Eis porque estamos na melhor posição na História para fazer o bem

Por Julian Hazell (Giving What We Can) 

A sua melhor oportunidade de ajudar? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Imagine uma pessoa altruísta que tenha vivido há 200 anos. Em termos realistas, qual seria a quantidade de bem que esta poderia fazer, caso colocasse a sua cabeça (e o seu coração) a trabalhar nisso?

Provavelmente, muito pouco.

Para começar, provavelmente viveria em pobreza extrema como 90% das pessoas dessa altura.[1] E mesmo que fizesse parte dos 10% do topo, duas coisas iriam impedi-la: provavelmente não saberia quais eram os maiores problemas fora da sua vizinhança mais próxima, e provavelmente não teria qualquer meio de contribuir para o progresso nesses problemas, mesmo que soubesse quais eram.

No entanto, em comparação com apenas há 200 anos, fizemos progressos extraordinários na nossa capacidade de ajudar os outros, mas os doadores de hoje em dia muitas vezes não aproveitam esta oportunidade em pleno. E isso é um enorme problema. Felizmente, podemos resolvê-lo, reconhecendo que estamos numa posição melhor para fazer o bem do que qualquer geração antes de nós, e depois passar à acção.

A tecnologia actual dá-nos uma vantagem única

Hoje em dia, a maioria das pessoas (refiro as que têm acesso) tira partido da tecnologia moderna sem qualquer hesitação.

Escusado será dizer que, quando vamos a uma consulta médica, esperamos que utilizem práticas médicas que resultem do culminar de centenas de anos de progresso científico em vez de usarem a banha da cobra. Como resultado, vivemos agora, em média, muito mais tempo do que as pessoas das gerações anteriores.

Quando queremos contactar as pessoas, telefonamos ou enviamos mensagens de texto em vez de enviarmos cartas que podem demorar meses a serem recebidas. As nossas opções de entretenimento também se alargaram muito para além dos limites daquilo que as pessoas do passado poderiam imaginar. Temos acesso imediato a uma biblioteca praticamente interminável de música de alta qualidade, criada por artistas de todo o mundo e a sua subscrição custa apenas alguns dólares por mês. Pergunto-me: as pessoas no século XIX teriam de poupar durante quanto tempo para irem à ópera, se é que à partida gostariam sequer desse género de música?

Do mesmo modo que a tecnologia tem melhorado substancialmente a medicina e o entretenimento, também tem melhorado a nossa capacidade de ajudar os outros. Apesar disso, a maioria das pessoas não tem conhecimento sobre o quanto a tecnologia nos permitiu fazer uma diferença extraordinária. No entanto, precisamente devido a esta falta de conhecimento, temos uma inacreditável — atrevo-me a dizer entusiasmante — oportunidade de fazer o bem no mundo que as gerações anteriores não tinham. Só precisamos de capitalizá-la.

O ponto a que chegámos

O progresso tecnológico na produção e na electrónica tem feito maravilhas para tornar as coisas mais baratas, mais rápidas, melhores — seja lá aquilo que for. Em 1968, um televisor Baird 703 custava 325 libras. É o mesmo que 5700 libras actuais, quando se tem em conta a inflação. Nos nossos dias, seria visto com estranheza a compra de uma volumosa televisão a preto-e-branco dos anos 60 por 5700 libras quando os ecrãs planos [Br. telas planas] estão disponíveis por uma fracção desse preço.

A caridade não é diferente, embora por vezes, face ao valor real, possa ser difícil perceber. A menos que prestemos muita atenção ao grau de eficácia das nossas doações, não é necessariamente claro se estamos a doar a uma instituição de caridade que funciona como uma Baird 703 ou que funciona como um ecrã plano de 70 polegadas de 4K LED. Pode ser decepcionante pensar que algumas instituições de caridade podem ser pouco úteis, mas penso que pode ser empoderador pensar, em vez disso, naquelas que são incrivelmente eficazes.

Concentre-se nos ecrãs planos 

Encontrar instituições de caridade eficazes é uma procura entusiasmante e que vale a pena, especialmente agora que a tecnologia nos facilitou tanto o seu financiamento. Estou constantemente a ser surpreendido por poder utilizar a Internet para enviar recursos (por vezes directamente ao beneficiário) para todo o mundo de forma instantânea e barata. Graças à Internet, tenho acesso instantâneo a centenas de milhares de diferentes instituições de caridade. Isso é um progresso tecnológico notável – imagine a inveja que teriam os altruístas do passado. Estes não teriam uma maneira realista de enviar recursos para todo o mundo de forma rápida, barata e segura.

Mas nós temos. Só precisamos de utilizar os nossos conhecimentos para tirar o máximo partido dela.

Os nossos conhecimentos podem abrir portas

Embora o progresso científico acumulado nos tenha ensinado muito sobre como ajudar outros de forma eficaz, os doadores nem sempre tiram pleno partido desse conhecimento. Algumas provas sugerem que apenas cerca de 1 em cada 3 doadores faz algum tipo de pesquisa antes de doar e apenas 3% dos doadores doam com base no desempenho relativo das instituições de caridade.

Temos um conhecimento muito maior sobre o que funciona para melhorar a vida das pessoas — ou sobre indícios promissores que possam gerar enormes benefícios — do que as pessoas no passado. Por exemplo, sabemos que as redes mosquiteiras tratadas com insecticida de longa duração que previnem a malária são uma forma eficaz de salvar vidas e melhorar o bem-estar. As gerações anteriores não sabiam disto, o que teria limitado drasticamente a sua capacidade de fazer um bem maior (às apalpadelas no escuro, talvez tivessem tentado um tratamento com sanguessugas).

Evidentemente, estamos melhor informados: existem várias avaliadoras de instituições de caridade, tais como a GiveWell, para nos ajudar a descobrir quais são as oportunidades mais promissoras para fazer o bem. Este conhecimento especializado é imensamente valioso e está aí disponível gratuitamente, quase a implorar-nos que o apliquemos. Para além do facto de que, há séculos, a maioria das pessoas não sabia ler ou escrever, também não teria tido acesso a um grupo de investigadores profissionais e de financiadores que meticulosamente se debruçam sobre estudos, relatórios e dados para encontrar as instituições de caridade mais eficazes que há por aí. Assim, mesmo que pudessem enviar dinheiro, provavelmente não teriam nenhuma ideia adequada para onde este deveria ir.

Além disso, existe muito mais riqueza hoje em dia do que havia no passado. Basicamente, nessa altura, todos viviam em situação de pobreza, pelo que não haveria tantas oportunidades para melhorar o bem-estar através de doações aos outros.

No entanto, o mesmo não pode ser dito hoje.

A desigualdade é horrível, mas dá-nos uma oportunidade

Para além da tecnologia e do conhecimento, as gerações anteriores à nossa sentiriam inveja se pudessem ver como hoje o nosso mundo é próspero. Conseguimos erradicar a varíola — uma doença que matou cerca de 300 milhões de pessoas só no século XX — porque melhoramos a nossa compreensão da imunologia. A percentagem de pessoas que vive em pobreza extrema desceu a pique. A quantidade total de riqueza no mundo disparou desde a revolução industrial. Os rendimentos medianos também subiram. Muitos bens que em tempos eram de luxo — pensemos nos telemóveis [Br. celulares], televisores e leitores de música, entre outros — estão a tornar-se omnipresentes devido aos avanços na capacidade computacional, processos de fabrico e conhecimento científico. Dito de uma forma simples, o nosso mundo é vastamente mais rico do que era no passado, seja qual for o termo de comparação.

Mas, calma aí — nem todos sentiram estas conquistas. O mundo pode ser incrivelmente rico, mas é também incrivelmente desigual. Mais de 600 milhões de pessoas ainda vivem em pobreza extrema e centenas de milhares de crianças morrem todos os anos de malária, uma doença que sabemos como prevenir. As alterações climáticas representam uma ameaça desproporcionada para aqueles que vivem em países de baixos rendimentos.

Dados os níveis substanciais de desigualdade de riqueza entre países, as pessoas nos países de altos rendimentos podem muitas vezes fazer um bem maior, doando a pessoas que têm muito pouco à partida.

Tomemos como exemplo o Burundi, um pequeno país sem costa marítima na África subsaariana com um PIB per capita de 731 dólares. Este valor já leva em conta o facto de que as coisas custam menos no estrangeiro. Conseguía viver com 731 dólares por ano? Eu não conseguia, e é uma injustiça que milhões de pessoas não tenham outra escolha senão viver com esse tipo de rendimento quando temos os meios para os ajudar.

Podemos questionar-nos: Como consegue alguém viver com tão pouco dinheiro? Certamente morreriam? E a resposta é… de facto morrem. Pelo menos, morrem muito mais regularmente do que aqueles de nós que vivem em países desenvolvidos. Embora a esperança média de vida nos países em desenvolvimento tenha disparado nas últimas décadas, nos países pobres da África subsaariana é de apenas cinquenta e seis anos, em comparação com mais de setenta e oito anos nos Estados Unidos. – Will MacAskill, Doing Good Better

Podemos fazer um bem muito maior se nos concentrarmos naqueles que têm pouco à partida. Mas será que realmente o fazemos na prática? Um inquérito a mais de 6000 doadores em mais de 100 países revelou que os doadores apoiam maioritariamente organizações localizadas nos seus próprios países, mesmo que os destinatários noutros países beneficiassem significativamente mais das doações. Embora possamos ajudar prontamente estas pessoas, tendemos a concentrar-nos nos problemas que estão mais próximos de nós.

Se a escala deste gráfico lhe parece absurda, é porque de facto é absurda.

Parece que a tecnologia, o conhecimento e a riqueza são ingredientes necessários (mas insuficientes) para resolver a desigualdade e a pobreza extrema. Estes ingredientes colocam-nos num momento crucial da história; um momento em que as condições de vida são horríveis para tantos, mas em que temos os instrumentos para mudar radicalmente o estado do mundo para melhor. Para desencadear esta mudança, precisamos de acrescentar o entusiasmo a essa mistura.

Um pouco de entusiasmo pode ir muito longe

As ferramentas e os conhecimentos necessários para ter impacto estão mesmo à nossa frente, à vista de todos. Mas sem o entusiasmo, talvez não os consigamos alcançar. Compreendo o sentimento de impotência e o cinismo que pode surgir à luz das incontáveis injustiças que atormentam o mundo.

O meu pedido é que resista a esses sentimentos. Se há algo que gostaria que retirasse deste texto, seria um sentimento de optimismo, aliado a uma convicção de que, face a estes problemas prementes do mundo, podemos desempenhar um papel mais importante na sua resolução do que quase qualquer outra pessoa na História.

Tomamos estas dádivas como garantidas: recém-nascidos que irão viver mais de oito décadas, mercados a transbordar de comida, água potável que aparece com um movimento dos dedos e o desperdício que desaparece com outro, comprimidos que eliminam uma infecção dolorosa, filhos que não são enviados para a guerra, filhas que podem andar pelas ruas em segurança, críticos dos poderosos que não são presos ou baleados, o conhecimento e a cultura do mundo disponível no bolso da camisa. Mas estas são conquistas humanas, não são direitos de nascença de natureza cósmica. ―Steven Pinker, Enlightenment Now: The Case for Reason, Science, Humanism, and Progress

Nunca o poder de melhorar o mundo foi tão amplamente distribuído. Em média, 4500 dólares doados a uma instituição de caridade altamente eficaz pode salvar a vida de alguém. Esta quantia não é trivial, mas é uma aspiração razoável para muitos de nós em países de altos rendimentos alcançarem (e excederem).

A pessoa cuja vida poderia ser salva irá crescer para ser amada pelos outros, ela própria amará os outros e irá ter esperanças e sonhos que serão exclusivamente seus. Uma doação feita a uma instituição de caridade altamente eficaz pode dar-lhes a oportunidade de experimentar as alegrias, mistérios, complexidades, recompensas, maravilhas e peculiaridades da vida. Podem ser os melhores 4500 dólares que já alguma vez gastou, e aposto que os altruístas do passado desejariam poder ter a mesma oportunidade que está à sua disposição.

Gotas de água no oceano podem parecer inconsequentes devido ao número gigantesco de problemas difíceis que o mundo enfrenta. Mas podem significar tudo para alguém no mundo. Essas mesmas gotas podem ser as que salvam a vida de alguém, ou as que em geral tornam melhor a vida para muitos. Ao pensar no que se deve fazer, não se detenha demasiado no tamanho assustador do oceano. Concentre-se na oportunidade que tem de o encher.

Essa oportunidade deixa-me entusiasmado e espero que convosco aconteça o mesmo.

Os próximos passos

Se ficou entusiasmado com esta oportunidade, veja o seguinte:

Notas

1. Para mais informações sobre o modo como temos uma ideia de como era a pobreza há centenas de anos, consulte este artigo de Our World In Data.↩︎


Publicado originalmente por Por Julian Hazell na Giving What We Can, a 20 de Dezembro de 2021 (actualizado a 23 de Dezembro de 2021).

Tradução de Rosa Costa e José Oliveira.

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