Como ajudar os ucranianos

Por Kelsey Piper (Vox)

Ajudar a Ucrânia

Como ajudar a Ucrânia? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Enquanto o mundo assiste horrorizado à guerra de conquista da Rússia na Ucrânia, há uma questão que continuo a ver repetidamente: Como podemos ajudar?

É uma boa pergunta —  e que é muito difícil de responder bem. 

Após grandes catástrofes naturais, há quase sempre uma explosão de compaixão e um desejo de ajudar. O tsunami asiático de 2004 inspirou mais de 6 mil milhões [Br. 6 bilhões] de dólares em doações para um fundo central de ajuda humanitária da ONU, enquanto que o terramoto de 2008 no Haiti gerou uma quantia extraordinária que se estima em 13,5 mil milhões [Br. 13,5 bilhões] de dólares em doações e ajuda. Quase metade dos americanos relataram ter doado para a ajuda humanitária do furacão Katrina, e quase três quartos doaram para a ajuda do 11 de Setembro.

Os seres humanos são solidários no seu todo e quando vêem coisas horríveis a acontecer querem ajudar. Mas pode ser incrivelmente difícil assegurar-se de que as doações obtêm resultados. Com demasiada frequência, grande parte delas é desperdiçada.

Numa situação como a guerra na Ucrânia, todas essas dificuldades são agravadas. Existem os problemas clássicos da ajuda de emergência: como identificar as organizações que estão de facto a trabalhar no terreno? E como saber quais delas estão a usar cinicamente a crise para angariar fundos? 

Para além destas incógnitas, há questões adicionais que normalmente não temos de considerar na avaliação de doações à caridade: Será que certas formas de intervenção estrangeira aumentariam o risco de um erro de cálculo catastrófico e de uma guerra nuclear? (Vi conselhos para pressionar os seus representantes do Congresso a impor uma zona de exclusão aérea, por exemplo, mas isso é uma ideia terrível). Em que medida serão exactas as informações que estamos a obter, muitas delas filtradas pelas redes sociais? Se a Ucrânia for conquistada pela Rússia na próxima semana —  o que é uma possibilidade muito real —  o que acontecerá aos fundos angariados para o esforço de guerra?

Passo muito tempo a pensar em doações à caridade e em como fazer o bem com recursos limitados, mas estas são questões difíceis que ninguém está especialmente preparado para enfrentar. 

Uma resposta muito honesta à pergunta “como podemos ajudar” é que embora a heróica luta da Ucrânia pela democracia deva deixar-nos a todos orgulhosos e ninguém deva ignorar as centenas de milhares de ucranianos feitos refugiados pela guerra, as formas mais eficazes de fazer o bem com recursos limitados continuam a ser as mesmas que existiam antes de as forças russas terem atravessado a fronteira. Isso significa enfrentar desafios de longo prazo que são negligenciados e ignorados, como a luta contra a mortalidade infantil em lugares pobres — e necessariamente não no foco da crise que temporariamente paralisou o mundo inteiro. 

Ainda assim, digamos que já estabeleceu o seu orçamento para tentar melhorar o mundo o mais eficazmente possível, mas ainda assim sente o dever, como membro do mundo livre, de fazer algo pela Ucrânia especificamente. O que deveria ser?

Existem formas eficazes de ajudar. Depois de ler os conselhos sobre esta questão de jornalistas políticos e altruístas eficazes, e depois de falar com cidadãos de nações afectadas pela crise da Polónia à Rússia, aqui estão as minhas melhores sugestões. 

Ajudar os refugiados em fuga da guerra na Ucrânia

Os vizinhos da Ucrânia abriram as suas fronteiras a civis que fugiam do conflito, e rapidamente se viram a cuidar de centenas de milhares de pessoas desesperadas, muitas delas mães e crianças pequenas. À medida que o conflito avança, esse número pode aumentar para os milhões. 

Os países de acolhimento podem absorver muito mais em donativos do que estão a receber, mas a chave é identificar as organizações que irão efectivamente colocar o dinheiro a bom uso na alimentação, alojamento e assistência aos refugiados. As organizações recomendadas incluem a Polish Humanitarian Action, a Polish Association for Legal Intervention pelos direitos dos refugiados, o Polish Center for International Aid, o HIAS e o seu parceiro ucraniano R2P

Imprensa da oposição na Rússia

Outra opção é doar a organizações de comunicação social na Rússia que não são controladas pelo regime de Putin. Estas podem dizer aos cidadãos russos a verdade sobre a guerra e ajudar a apoiar os protestos crescentes que aí se desenrolam. O Meduza (jornal online russo e agregador de notícias) e o  OVD-Info (um serviço russo de direitos humanos) foram ambos recomendados por altruístas eficazes interessados na liberdade dos meios de comunicação social na Rússia.

Contribuir directamente para a defesa nacional da Ucrânia

Bem-vindo à guerra na era do crowdfunding: Os militares ucranianos convidaram cidadãos de todo o mundo a doarem directamente aos militares ucranianos, inclusive com criptomoedas, e têm sido inundados por milhões em donativos. Os fundos irão apoiar os militares ucranianos durante todo o tempo que se aguentarem. É muito difícil avaliar isto como uma oportunidade de doação caridosa — e tenha em mente que a ajuda aos militares de um país não levará a uma dedução nos impostos — mas é uma opção legítima. Amigos meus confirmaram que agora funciona com cartões de crédito normais dos EUA. (No início desta semana, as transferências foram bloqueadas por muitos bancos dos EUA como sendo provavelmente fraudulentas).

Apoio à acção política

Há alguns dias, quando comecei a trabalhar nesta publicação, foi dada uma grande ênfase à acção política — falar com os vossos representantes do Congresso e deixar-lhes claro que os seus eleitores estão dispostos a suportar preços de gás mais elevados para apoiar os ucranianos que morrem pela sua liberdade. 

Neste ponto, há aparentemente menos necessidade desse tipo de abordagem política. Os EUA e a UE têm estado surpreendentemente unidos no lançamento de um pacote devastador de sanções financeiras que estão a desencadear uma catástrofe económica na Rússia. Ninguém sabe se isto fará Putin recuar, e os custos para o cidadão comum russo, que é em grande parte inocente nesta trágica confusão, são horríveis. Mas é evidente que se estão a envidar todos os esforços. 

Será importante, no entanto, manter a Ucrânia na mente dos seus representantes quando a cobertura noticiosa de 24 horas tiver cessado. A coisa mais valiosa que podemos fazer pode ser marcar um lembrete para ligar daqui a um mês. Esperemos que isso seja para os pressionar a financiar a reconstrução de uma Ucrânia vitoriosa mas, se necessário, terão de financiar o realojamento e a ajuda a milhões de pessoas deslocadas por uma ocupação russa em curso. 

Não ignore o impulso de ajudar

O impulso humano para a compaixão está subjacente a muito do trabalho que faço para descobrir como fazer do mundo um lugar melhor. Uma lição que aprendi é esta: A maioria das pessoas quer que os outros fiquem bem. Querem que o mundo seja seguro e livre. E estão dispostas a sacrificar o seu dinheiro e, quando necessário, até as suas vidas para que isso aconteça. 

Mas para que o futuro se torne melhor do que o passado, essa compaixão deve ser acompanhada de um compromisso sério para compreender plenamente o que se passa e de uma vontade implacável de dar prioridade a um mundo que não tem falta de problemas urgentes. 

Por vezes, isso significa transformarmos-nos num frustrante desmancha-prazeres, contabilizando os inconvenientes de diferentes cursos de acção num momento em que a maioria das pessoas simplesmente quer fazer alguma coisa, qualquer coisa. Por vezes significa testemunhar os horrores na Ucrânia — e depois doar para a erradicação da malária, porque é uma forma muito mais eficiente e exequível de salvar as vidas de crianças, incluindo aquelas cuja situação nunca será mostrada num noticiário de televisão.

Mas essa dura racionalidade não tem de estar em desacordo com a compaixão, ou com a raiva, ou com um profundo apreço pelos heróis que arriscam as suas vidas na Ucrânia por ideais em que todos nós acreditamos. E para o resto de nós: Dê o seu melhor, seja lá o que isso for.


Publicado originalmente por Kelsey Piper na Newsletter da Vox, a 1 de Março de 2022

Tradução de José Oliveira.

 

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