Matar as formigas

Por Joe Carlsmith (EA Forum)

Não haverá mal em matar formigas? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

1. As formigas

Recentemente, eu e as pessoas com quem vivo começámos a ver muitas formigas em casa. Marchavam em longas filas ao longo das bordas da cave e das casas de banho. Algumas apareciam em gavetas. A minha namorada espalhou um pouco de pimenta vermelha, que era suposto dissuadi-las de uma das suas rotas, mas atravessaram-na em linha de um lado ao outro.

Pensámos que talvez estivessem a abrigar-se da chuva, pois estava a tornar-se mais frequente. Já tínhamos tido formigas antes; tínhamos conversado nessa altura sobre se deveríamos fazer algo a esse respeito; mas não fizemos e, eventualmente, desapareceram. Pensámos que isso talvez acontecesse novamente.

Não aconteceu. Ao longo de semanas, o problema piorou. Havia centenas de formigas na casa de banho do andar de cima. Começaram a aparecer muito mais na cozinha. Deitámos fora várias coisas, fechamos várias coisas. Apareceram nas camas. As gavetas da cozinha eram agora território das formigas.

Conversámos sobre o que fazer. Não queríamos matá-las, e isso era parte da razão de termos esperado. Mas várias pessoas da casa sentiram que a situação estava a ficar descontrolada e que estávamos a encaminharmo-nos para algo muito mais difícil de controlar. Lembrei-me de uma casa em que tinha estado, onde as formigas apareciam em “enxame” sobre a máquina de café todas as manhãs, e os esforços (não sei até que ponto seriam extremos) para nos livrarmos delas tinham falhado.

O método de matar mais eficaz é envenenar a colónia como um todo. As formigas são atraídas por um líquido açucarado que também contém borato de sódio, que é venenoso para as formigas, mas relativamente seguro para os seres humanos. Depois, ao regressarem, estas levam o veneno para a colónia. Conversámos sobre como isto seria mau para as formigas — e, em particular, sobre o facto de o veneno ser de acção lenta. Esmagá-las directamente, pensámos, pode ser mais humano; embora também fosse mais demorado e tivesse menor probabilidade de resolver o problema.

Eventualmente, embora sem resolver todas as discordâncias entre as pessoas com quem vivo, colocámos os iscos venenosos (por essa altura a minha namorada também experimentou cravinho [Br Cravo-da-Índia], borras de café e sumo de limão, bem como atrair as formigas com um pouco de manteiga de amendoim e mel para o lado de fora, longe do casa). As formigas na cozinha desapareceram. Ainda há algumas na casa de banho do andar de cima; e dentro dos iscos de plástico transparente é possível ver corpos de formigas, na calda.

 

2. Assumir a responsabilidade

A certa altura, sobre o tema das formigas, eu disse de passagem algo como: “que nos perdoem”. A minha namorada respondeu seriamente, dizendo algo como: “Não seremos perdoados. Não há perdão”.

Algo na sua resposta fez-me perceber que a escolha de matar as formigas tinha sido, para mim, algo irreal. Tinha defendido uma causa de modo limitado, mediante um conjunto nebuloso de normas, mas sem qualquer sentido real de responsabilidade pelo que estava a fazer. Havia naquilo algo performativo e afastado — um tipo de afastamento em que uma pessoa, por exemplo, “se sente mal” por matar as formigas — e a questão de saber se estávamos a fazer a “coisa certa” era parte disso. Estava a olhar para os conceitos. Estava à espera de algum tipo de conformidade, algum tipo de “aprovação” por parte das “autoridades” morais. Mas não estava a confrontar-me, com o mundo que estava a criar, e com as formigas que estavam a morrer como resultado disso. Não estava a assumir a responsabilidade.

Independentemente da nossa escolha ter sido certa ou errada (ainda não tenho a certeza), escolhemos que essas formigas morressem. Nós matámo-las. O que tivemos por parte do universo, quando escolhemos, não foi um “bom trabalho” ou “mau trabalho”: o que tivemos foi este mundo, e não outro. E este mundo estava mesmo ali, à minha frente, quer devêssemos ser “perdoados” ou não.

Não assumir a responsabilidade pela escolha foi mais fácil, penso, pelo facto de que a morte das formigas ocorreria principalmente fora da nossa vista; fora da minha “zona”, e não, directamente, pelas minhas próprias mãos. Na verdade, recusei-me a ser eu próprio a esmagar as formigas e não fui eu que espalhei os iscos ou que insisti para os obter. Concordei com um plano; os iscos foram espalhados; o problema desapareceu. Teria sido bem possível permitir que o incidente mal deixasse vestígios na minha consciência. Aconteceu nos limites da minha percepção. Num certo sentido, mal reparei.

Existe uma certa virtude no sentido da expressão: “se matar algo, olhe-o nos olhos enquanto o faz”. (Isto está relacionado com uma virtude valorizada por uma pessoa que conheço, mas que ele caracteriza como “olhe os seus inimigos nos olhos enquanto os mata”. No entanto, prefiro muito mais a minha versão, que não assume que estejamos a matar algo, ou que este seja entendido como “inimigo”). Se fizermos mal a alguma criatura por causa de algo que valorizamos, ou se arriscarmos causar tal dano (e basicamente estamos sempre a arriscar — para uma discussão destas ideias ver MacAskill e Mogensen (não publicado)), ou se escolhermos os nossos próprios objectivos, valores e crenças em detrimento dos de outros, devemos assumir a responsabilidade de que estamos a fazê-lo.

É fácil empurrar o mal que fazemos, ou que arriscamos fazer, para fora da nossa zona de percepção; vivermos com, ou esforçarmo-nos por, uma falsa sensação de pureza, sustentada pela atenção apenas ao que pode ser visto directamente, ou àquilo que se entende, pelos padrões de consciência quotidiana e reprovação social, como “intencional”. Em relação a matar insectos em particular: quando lavamos os nossos lençóis, matamos um grande número (milhares?) de ácaros; quando caminhamos na relva, esmagamos os insectos com os nossos pés; quando conduzimos, insectos esborracham-se contra o nosso pára-brisas. Mas de forma mais abrangente: as coisas que usamos e consumimos, as instituições e sistemas que estruturam as nossas vidas, os recursos que comercializamos e herdamos, as sequências causais que iniciamos casualmente — todos estão emaranhados em intrincadas teias de danos; e todos os dias, sempre, há coisas que deixamos por fazer; coisas que deixamos morrer, ou que deixamos sofrer, porque damos prioridade a outra coisa.

Não estou a dizer que precisamos de pensar nestas coisas constantemente; ou que devemos sentir sempre as emoções que são de algum modo “apropriadas”. Mas devemos viver no mundo real, que inclui todas as consequências das nossas acções. Também devemos olhar-nos ao espelho. Devemos saber quem somos.

 

3. Prestar atenção

Mais tarde, pensando nas formigas, pensei em alguns vídeos nos quais Brian Tomasik filma os insectos que encontra em sua casa, para documentar e entender os danos que estes sofrem. Num deles, examina, usando uma câmara de microscópio, os insectos que são esmagados quando escava fertilizante com as suas mãos; noutro, filma as moscas a zumbir, voando contra uma janela do seu sótão; noutro, os insectos que encontra na terra do vaso de uma planta. Os vídeos que vi (talvez quatro ou cinco) têm um tom de realismo e de tristeza silenciosa. Terminam, muitas vezes, com longas filmagens dos insectos em questão, sem narrativa.

Quem me apresentou estes vídeos pela primeira vez — em particular, o do fertilizante — estava a sugerir que eu me risse deles. “Isto não é ridículo?”, dizia ele. A mim não me parecia, de todo, que assim fosse. Em vez disso, parecia um exemplo de alguém que estava realmente a prestar atenção. Tomasik estava a olhar, directamente, para algo que normalmente deixamos fora das nossas zonas de percepção; algo em que mal reparamos, e quando o fazemos a nossa mente desvia-se de imediato.

Muitas das opiniões e condutas de Tomasik — incluindo as políticas de resposta que apoia nesses vídeos — são extremas e invulgares. Discordo dele em muitas coisas importantes e não estou a tentar debatê-las aqui. Nem estou a assumir respostas para a questão de saber se os insectos de vários tipos têm realmente algum peso moral (ver Muelhauser aqui e aqui); Se têm peso moral, quanto é; ou, em resposta a isso, o que fará sentido fazer, se é que há alguma coisa que se possa fazer. Na verdade, responder a tais perguntas com alguma confiança parece um desafio assustador.

O que eu quero destacar é o tipo de atenção que me parece que Tomasik está a prestar ao mundo, nesses vídeos. Parece estar relacionado com o tipo de atenção que eu não estava a prestar às formigas em minha casa.

 

4. “Aquilo que se faz”

Os insectos geralmente não possuem o carisma que beneficia outros animais no discurso moral humano. São nojentos, pequenos, viscosos, invasivos, doentios. De facto, suponho que parte da irrealidade da decisão sobre matar as formigas, para mim, decorreu do facto de que o nosso mundo social não trata tais decisões como algo moralmente arriscado. Não concordamos que as pessoas queimem insectos com lupas apenas por diversão; mas noutros contextos, e especialmente no decurso de fazer outras coisas, matamos insectos sem pensar muito nisso; e por vezes, com entusiasmo.

Na verdade, parece mais fácil ver uma formiga como uma intrincada máquina biológica, desprovida de consciência e de valor moral, do que ver dessa forma um porco, ou uma vaca — apesar do facto de que porcos, vacas e, na verdade, seres humanos serem todos, da mesma forma, máquinas biológicas, embora de tamanhos e complexidades diferentes. E talvez haja realmente diferenças qualitativas — ou diferenças quantitativas suficientemente grandes — face à medida em que daríamos importância, após reflexão, àquilo que está em causa na vida dos insectos vs. outros animais (embora aqui a nossa incerteza sobre a consciência e a sua relação com o valor seja avassaladora). No mínimo, tendemos a agir dessa forma.

Mas será que agiríamos de maneira diferente se a verdade sobre o estatuto moral dos insectos fosse diferente? Consideremos os ácaros que matamos quando lavamos os nossos lençóis. Se for como eu, já decidia lavar os lençóis muito antes de saber que os ácaros existiam. Na verdade, talvez só tenha ficado a saber disto agora (acho que eu só fiquei a saber sobre os ácaros há alguns anos).

É fácil, ao ficar a saber sobre os ácaros, que a questão de se ajustar ou não as práticas relacionadas com os nossos lençóis, à luz destes ácaros, nunca seja genuinamente colocada. Lavar os lençóis é “aquilo que se faz”. Se descobrirmos que mata milhares de pequenas criaturas que não sabíamos que existiam, é fácil concluir que, aparentemente, matar essas criaturas não faz mal; também é, aparentemente, “aquilo que se faz”. A ideia de que podemos proteger melhor e promover aquilo que nos preocupa, ao mudar as nossas práticas relacionadas com lençóis (Tomasik relata: “Para estar seguro, diariamente sacudo o lençol da minha cama numa área não utilizada da minha casa num esforço para lhe remover a pele morta”), é entendida como uma reductio ad absurdum da ideia de que o bem-estar dos ácaros justifica tal mudança. Em primeiro lugar somos utilizadores de lençóis tradicionalistas; em segundo somos filósofos — ou nem somos filósofos sequer.

Na verdade, ameaçados pelos encargos das novas obrigações, é possível acolher com uma espécie de alívio reductios deste tipo. No assunto das formigas, por exemplo, reparei num certo alívio relativamente à ideia de já estar a matar insectos quando conduzia ou caminhava na relva: “Ninguém vai dizer que devemos deixar de conduzir ou de caminhar na relva, certo? Então, matar essas formigas também não deve fazer mal”. Se uma norma candidata é vista como sendo imposta externamente, em vez de ser fundamentada em algo com que nos preocupamos profundamente, recebemos com entusiasmo, em vez de tristeza, as provas de que cumprir a norma é impossível ou extremamente trabalhoso.

 

5. Se os ácaros fossem diferentes

Imagine um mundo no qual os seres humanos fossem a única espécie macroscopicamente visível. Durante séculos, estes seres humanos viveram vidas maravilhosas; a dançar na relva, a cozinhar refeições deliciosas em fogueiras ao ar livre, a tocar música juntos — tudo isto acreditando que eram as únicas criaturas sencientes que existiam.

Então um dia, uma cientista inventa um microscópio com o qual começa a examinar o mundo. Ela descobre, para sua surpresa, que a superfície de tudo está coberta por uma fina película — invisível a olho nu — de algo que, no seu todo, parece uma civilização. As criaturas desta civilização são feitas de um tipo de substância viscosa e intrincada, mas os seus sistemas nervosos são incrivelmente complexos — muito mais complexos, na verdade, do que os sistemas nervosos humanos, e feitos de melhores materiais. Esta substância viscosa, ao que parece, tem um tipo de arte, de linguagem e de religião; também eles praticam um tipo de dança. E fazem muito mais para além disso, o que os cientistas humanos, neste momento, não conseguem compreender (vamos imaginar que a comunicação permanece, por enquanto, impossível).

Além do mais, os seres humanos percebem que, sempre que os seres humanos andam ou dançam na relva, esmagam essa civilização viscosa com os seus pés; sempre que fazem uma fogueira, a civilização viscosa é queimada; sempre que tocam as cordas de uma guitarra, criaturas viscosas são atiradas ao ar e morrem. Durante séculos, apercebem-se, têm devastado uma civilização sofisticada e invisível; sem saber que estavam a fazê-lo.

O que fazem, então? Argumentam que a civilização viscosa não pode ser digna de cuidados, porque mudar as práticas de dança, culinária, criação de música, etc. seria demasiado exigente? Será que começam a procurar maneiras de proteger e de compreender a substância viscosa? Será que começam a questionar-se sobre conflitos futuros com a substância viscosa? Se houvesse um comprimido que pudessem tomar, que permitisse que esquecessem a substância viscosa e que as coisas voltassem ao que eram antes de terem microscópios, será que o tomavam?

O objectivo desta hipótese aqui não é forçar ou pressionar os seres humanos a desistirem das suas belas vidas, sob pena de serem maus. Estes ficaram a saber uma coisa nova sobre o mundo em que vivem e as consequências das suas acções, mas é da sua responsabilidade a forma como respondem. A questão é que o mundo real — o mundo em que sempre viveram — permanece real independentemente disso. Qualquer que seja a verdade sobre a arte, a religião e a música da substância viscosa — e sobre os danos que a dança, o fogo e as guitarras provocam — essa verdade permanece verdadeira.


Publicado originalmente por Joe Carlsmith no EA Forum, a 7 de Fevereiro de 2021.

Tradução de Rosa Costa e José Oliveira.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s