Por que é que os governos são maus a enfrentar riscos catastróficos — e como poderiam melhorar

Por Kelsey Piper (Vox)

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Riscos catastróficos, governos sabem o que fazer? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Será que os governos nacionais têm um plano para prevenir uma catástrofe global? Será que os legisladores sabem o suficiente sobre esses riscos para fazerem planos e será que têm acesso ao conhecimento especializado de que precisam para um planeamento eficaz?

A resposta é: nem por isso. Pelo menos é essa uma lição que retiramos de um novo relatório do Centre for the Study of Existential Risk [Centro para o Estudo de Riscos Existenciais] da Universidade de Cambridge, que analisa em que medida os legisladores estarão bem equipados para fazer políticas que lidem com riscos catastróficos globais. Trata-se de perigos com potencial para causar perturbações em massa por todo o mundo: uma guerra nuclear, o aquecimento severo devido às alterações climáticas, uma pandemia global e outras possibilidades.

O relatório conclui que, em muitos aspectos, os governos não estão bem equipados para essas decisões. E não é difícil perceber porquê. Muitos dos riscos que enfrentamos hoje são globais — devido ao mundo estar tão interligado, as coisas podem correr mal para nós nos Estados Unidos mesmo que as políticas dos EUA sejam bastante boas. Por exemplo, uma guerra nuclear em qualquer lugar do mundo afectaria o mundo inteiro. As alterações climáticas já estão a afectar todo o planeta.

E alguns dos riscos discutidos no relatório — como o uso de tecnologia de bioengenharia para tornar doenças pandémicas mais mortais, ou os perigos de sistemas avançados de inteligência artificial — podem ser desencadeados por uma única empresa ou laboratório de investigação.

Depois há os riscos que ainda nem sequer podemos prever. Há cem anos, uma organização dedicada à investigação de riscos catastróficos para a humanidade não saberia que a bomba nuclear estava ao virar da esquina. Da mesma forma, podem haver tecnologias que estamos prestes a descobrir que tenham o potencial de ser excepcionalmente perigosas e que nem sequer conhecemos para nos prevenirmos.

O relatório conclui que “os governos nacionais muitas vezes têm dificuldades para compreender e desenvolver legislação relacionada com riscos extremos”. O mesmo vale para instituições como a ONU, embora estas não sejam o foco do relatório.

E isto é uma notícia terrível para todos nós. A verdade é que, embora alguns destes perigos sejam especulativos, muitos deles são bastante concretos e não são tão improváveis ou distantes quanto possam parecer à primeira vista. E é necessária apenas uma grande catástrofe para potencialmente matar centenas de milhões de pessoas ou desviar a rota da civilização humana.

Precisamos de políticas sólidas para lidar com estes problemas e, em muitos casos, precisamos de tratar deles antes que se agravem, não depois, quando poderá ser tarde demais.

Eis por que os governos são maus a enfrentar riscos catastróficos 

O relatório identifica alguns motivos pelos quais os legisladores têm tantas dificuldades em desenvolver boas estratégias de mitigação de riscos globais.

A primeira razão é que isso não os ajuda a serem eleitos.

A maioria dos grandes desafios analisados pelo Center for Existential Risk são riscos a longo termo — não são problemas que enfrentaremos nos próximos cinco anos, mas problemas que provavelmente vamos precisar de enfrentar antes do final deste século. Jamais alguém virá a ser reeleito com base na sua sensata política de biossegurança, que reduza o risco de problemas daqui a 20 anos. Nem sequer é possível ganhar as eleições nos Estados Unidos com base em planos para enfrentar as alterações climáticas, como demonstra a saída de Jay Inslee da corrida presidencial.

Muitos dos riscos que os legisladores precisam de resolver, desde o inverno nuclear, aos riscos da inteligência artificial avançada, parecem tão especulativos que um candidato pode até ser penalizado numa campanha por abordá-los.

E se não é possível ganhar uma eleição por meio de uma política sólida sobre uma questão, é muito mais difícil fazer com que os legisladores tratem a questão como uma prioridade genuína.

Outro problema? “As burocracias que apoiam o governo podem estar mal equipadas para entender estes riscos”, diz o relatório. Os legisladores dependem fortemente dos departamentos do governo que investigam questões e produzem relatórios detalhados. O governo dos EUA tem fortes departamentos internos para investigação em algumas áreas.

Mas noutras há muito pouco conhecimento especializado disponível. Em casos como as alterações climáticas, foram afastados investigadores do governo devido a mudanças departamentais por motivos políticos. Em casos como a IA, há muito poucos especialistas nos avanços incrivelmente rápidos dos últimos anos — e a maioria deles está na indústria, não na função pública. Isto poderá ter consequências desastrosas .

O relatório apresenta um plano de quatro passos para ligar os governos aos recursos de que necessitam para enfrentar os riscos catastróficos de forma eficaz. Primeiro, argumenta, os governos precisam de contratar cientistas e desenvolver equipas internas de qualidade para fazer investigação sobre os riscos.

Em seguida, precisam de melhorar as ligações entre a ciência e a política. O governo dos EUA tinha cientistas a fazer investigações de alta qualidade sobre as mudanças climáticas, mas isso não produziu uma política governamental sólida. É necessário estabelecer laços entre os cientistas, legisladores e órgãos reguladores para que as suas recomendações realmente influenciem as políticas.

Terceiro, recomendam o apoio à investigação académica sobre riscos catastróficos. O domínio da gestão de riscos catastróficos é muito diferente do que era há uma década, em grande parte por causa de investigadores nos EUA e no Reino Unido, que publicaram artigos que definem e moldam este domínio, estabelecendo os seus métodos e analisando os riscos mais críticos. Actualmente, esta investigação é principalmente financiada por filantropos. Mas devia ser financiada por estados, que têm (ou deveriam ter) interesse em prevenir catástrofes em massa que afectarão as suas populações.

Finalmente, recomendam maiores recursos do governo para o desenvolvimento do conhecimento científico e tecnológico. Disponibilizar mais financiamento é uma óptima maneira de convencer tanto investigadores como legisladores a migrar para uma nova área — e é necessária mais investigação, com urgência, para priorizar entre os riscos que enfrentamos e planear soluções sensatas.

No geral, é desanimador o quão pouco os governos parecem estar a fazer em relação aos problemas que ameaçam a continuidade da existência das suas sociedades. Mas não se trata de um problema insolúvel. Com os compromissos certos, poderíamos desenvolver as ferramentas que os governos necessitam para lidar com os riscos.


Publicado originalmente por Por Kelsey Piper na Vox, a 23 de Agosto de 2019.

Tradução de Luis Campos. Revisão de José Oliveira.

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