Mudamos para uma avaliação de instituições de caridade feita internamente para ajudar mais doadores a doar melhor e a reduzir a pobreza mais rapidamente (The Life You Can Save)

The Life You Can Save (TLYCS)

TLYCS21.fx

Neste Natal, como salvar uma vida? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

No ano passado, o mundo viu a riqueza global ultrapassar os 400 biliões [Br.trilhões] de dólares pela primeira vez na história. No entanto, os fenómenos climáticos extremos e os abrandamentos económicos levaram 811 milhões de pessoas a passar fome, e a pandemia empurrou quase 100 milhões de pessoas para a pobreza extrema, criando um aumento “historicamente sem precedentes” no número de pobres a nível mundial. 

Neste momento extraordinário em que a riqueza global e a pobreza extrema aumentaram, acreditamos que há mais oportunidades de doação do que nunca. No topo da nossa lista estão as nossas instituições de caridade recomendadas, que continuam a liderar na busca de formas inovadoras de ajudar os mais necessitados — por exemplo, para combater a fome e a desnutrição face aos bloqueios económicos, o One Acre Fund virou-se para a tecnologia digital para ajudar os agricultores a aceder a recursos essenciais para manter a agricultura em funcionamento, a GiveDirectl está a utilizar a aprendizagem de máquinas e a tecnologia de telemóveis [Br. celulares] para fazer chegar dinheiro aos mais afectados pela pandemia, enquanto o Sanku-PHC está a continuar a fornecer o apoio nutricional básico e barato que as crianças necessitam para sobreviver e prosperar.

Para continuar a identificar as melhores oportunidades de doação, a The Life You Can Save está a criar internamente uma ágil equipa de investigação encarregada de desenvolver um novo modelo de avaliação de instituições de caridade adaptável que possa ser aplicado a organizações sem fins lucrativos que trabalham com uma gama mais ampla de causas, geografias e abordagens para criar impacto. Esperamos que esse modelo nos ajude a identificar outras grandes organizações sem fins lucrativos que estejam a responder às necessidades urgentes dos 700 milhões de pessoas que vivem em extrema pobreza. Aqueles que actualmente nos apoiam terão mais escolha e mais capacidade de doar como querem, mantendo-se ao mesmo tempo confiantes de que estão a apoiar algumas das melhores organizações que existem. E ao expandir o conjunto de escolhas que oferecemos, esperamos trazer novos doadores dedicados a causas particulares para que possamos orientá-los a doar melhor nessas áreas de causa.

Paralelamente, continuaremos a trabalhar arduamente para difundir o conceito de doação eficaz e a inspirar mais pessoas a doar para salvar e melhorar as vidas de pessoas que vivem em pobreza extrema. Desta forma, esperamos ajudar mais doadores a doar melhor e a reduzir a pobreza mais rapidamente.

Porque é que precisamos de investigação feita internamente?

Anteriormente, identificávamos as melhores organizações sem fins lucrativos, analisando e agregando a investigação de outras avaliadoras de instituições de caridade sob a orientação de um painel de peritos voluntários. Embora este processo nos tenha servido bem (e estamos gratos aos membros do painel pela generosa doação do seu tempo e apoio), o processo tinha as suas limitações. As diferenças nos métodos e critérios das avaliadoras levaram ocasionalmente a inconsistências e a confusões em torno da razão pela qual uma determinada instituição de caridade era incluída na nossa lista, enquanto que instituições de caridade igualmente eficazes ficavam de fora. Contar com o conhecimento especializado dos nossos voluntários também limitou a nossa capacidade de acrescentar consistentemente mais excelentes organizações sem fins lucrativos à nossa lista e de fornecer recomendações personalizadas e aprofundadas aos principais doadores.

Além de abordar estas limitações, a nossa nova equipa de investigação interna irá permitir-nos fazer recomendações de organizações sem fins lucrativos em áreas de causa prioritária em que os impactos são difíceis de medir e atribuir. Por exemplo, as mudanças climáticas têm o potencial de arrastar até 132 milhões de pessoas para a pobreza até 2030, e os grupos de defensores como os recomendados pela Giving Green e pelo Founders Pledge têm pressionado constantemente os líderes mundiais para que renovassem os seus compromissos na COP26 este ano. No entanto, é difícil quantificar o impacto de tal trabalho utilizando uma abordagem com base contrafactual (o que será um “grupo de controlo” apropriado para o Planeta Terra?) ou métricas padrão como o “número de vidas salvas”. A nossa equipa adoptará uma abordagem pragmática, seleccionando áreas de causa prioritária na pobreza global e depois identificando as organizações sem fins lucrativos mais eficazes, utilizando métodos e métricas apropriadas a cada área. (Sobre este ponto: em breve anunciaremos as nossas recomendações das principais instituições de caridade em matéria de alterações climáticas — fique atento!* — e, num futuro próximo, esperamos avançar para outras áreas como a educação e a saúde mental).

Quem faz parte da nossa equipa de investigação?

O trabalho no novo modelo está a ser liderado pelo economista de desenvolvimento Bilal Siddiqi, que se juntou à equipa em Junho deste ano como Assessor Estratégico para a Investigação e Crescimento. Bilal veio até nós através do Center for Effective Global Action da Universidade da Califórnia em Berkeley, onde foi Director de Investigação, e do Banco Mundial, onde trabalhou com governos para incorporar a avaliação de impacto nas suas intervenções. Traz consigo quase duas décadas de experiência em investigação primária sobre a identificação de intervenções eficazes para reduzir a pobreza em países de baixos e médios rendimentos. As suas investigações têm sido publicadas no Quarterly Journal of Economics, na Science, e no The Lancet, entre outros, e amplamente contempladas na imprensa. É doutorado em economia pela Universidade de Oxford, onde estudou como bolseiro de Rhodes. 

Bilal é auxiliado por Anam Vadgama, que está connosco há mais de dois anos, a liderar as acções executivas e a angariação de fundos. É formada summa cum laude pela Universidade de Princeton e recebeu o Prémio Memorial Priscilla Glickman de 1992. 

Em 2022, planeamos continuar a expandir a nossa pequena, mas impactante, equipa interna de investigação e avaliação. Para apoiar os nossos esforços de investigação, estamos também a lançar um novo Fundo de Investigação, que será usado para financiar uma ampla gama de actividades de avaliação, incluindo investigações de diferentes causas da pobreza e como combatê-las, análises de custo-eficácia das organizações sem fins lucrativos de alto desempenho e consultas com os especialistas do sector e outros parceiros.

Em que consiste o modelo?

A nossa equipa está atarefada a trabalhar no modelo de avaliação inicial com a contribuição de uma ampla gama de partes interessadas. As suas características principais são intuitivas (e talvez já lhe sejam familiares): vamos concentrar-nos em problemas que sejam importantes, tratáveis e negligenciados no campo da pobreza e do bem-estar global, e vamos recorrer a provas científicas e à investigação de outras avaliadoras de instituições de caridade, como a GiveWell, para identificar as organizações sem fins lucrativos que trabalham em intervenções impactantes para resolver estes problemas. Neste esforço, vamos rastrear uma série de métricas, incluindo:

  • Os principais objectivos que as organizações sem fins lucrativos visam mudar, tais como melhorar a saúde e o bem-estar, melhorar os meios de subsistência e as oportunidades económicas, reduzir as mortes evitáveis, combater as alterações climáticas;
  • As populações-alvo que as organizações sem fins lucrativos pretendem servir, tais como crianças, mulheres e meninas, pessoas com deficiência, o público geral;
  • A força das provas científicas por detrás do potencial de impacto de uma intervenção proposta, de acordo com a avaliação de meta-análises e investigações de outras avaliadoras;
  • As principais abordagens que as organizações sem fins lucrativos adoptam para alcançar estas mudanças — desde a prestação directa de serviços, passando por ajudar o sector público e o sector privado a realizar intervenções eficazes, até à promoção de mudanças em larga escala nos sistemas através da defesa de causas — e o risco e a escala potencial de impacto de cada abordagem;
  • Estimativas do impacto nos principais objectivos por parte das organizações sem fins lucrativos, com base nas mais rigorosas provas aplicáveis à sua intervenção, desde estudos aleatórios controlados até abordagens quase experimentais, passando por estudos de caso, revisões por pares e avaliações por especialistas do sector;
  • Análises do custo-eficácia das organizações sem fins lucrativos, utilizando as mais rigorosas abordagens e métricas de impacto aplicáveis à intervenção; 
  • O compromisso da organização sem fins lucrativos com a integridade, transparência, aprendizagem e inovação, com base no seu histórico, revisões pelos pares e especialistas do sector.

Um desafio no desenvolvimento deste modelo é que este precisa de funcionar com uma ampla gama de objectivos e métricas de impacto e incorporar abordagens com diferentes níveis de incerteza, escala e padrões probatórios. Outras avaliadoras abordaram este problema de diferentes maneiras — desde os “pesos morais” da GiveWell até à “diversificação da visão do mundo” da Open Philanthropy. Por enquanto, manteremos um conjunto restrito de objectivos centrais que consideramos valiosos, sem tentar igualizar as métricas de impacto nas diferentes áreas (por exemplo, ao nivelar tudo para DALY [anos de vida ajustados pela incapacidade] ou QALY [anos de vida ajustados pela qualidade]), uma vez que tais conversões exigiriam cada vez mais trabalho de suposição e especulação à medida que avançamos para áreas de causas como as mudanças climáticas. (Outra forma de pensar sobre isto é: quando não for possível uma comparação objectiva entre diferentes causas, recomendaremos as oportunidades de doação mais eficazes dada uma determinada área de causa e deixaremos que sejam os nossos doadores a decidir qual é a área de causa que desejam apoiar).

Em suma, não procuramos fazer a repetição do excelente trabalho das outras avaliadoras de instituições de caridade. A nossa abordagem visa complementar esse trabalho, a fim de ampliar a lista de oportunidades de doação para doadores com fortes preferências por causas, geografias ou teorias de mudança particulares. Na verdade, continuaremos a contar fortemente com a investigação feita por outras organizações fantásticas neste âmbito, tais como a GiveWell, o Founders Pledge, a Giving Green, o Happier Lives Institute, o Charity Navigator, entre outras, para identificar candidatos para as nossas recomendações, mesmo que também os avaliemos usando o nosso próprio modelo de avaliação. 

Também esperamos continuar a recomendar as organizações sem fins lucrativos que têm funcionado de acordo com os mais elevados padrões probatórios, tais como as principais instituições de caridade da GiveWell. Para as nossas recomendações actuais de organizações sem fins lucrativos que não foram avaliadas com esse nível de rigor, já começámos a realizar avaliações profundas do seu impacto. Quando necessário, trabalharemos com as organizações sem fins lucrativos candidatas para identificar intervenções eficazes e fortalecer as suas abordagens e métricas de avaliação de impacto. Também iremos rever a nossa lista de instituições de caridade periodicamente e assegurar que as nossas recomendações permanecem relevantes e actualizadas. 

O que significa isto para si como doador?

  • Pode estar mais confiante do que nunca de que há investigação confiável e rigorosa nas nossas recomendações, e que o seu dinheiro terá um impacto directo nas coisas com as quais se importa;
  • Terá informações ainda mais detalhadas sobre o impacto e o custo-eficácia das organizações sem fins lucrativos que apoia;
  • Terá um leque maior de opções de doação, inclusive para organizações que trabalham com as mudanças climáticas (em breve!)*, educação, e outras áreas prioritárias;
  • Terá acesso a novas ferramentas e apoio para fazer uma “doação inteligente simples”. Reconhecemos que mais escolha pode tornar-se excessivo, e por isso adicionamos um questionário de doação na nossa página inicial e criamos vários fundos para facilitar a sua procura e selecção das opções de doação eficaz que são importantes para si; 
  • Receberá apoio e conselhos personalizados para grandes doações.

Fique atento para ver as actualizações sobre as nossas recomendações de instituições de caridade, logo que o modelo e as avaliações actuais tenham sido finalizadas. Entretanto, por favor, continue a doar às nossas instituições de caridade recomendadas, ao nosso novo Fundo de Investigação e à própria The Life You Can Save. 

Para ajudar a financiar o nosso trabalho de investigação e de avaliação, lançámos o Fundo de Investigação da The Life You Can Save, tendo como objectivo alcançar 378 000 dólares para o nosso trabalho de investigação em 2022.

Doar nos EUA     Doar na Austrália

 

* N. dos Trad. As recomendações quanto às mudanças climáticas entretanto já foram publicadas, aqui.


Publicado originalmente pela The Life You Can Save, a 29 de Novembro de 2021.

Tradução de Rosa Costa e de José Oliveira.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s