livre na Austrália [onde Singer vive] do que nas grandes cidades americanas, de qualquer forma. Não é sempre assim tão fácil distinguir as que são rotuladas como criadas ao ar livre, mas na verdade são mantidas em grandes armazéns com pequenas áreas onde podem estar ao ar livre. Na Austrália, relatam a densidade de estocagem.

Kelsey Piper

Em 2020, é claro, há muitos argumentos antigos sobre a criação de animais que ainda são relevantes. Mas há também algumas preocupações novas no horizonte de todos nós – como o potencial para pandemias e o potencial para contribuir para a mudança climática.

Peter Singer

O último ensaio da coleção é um ensaio de 2020 sobre as origens da pandemia de coronavírus, gripe e afins. Fala sobre os mercados úmidos e a combinação de crueldade e risco para a saúde que estes envolvem.

Quando publiquei o livro “Libertação Animal”, eu estava inteiramente focado no aspecto animal. Depois, durante os anos 80, tomei consciência da questão das mudanças climáticas, e do papel da criação animal nisso. Portanto, havia um segundo grande argumento para evitar os produtos de origem animal. Quando falo com pessoas que se tornaram veganas nos últimos anos, descubro que o clima tem desempenhado um papel bastante significativo.

E depois, nos últimos anos, tomei consciência do risco de pandemias emergirem da pecuária industrial. Por isso o que eu digo no livro é – que agora há esta terceira razão: animais, clima e pandemias.


Publicado originalmente por Kelsey Piper na Vox, a 27 de outubro de 2020.

Tradução por Ligea Hoki. Revisão José Oliveira.

5 comentários sobre “O que o filósofo Peter Singer aprendeu em 45 anos defendendo os animais

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