Como ajudar os refugiados para além da Ucrânia

Por Sigal Samuel (Future Perfect / Vox)

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Refugiados, devemos ajudar TODOS? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

A guerra na Ucrânia captou a atenção do mundo, tal como deveria ser. A devastação é trágica, e tem sido animador ver governos e cidadãos comuns a interessarem-se verdadeiramente pelos refugiados ucranianos e a doarem generosamente para os ajudar.

Ao mesmo tempo, temos de nos interrogar porque não estamos tão atentos e não somos tão altruístas em relação a outros refugiados em todo o mundo em circunstâncias igualmente dramáticas. Muitos de nós estão a doar tempo, dinheiro, e até a usar o Airbnb para ajudar os ucranianos — mas quantos de nós fizeram o mesmo pelos refugiados do Iraque? Myanmar? Sudão do Sul? Iémen

“Os refugiados ucranianos têm despertado muita atenção e compaixão e isso é um enorme contraste com outros grupos”, disse Lamis Abdelaaty, uma cientista política da Universidade de Syracuse que investiga porque é que o mundo trata alguns refugiados melhor do que outros. “Em primeiro lugar, tem a ver com a identidade das pessoas que estão a fugir da Ucrânia. São vistos como brancos e cristãos. As pessoas tendem a simpatizar com os refugiados que pensam partilhar a sua identidade”. 

Poderá ter visto a discriminação com base na raça e religião a infiltrar-se nas reportagens dos meios de comunicação social. Veja-se, por exemplo, a correspondente da NBC News, Kelly Cobiella, que disse que “estes não são refugiados da Síria, são refugiados da Ucrânia… são cristãos, são brancos, são muito parecidos connosco”. 

Ou veja-se o correspondente sénior da CBS Charlie D’Agata, que disse em Kyiv que “este não é um lugar, com todo o respeito, como o Iraque ou o Afeganistão… Esta é uma cidade relativamente civilizada, relativamente europeia — também tenho de escolher cuidadosamente estas palavras — onde não se esperaria que isto acontecesse”.

A política externa é também um factor relevante, assim como também se justifica a indignação moral face à invasão de um país por outro. “É um facto importante que os ucranianos estejam a fugir de uma invasão pela Rússia”, disse Abdelaaty. “Estar especialmente receptivo em relação a eles e acolhê-los é uma forma poderosa de condenar esta agressão… de enviar um sinal de que se está do lado da democracia”. Tanto os governos como os cidadãos comuns têm a oportunidade de se posicionarem numa narrativa satisfatória: alinhados com o Herói, lutando contra o evidente Vilão.

No entanto, Abdelaaty disse-me: “A minha esperança é que esta crise leve as pessoas a pensarem profundamente sobre o porquê de terem empatia face a certas pessoas em detrimento de outras e isso leve as pessoas a reconhecerem que todos os refugiados são igualmente merecedores da nossa compaixão”.  

 

O mito do refugiado “merecedor”

No mundo, o número de pessoas deslocadas à força atingiu um nível recorde — 84 milhões na contagem do ano passado, mais do que toda a população da Alemanha e mais do dobro do número de uma década atrás. Estão a fugir das suas casas por razões que vão desde violações dos direitos humanos (como no Afeganistão) a fomes e inundações impulsionadas pelas alterações climáticas (como no Sudão do Sul). 

Mas, dependendo de quem são estas pessoas deslocadas e de onde vêm, o mundo tende a olhar para elas de forma muito diferente.

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“Há uma dicotomia que tende a ser traçada entre o refugiado «merecedor» e o migrante «não merecedor»”, disse Abdelaaty. 

Ao abrigo da Convenção sobre Refugiados de 1951, ratificada quando o mundo ainda lidava com milhões de pessoas deslocadas durante a Segunda Guerra Mundial, um refugiado é alguém que foge da perseguição que lhe é dirigida como indivíduo com base na sua raça, religião ou opiniões políticas. A maioria dos ucranianos não se qualificaria para o estatuto de refugiado porque foge da violência generalizada, em vez de ser especificamente visado por um destes critérios, explicou Abdelaaty. 

No entanto, os governos e os meios de comunicação social foram rápidos a rotulá-los de refugiados — em contraste com a reacção em 2015, quando houve aceso debate sobre se se deveria chamar “refugiados”ou “migrantes” às pessoas que chegavam à Europa. A utilização do termo “migrantes” para descrever os sírios teve provavelmente um impacto negativo na opinião pública a seu respeito. 

“O facto de os ucranianos estarem a ser rotulados como refugiados significa, para muitas pessoas, que são merecedores, porque estão a ser forçados a mudar-se. Enquanto na linguagem popular, as pessoas que são migrantes estão a escolher mudar-se e por isso não são merecedoras da nossa compaixão”, disse Abdelaaty. “Mas eu apelaria às pessoas para que considerassem se as pessoas que se estão a deslocar porque estão a fugir da pobreza esmagadora ou dos efeitos das alterações climáticas são menos merecedoras da nossa compaixão. Eu diria que não”.

 

Como pode ajudar eficazmente os refugiados  

Todos os refugiados precisam de apoio e a maioria das crises de refugiados são sub-financiadas — especialmente as que saíram do foco das atenções dos meios de comunicação social ou que nunca chegaram sequer a sê-lo. Antes da guerra na Ucrânia, 85% dos refugiados do mundo viviam em países de baixos e médios rendimentos, frequentemente em muito maior número do que nos países ricos. A Turquia, por exemplo, ainda acolhe 3,6 milhões de refugiados sírios. (Os EUA, pelo contrário, alojaram menos de 12 000 refugiados no total no ano fiscal de 2020). Estes países muitas vezes não têm os recursos para apoiar o seu próprio povo, quanto mais milhões de recém-chegados.

É por isso que Helen Dempster, uma directora assistente do Centro para o Desenvolvimento Global, diz: “Os países vizinhos da Ucrânia, como a Polónia, definitivamente precisam de apoio, embora eu argumentasse que não precisam de tanto apoio como os países de baixos e médios rendimentos que têm acolhido refugiados durante anos ou décadas”. 

O ACNUR, a agência das Nações Unidas para os refugiados, fornece uma lista anual das crises mais negligenciadas financeiramente. Aqui está a lista mais recente: 

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Então, como pode ajudar? 

Antes de mais, pode doar a organizações que estejam a fazer um trabalho eficaz, transparente e responsável. Abdelaaty e Dempster recomendaram várias que estão a apoiar os refugiados e as comunidades de acolhimento no terreno: o Comité Internacional de Salvamento, o ACNUR, a Oxfam, e os Médicos sem Fronteiras. É melhor se fizer uma doação sem restrições, permitindo que o seu dinheiro seja utilizado onde e quando for mais necessário.  

Se quiser realmente apoiar pessoas numa crise específica, Dempster recomendou a doação de dinheiro directamente às pessoas afectadas através da GiveDirectly ou a verificação de organizações locais através da GlobalGiving. (Declaração de intenções: fiz donativos à GiveDirectly em 2021).

Também pode doar a uma organização sem fins lucrativos que defenda mudanças políticas sistémicas que beneficiarão as populações de refugiados. Uma organização com um forte historial de obtenção de resultados é o International Refugee Assistance Project [Pt. Projecto Internacional de Assistência aos Refugiados], que defende reformas no programa de realojamento nos EUA, ao mesmo tempo que presta assistência jurídica a pessoas deslocadas em todo o mundo.

Para além das doações, pode desempenhar um papel importante pressionando o seu governo a fornecer suficiente ajuda às pessoas no terreno e a ser receptivo aos recém-chegados que estão a chegar às fronteiras do seu país. 

Se estiver nos EUA, por exemplo, pode contactar os seus representantes para dizer à administração Biden que acabe com o Título 42, uma política da era Trump que bloqueia o acesso dos deslocados da América Central, Haiti e de todo o mundo ao seu direito de pedir asilo. Pode também contactar os seus representantes para lhes dizer que aprovem a Lei de Ajustamento do Afeganistão para dar aos afegãos evacuados um estatuto legal permanente nos EUA. Ou pode você mesmo patrocinar uma família afegã refugiada


Publicado originalmente por Sigal Samuel na Newsletter do Future Perfect da Vox, a 18 de Março de 2022.

Traduzido por Rosa Costa e José Oliveira

 

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