Vacina AstraZeneca: Como avaliar os riscos e os benefícios?

Por Robert Cuffe (BBC)

Vacina, como avaliar riscos vs. benefícios? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Para a maioria das pessoas que estão neste momento a receber a vacina Oxford-AstraZeneca, os benefícios superam claramente os riscos.

Mas o Comité Conjunto de Vacinação e Imunização (JCVI) do Reino Unido recomendou que – devido a um número “extremamente pequeno” de coágulos sanguíneos em algumas pessoas que receberam a vacina – as pessoas com menos de 30 anos deveriam receber outras vacinas.

A escolha de cada um é diferente – pesando os potenciais riscos de efeitos secundários contra a hipótese de contrair o coronavírus e talvez ficar gravemente doente, ou até morrer.

Não sabemos o suficiente para conseguir inserir os dados numa calculadora e obter uma resposta simples, exacta e à sua medida.

Mas está aqui a melhor informação que dispomos actualmente sobre os possíveis riscos e benefícios.

Os eventos são tão raros que precisamos de começar com um número enorme de pessoas para que seja possível compreendê-los.

Por isso, vamos partir do número de 10 milhões de pessoas imaginárias.

Quais são os riscos de coágulos sanguíneos com a vacina AZ?

Os reguladores estão continuamente a reavaliar os detalhes dos coágulos raros que ocorreram para descobrir quantos podem ter sido causados ​​pela vacinação.

Assumindo o pior dos cenários – que sejam todos – podemos fazer alguns cálculos aproximados para ter uma noção dos riscos.

Com base nos números anunciados na quarta-feira pelo regulador de medicamentos do Reino Unido, se 10 milhões de pessoas imaginárias recebessem a vacina AZ, poderia esperar-se a ocorrência de 40 desses coágulos – e cerca de 10 coágulos teriam consequências fatais.

Dez mortes em 10 milhões de pessoas vacinadas é uma hipótese num milhão.

É praticamente o mesmo risco de ser assassinado no próximo mês ou – caso conduza um carro por 400 quilómetros – o risco de morrer num acidente de viação nessa viagem.

Como se compara isso ao risco normal desses coágulos?

Aproximadamente 40 homens e 100 mulheres no nosso grupo imaginário de 10 milhões podem esperar ter um desses coágulos em qualquer ano sem vacinação, com mais casos em pessoas mais jovens.

Isto é cerca de 12 por mês – portanto, observar um número maior apenas em algumas semanas após a vacinação é parte do cenário de maior risco.

Uma análise dessa condição diz que cerca de três quartos dessas pessoas teriam uma boa recuperação, mas um pequeno número, digamos uma ou duas pessoas, pode morrer dentro de um mês após o coágulo.

O regulador Europeu de medicamentos disse que, em meados de Março, poderiam esperar que surgissem entre um ou dois casos desse coágulo em pessoas com menos de 50 anos que recebessem a vacina, mas surgiram 12 – cerca de nove vezes mais do que esperavam.

Como se compara isso aos riscos de coágulos da pílula?

Esses coágulos acontecem com mais frequência em mulheres grávidas ou em pessoas que tomam hormonas femininas.

Em geral, caso esteja a tomar a pílula, o risco é cerca de seis vezes maior do que se não estivesse.

Portanto, os riscos de ter um coágulo para quem toma uma pílula anticoncepcional parecem, à primeira vista, estar numa estimativa semelhante aos riscos potencialmente associados à vacina AZ, mas não podemos saber com certeza face aos dados de que dispomos.

Para ter a certeza, seria necessário compará-los directamente num estudo único.

E tomar ou não um medicamento depende dos benefícios, bem como dos riscos.

Quais são os benefícios de tomar a vacina?

Caso se atrase a vacinação dos nossos 10 milhões de pessoas por uma semana, com base nos níveis actuais do vírus, cerca de 16 000 pessoas podem contrair o coronavírus.

Se fossem todos adultos mais velhos, digamos, com 60 anos de idade, talvez 1000 acabassem no hospital e 300 deles poderiam morrer, muito mais do que as 10 mortes por coágulos após a vacinação que mencionamos anteriormente.

Mas para os adultos mais jovens, os riscos de hospitalização ou morte são consideravelmente menores.

Dado o mesmo número de pessoas infectadas com 40 anos, é provável que 16 morressem. E o número de fatalidades esperadas seria ainda menor para pessoas na faixa dos 20 e 30 anos.

Portanto, para grupos de idades mais jovens, a escolha de se receber a vacina AZ não é tão clara, especialmente quando há tantas incertezas em todos estes números.

Mas a morte não é o único problema. Cerca de um quarto das pessoas que acabam nos tratamentos intensivos com Covid apresentam algum tipo de coágulo resultante do vírus.

E a Covid longa tem mais probabilidade de afectar pessoas de 30 anos do que de 70. Em média, cerca de 2000 do nosso grupo ainda estariam a lidar com os sintomas da Covid três meses depois, e mais da metade delas estariam limitadas por esses sintomas nas suas actividades diárias.

Embora não haja um número simples para todos, para a maioria das pessoas com alto risco de contrair Covid ou morrer por causa da Covid, os dados actuais sugerem fortemente “as suas hipóteses de se manter viva e bem vão aumentar caso tome a vacina e vão diminuir se não tomar”, explica Adam Finn, membro da JCVI.

Mas isso muda para os mais jovens.

O Director Médico da Inglaterra, Prof. Chris Whitty, diz: “Quanto mais nos aproximamos de alguém que tenha apenas 20 anos, e sem qualquer problema de saúde, mais se tem de pensar sobre esses efeitos secundários realmente muito raros – os riscos/benefícios podem ficar mais próximos da equivalência”.


Publicado originalmente por Robert Cuffe na BBC, a 7 de Abril de 2021.

Tradução de Rosa Costa e José Oliveira.

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