A vacina contra a malária de Oxford revela-se altamente eficaz num ensaio no Burkina Faso

Por Sarah Boseley (The Guardian)

Nova vacina da Malária, será eficaz? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Uma vacina contra a malária demonstrou ser altamente eficaz em ensaios em África, oferecendo a possibilidade real de reduzir o número de mortes de uma doença que mata 400 000, na sua maioria crianças pequenas, todos os anos.

A vacina, desenvolvida por cientistas do Instituto Jenner da Universidade de Oxford, mostrou uma eficácia que vai até 77% num ensaio com 450 crianças no Burkina Faso, durante 12 meses.

A procura incessante por uma vacina contra a malária tem decorrido ao longo de quase um século. Uma delas, a vacina Mosquirix desenvolvida pela GlaxoSmithKline, passou por longos ensaios clínicos, mas é apenas parcialmente eficaz, prevenindo 39% dos casos de malária e 29% dos casos de malária grave entre crianças pequenas de África durante quatro anos. Os ensaios estão a ser levados a cabo pela Organização Mundial de Saúde em zonas do Quénia, Gana e Malawi.

A vacina de Oxford é a primeira a cumprir o objectivo da OMS de 75% de eficácia contra esta doença parasitária transmitida por mosquitos. Testes maiores estão agora a começar envolvendo 4800 crianças em quatro países.

O Professor Adrian Hill, Director do Instituto Jenner, onde a vacina Covid-19 da Oxford/AstraZeneca foi inventada, disse acreditar que a vacina tinha o potencial para reduzir drasticamente o número de mortes. “O que esperamos fazer é reduzir essas 400 000 para dezenas de milhares nos próximos cinco anos, o que seria absolutamente fantástico”.

Outras intervenções, tais como mosquiteiros tratados com insecticida e medicamentos maláricos, reduziram o número de mortes de um milhão por ano, disse-nos, e estas intervenções devem continuar. Mas, se a vacina pudesse reduzir o número de mortes para as dezenas de milhares, poderia ser possível vislumbrar “um objectivo maior – eventualmente a erradicação da malária”.

Hill disse que o instituto poderia solicitar a aprovação de emergência para a vacina contra a malária, tal como fez para a vacina contra a Covid. “Estou a argumentar com a maior veemência possível, que como a malária mata muito mais pessoas do que a Covid em África, deve-se pensar na autorização do uso de emergência de uma vacina contra a malária para se usar em África. E isso nunca foi feito antes”.

O instituto pediria provavelmente aos organismos reguladores na Europa ou no Reino Unido um parecer científico sobre a vacina e depois solicitaria à Organização Mundial de Saúde a sua aprovação para o seu uso em África. “Fizeram isso face à Covid em meses – porque não deveriam fazê-lo face à malária num período de tempo semelhante, uma vez que este problema de saúde tem uma escala ainda maior em África?” disse Hill.

A vacina será fabricada em grande escala e a baixo custo, dizem os investigadores, que negociaram um acordo com o Instituto Serum da Índia, que está envolvido no fabrico da vacina Covid-19 da Oxford/AstraZeneca.

O Instituto Serum teve de adiar o fornecimento da vacina Covid ao resto do mundo devido ao enorme aumento de casos na Índia, mas prometeu entregar, por ano, 200 milhões de doses da vacina contra a malária se esta for licenciada.

Hill disse que o melhor cenário possível seria a aprovação até ao final de 2022, altura em que o Instituto Serum teria bastante capacidade de resposta.

O Dr. Cyrus Poonawalla e Adar Poonawalla, respectivamente Presidente e Director Executivo do Instituto Serum, afirmaram numa declaração que estavam “muito entusiasmados por ver estes resultados numa vacina contra a malária segura e altamente eficaz que estará disponível para todo o mundo”. O projecto foi realizado em colaboração com Oxford e também com a Novavax, que está a fornecer o adjuvante, uma substância que melhora a resposta do sistema imunitário.

“Estamos altamente confiantes de que seremos capazes de entregar mais de 200 milhões de doses anuais em conformidade com a estratégia, assim que as aprovações regulamentares estiverem disponíveis”, disseram.

As crianças do ensaio, que foi publicado na revista Lancet, tinham entre cinco e 17 meses e viviam em Nanoro, uma área que abrange 24 aldeias com uma população aproximada de 65 000 pessoas. Foram divididas em três grupos; dois tinham a vacina, mas ou com uma dose baixa de adjuvante ou uma dose alta, enquanto que o terceiro grupo recebeu uma vacina contra a raiva, actuando assim como grupo de controlo.

As crianças tomaram três doses e, desde essa altura, tomaram uma nova injecção de reforço. A vacina Mosquirix é também administrada em quatro doses.

Hill disse que as mães estavam desejosas de trazer os seus filhos de volta para mais vacinas, devido à sua experiência com a malária. A eficácia foi de 77% no grupo de doses elevadas de adjuvantes e de 74% no grupo de doses mais baixas.

Gareth Jenkins, do Malaria No More UK, disse: “Podemos acabar com a malária na nossa geração, mas apenas se os governos investirem na investigação necessária para fornecer os novos medicamentos e produtos que possam acelerar o fim desta terrível doença”.

“O trabalho inovador do Instituto Jenner tanto sobre a nova vacina da Covid-19 como da malária é um grande exemplo disso e demonstra o quanto a segurança da humanidade depende da nova ciência”.

“Uma vacina eficaz e segura contra a malária seria uma arma suplementar extremamente significativa no arsenal necessário para derrotar a malária, que ainda mata mais de 270 000 crianças todos os anos. Durante décadas, os cientistas britânicos têm estado na vanguarda do desenvolvimento de novas formas de detectar, diagnosticar, testar e tratar a malária, e temos de continuar a apoiá-los”.

“Um mundo sem malária é um mundo mais seguro, tanto para as crianças que de outra forma seriam mortas por esta doença, como para nós aqui no nosso país. Os países livres do peso da malária estarão muito mais bem equipados para combater as novas ameaças de doenças quando estas surgirem inevitavelmente no futuro”.


Publicado originalmente por Sarah Boseley no The Guardian, a 23 de Abril de 2021.

Tradução de Rosa Costa e José Oliveira.

 

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