É perfeitamente aceitável ser um altruísta eficaz imperfeito

 Por Julian Hazell (Giving What We Can) 

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Sou um altruísta eficaz imperfeito? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Durante basicamente toda a minha vida, nunca pensei que pudesse ter muito impacto nos problemas mais prementes do mundo. Isso mudou quando li Famine, Affluence, and Morality (Pt. Fome, Riqueza e Moralidade) de Peter Singer.

Resumidamente, Singer argumenta que somos moralmente obrigados a ajudar os outros se o pudermos fazer sem um sacrifício significativo da nossa parte. Ele ilustra isto através da sua experiência mental da “criança a afogar-se”, que pergunta: será que entraríamos num lago de água rasa para salvar uma criança a afogar-se, se isso estragasse a nossa roupa? A grande maioria de nós diz que sim, o que leva a outra pergunta: porque não estaremos do mesmo modo dispostos a sacrificar os nossos recursos para salvar vidas que não estão à nossa frente?

Singer sublinha que não importa se a criança está à nossa frente — se podemos salvar vidas por relativamente pouco custo (o valor das roupas que estamos a usar, por exemplo), porque não o fazemos? Porque nos sentimos motivados para sermos altruístas em relação à criança que se afoga à nossa frente, mas não em relação àquelas que não vemos?

“Se está ao nosso alcance impedir que algo de mau aconteça, sem com isso sacrificar algo de importância moral comparável, devemos, moralmente, fazê-lo”. — Peter Singer

A simplicidade, a eficácia e a elegância do argumento central faziam todo o sentido para mim. Ao contrário da minha crença anterior de que eu era apenas um pequeno peixe num grande oceano, acontece que posso ter um impacto positivo na vida dos outros, muitas vezes de forma bastante substancial. Há crianças a afogarem-se (metaforicamente, neste caso), e eu tenho a obrigação de as ajudar. Melhor ainda, estou numa boa posição para ajudar, ao longo da minha vida, muitas crianças a afogarem-se, caso siga as provas e use um raciocínio cuidadoso. Isso é, ao mesmo tempo, entusiasmante e angustiante.

A experiência mental da criança a afogar-se era suficientemente poderosa para me fazer acreditar no projecto do altruísmo eficaz. Na verdade, eu não me limitei a acreditar — senti-me invadido por um sentido retumbante de motivação face à diferença que posso fazer.

Mas essa motivação logo se transformou em ansiedade quando comecei a lidar com o tipo de questões filosóficas e empíricas complicadas que surgem no momento de pôr em prática estes sentimentos de obrigação e ideias difusas.

“Bom, o que posso fazer para ajudar o maior número possível de pessoas?”, pensaria para mim mesmo. Qualquer coisa menos que isso significaria que alguém poderia não viver uma vida feliz. Este tipo de introspecção prática rapidamente se transformou em algo como, Raios, o que deveria estar a fazer para ajudar”?

Qualquer acção que pensava tomar era rapidamente afastada por um sentimento de incerteza que beirava o neuroticismo. “E se esta acção não for maximizar a quantidade de bem que eu faço?”, perguntava.

Este tipo de perguntas não seria seguido de respostas; em vez disso, seguir-se-iam ainda mais perguntas. Bolas.

O que é o maior bem? Quanto é que devo doar? E se doar para outro lugar aumentasse o meu impacto? Posso realmente justificar a compra desta sanduíche se em vez disso pudesse gastar numa rede mosquiteira? Terei realmente merecido alguma das coisas que possuo?

Aquilo que inicialmente era uma força de motivação, começou a transformar-se numa espiral de negatividade — que partia de um grau saudável de incerteza (como input), e expelia uma incessante sensação invasora de que estava a falhar no projecto do altruísmo eficaz (como output).

Essa foi a maneira errada de pensar, e desde então tenho vindo a aceitar o facto de que sou um ser humano que está a tentar fazer o melhor que pode, não uma espécie de maximizador omnisciente de um modelo económico. Esta tomada de consciência fez-me ser muito mais feliz e significativamente mais motivado para continuar a fazer o bem no mundo.

Estou a escrever este artigo porque não quero que sinta a ansiedade que eu senti. Quero ajudá-lo a sentir-se confortável com a incerteza, especialmente se for novo no altruísmo eficaz.

Eis porque razão é perfeitamente aceitável ser um altruísta eficaz imperfeito.

O mundo é confuso e complicado

O altruísmo eficaz é, quase por definição, complicado. Se não fosse, dispensaríamos a análise complexa porque já saberíamos exactamente o que fazer. Mas na prática pode ser realmente difícil encontrar as melhores formas de utilizar os nossos recursos para ajudar ao máximo os outros.

Realmente não percebemos completamente esta coisa do altruísmo eficaz, ao contrário da impressão que os recém-chegados possam ter. Há muitas perguntas sem resposta, análises incompletas, considerações difíceis e muito ruído envolvido em muitas das coisas com as quais os altruístas eficazes se preocupam. É importante lembrar que o altruísmo eficaz é levado a cabo por seres humanos, não por robôs — e  somos seres racionais com falhas, que devem orientar-se com informação incompleta, normas sociais, desejos pessoais, preconceitos cognitivos e recursos finitos.

Mas não faz mal. Caso se sinta desconfortável com esta incerteza, encorajo-o a introduzir simplicidade onde quer que possa. Irei descrever abaixo algumas regras práticas para o ajudar a começar. Estas podem ajudá-lo com as considerações complexas que o altruísmo eficaz muitas vezes exige, e podem fazer com que se sinta melhor sobre as acções que está a tomar para satisfazer essas exigências. Muitas vezes isto pode ser especialmente verdadeiro caso só tenha descoberto o altruísmo eficaz recentemente.

Regras práticas simplificadas podem estar erradas, mas ainda assim, muitas vezes são  úteis

Considere a abordagem da importância, tratabilidade e negligência (ITN), que nos ajuda a descobrir os tipos de problemas nos quais devemos trabalhar. O altruísmo eficaz mudou nos últimos anos, mas algumas coisas têm permanecido relativamente constantes. A abordagem ITN é um exemplo chave. Como a maioria dos outros modelos, a abordagem ITN tem falhas e é excessivamente simplificada. No entanto, apesar disso, tem permanecido relevante ao longo da última década, à medida que as ideias no seio da comunidade do altruísmo eficaz vão e vêm. Porquê? A minha opinião é que, embora a abordagem ITN seja imperfeita, ainda assim nos aponta geralmente na direcção certa em muitas circunstâncias. A capacidade dessa abordagem para dirigir o utilizador a uma resposta rápida, mas ainda assim, útil, permite-nos perdoar as suas insuficiências, daí que continue a ser uma das principais ferramentas do conjunto de ferramentas do altruísmo eficaz.

Portanto, sim, talvez haja outra ferramenta que lhe permita fazer um bem um pouco maior. Mas talvez fosse necessário dias de reflexão, 10 folhas de cálculo e 20 chávenas de café para lá chegar e, mesmo assim, poderia ainda ter uma sensação persistente de incerteza. Essencialmente, se este tipo de barreiras se opusesse realmente à sua actuação, a abordagem ITN seria a solução adequada.

Pode adoptar outras regras práticas que, tal como a abordagem ITN, podem aumentar o seu impacto, facilitar a sua vida e ajudá-lo a lidar com a ansiedade de não estar a fazer a escolha perfeita absoluta.

Como introduzir a simplicidade na prática

Caso doar eficazmente seja novo para si — ou mesmo que não o seja, mas valoriza manter a sua vida tão simples quanto possível — uma boa regra simplificadora seria seguir de perto as recomendações de avaliadores de instituições de caridade como a GiveWell ou os Animal Charity Evaluators. Estas organizações contratam pessoas inteligentes para passarem milhares de horas a desbravar as complexidades inerentes à avaliação da eficácia das instituições de caridade, algo que um indivíduo teria dificuldade em fazer sozinho. Pode tirar partido desse trabalho (sem custos para si próprio), seguindo as suas recomendações.

Em alternativa, poderia doar a fundos que contratam especialistas em concessão de fundos para distribuir as doações. Pense nisto como se estivesse a contratar o seu próprio consultor de impacto pessoal, só que de forma gratuita.

E note também que mais tarde pode sempre mudar o destino das suas doações, especialmente à medida que mudam os seus conhecimentos, considerações essenciais e crenças. Enquanto isso, estas opções são bons locais para começar.

Decidir quanto doar

Se não tem a certeza de quanto deve doar, comece por escolher uma regra simples e mantenha-se fiel a ela.

Algumas sugestões incluem:

  • Doar 10%
  • Doar aquilo de que não precisa
  • Doar a um nível médio (2 a 6%)
  • Doar aquilo de que não vai sentir falta

No caso de a abordagem “simples” o ajudar a iniciar alguma acção positiva, então deve considerar fortemente a possibilidade de agir de acordo com essa abordagem. Pode aumentar a partir daí e, a longo prazo, aperfeiçoar progressivamente a forma como toma as suas decisões.

Outras formas de simplificar a sua doação

Aqui estão algumas outras regras práticas que lhe poderão ser úteis (mas não hesite em criar as suas):

  • Estabeleça um pagamento automático a uma instituição de caridade altamente eficaz à sua escolha sempre que receba o seu rendimento na sua conta bancária.
  • Estipule um período de tempo específico todos os anos (por exemplo, três dias) para pesquisar instituições de caridade para apoiar e depois mantenha-se, o resto do ano, com as instituições de caridade que escolher.
  • Encontre um “amigo que doe eficazmente” com quem possa conversar uma vez por mês sobre o seu progresso na doação e quaisquer incertezas que possa estar a ter.
  • Escreva uma estimativa do impacto da sua doação (por exemplo, proteger 100 pessoas da malária durante dois anos) e reveja esta estimativa periodicamente para se lembrar do seu impacto.
  • Caso se sinta sobrecarregado com a quantidade de coisas a ler sobre o altruísmo eficaz, evite a sobrecarga de informação, criando o hábito de ler apenas um ou dois textos de blogues, artigos ou relatórios por semana. A longo prazo, tudo somado, será muito significativo!

Lembre-se, o impacto zero é garantido se não doar nada por medo de não escolher a melhor opção possível. Porém, a escolha de um ponto de partida imperfeito, mas ainda assim razoável (por exemplo, doar 5% do seu rendimento às instituições de caridade recomendadas pela GiveWell) é uma excelente forma de fazer o bem no mundo. O que quer que estejamos a fazer, nunca podemos ter a certeza absoluta de que estamos a maximizar algum objectivo abstracto, por isso devemos pelo menos começar por algum lado.

Por falar nisso, muitas vezes não conseguimos maximizar os nossos objectivos — mas não faz mal!

Não podemos realmente maximizar, mas podemos tentar o nosso melhor

Os altruístas eficazes usam frequentemente uma linguagem maximizadora como “o maior bem que podemos fazer” ou “maximizar a quantidade de bem que podemos fazer”. Mas isto pode ser difícil de implementar na prática quando estamos incertos sobre diferentes opções. Caso o altruísmo eficaz consista em tentar fazer o máximo de bem possível, estaremos a “falhar” se ficarmos aquém deste objectivo?

Não me parece. Praticamente nunca conseguiremos calcular que acções irão maximizar a quantidade de bem que fazemos, mas apontar numa direcção promissora parece ser uma boa regra prática. Sendo alguém que se preocupa com a eficácia, pode ser difícil sentir como se estivéssemos a deixar o impacto para trás. Mas pense no altruísmo eficaz como um jogo de longa duração — um jogo que deve ser realizado de forma sustentável e de uma forma que possa inspirar outros.

Pensamentos finais

O mundo é complicado e confuso, por isso aceite a incerteza e faça o seu melhor. Terá um impacto zero se não fizer nada, por isso comece por fazer algo que o coloque no caminho para maximizar o seu impacto (por exemplo, doe 1% dos seus rendimentos às nossas instituições de caridade recomendadas) e depois ajuste à medida que o tempo passa. Aposto que se sentirá bastante bem com o quanto estará a ajudar os outros se começar com tão pouco como 1%. Depois, à medida que aumentar esse número para 5%, e depois 10%, irá perceber porque é que uma doação eficaz pode ser tão gratificante e significativa.

Dar é um esforço a longo prazo, não um esforço que tenha de ser maximizado e optimizado ao longo de um ano. Não deve ser angustiante ou causar ansiedade, e deve ser algo que se veja a fazer ao longo da sua vida. Mais importante ainda, deve ter como objectivo dar o exemplo às pessoas que estão hesitantes, demonstrando que dar de forma significativa e eficaz não é apenas compatível com viver uma vida feliz e gratificante, mas é parte integrante da vida. Se a doação o está a deixar angustiado ou ansioso, outros poderão não querer seguir o seu exemplo, por isso lembre-se de cuidar de si.

Afinal de contas, somos seres imperfeitos que gostariam de viver num mundo perfeito. Tudo bem — ainda assim podemos fazer um progresso substancial se repararmos na incerteza e complexidade que nos rodeia e, independentemente disso, agirmos.


Publicado originalmente por Julian Hazell na Giving What We Can, a 7 de Março de 2022 e actualizado 8 de Março de 2022.

Traduzido por Rosa Costa e José Oliveira.

Um comentário sobre “É perfeitamente aceitável ser um altruísta eficaz imperfeito

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