O mundo está realmente a piorar?

Por Shakeel Hashim (Giving What We Can)

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O mundo está realmente a piorar? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Pode ser difícil olhar para as notícias nos dias que correm sem nos sentirmos tristes. Pandemia, guerra, mudanças climáticas – as coisas podem parecer realmente sombrias. Caso se sinta assim, não é o único: numa sondagem de 2015, apenas 6% dos americanos e 4% dos britânicos pensavam que o mundo estava a melhorar.

Embora algumas coisas como a desigualdade de rendimentos ou os maus-tratos a animais não humanos pareçam estar a piorar, há dados surpreendentes que mostram que algumas coisas estão muito melhor do que se imagina. Face a diversos indicadores – pobreza, saúde, segurança – as coisas estão muito, muito melhores do que costumavam estar. As pessoas têm vidas mais longas, mais felizes e mais saudáveis do que nunca. Fizemos um tremendo progresso na melhoria da vida das pessoas, mesmo nas últimas duas gerações, e podemos desempenhar um papel significativo para garantir que continuamos esse progresso. Mas, para isso, precisamos de ter uma visão equilibrada sobre se o mundo está a melhorar ou a piorar.

Vamos começar por ver como ficou melhor.

A pobreza diminuiu

Como exemplo do progresso que fizemos, tomemos a pobreza: desde 1990, mais de mil milhões [Br. mais de 1 bilhão] de pessoas foram retiradas da pobreza extrema, embora a população mundial tenha aumentado 2,5 mil milhões [Br.2,5 bilhões] de pessoas.

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Numa perspectiva mais alargada, as coisas parecem ainda melhores. Há apenas 200 anos, cerca de 90% da população vivia em pobreza extrema. Em 2018, era cerca de 10%.

A redução da pobreza global permitiu todo o tipo de outras mudanças positivas. A esperança de vida disparou em todo o mundo, em África aumentou mais do dobro desde 1900.

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A saúde melhorou

O número de crianças que morrem também está a cair rapidamente – o número total de mortes de menores de 5 anos foi reduzido para menos de metade entre 1990 e 2019, mesmo depois de se considerar o crescimento populacional.

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E estamos realmente a fazer grandes progressos na eliminação de algumas das facetas mais mortíferas da vida, como a malária, a desnutrição e a poluição do ar. As mortes por malária, só em África, foram reduzidas quase para metade em apenas 15 anos.

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Estamos a tornar-nos mais escolarizados 

As melhorias não se limitam apenas à saúde e à pobreza. As pessoas também estão a ter mais acesso à educação do que nunca; e embora em 1800, 88% das pessoas fossem analfabetas, em 2015, 86% das pessoas eram alfabetizadas.

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A violência diminuiu

Mesmo nos casos em que as coisas tenham piorado a curto prazo, observar as tendências a longo prazo coloca esse mal em perspectiva. Vejamos as mortes violentas causadas pela guerra: observando as tendências a curto prazo, vemos que as coisas pioraram na década de 2010, e isso pode continuar na década de 2020 devido à guerra a decorrer na Ucrânia. Mas as coisas eram muito piores no século XX:

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E as mudanças climáticas?

As mudanças climáticas são outro exemplo em que, embora as coisas estejam mal e o progresso seja lento, podemos estar a progredir um pouco mais do que imaginamos. Sim, as temperaturas globais estão a aumentar e as emissões globais de CO2 também estão a aumentar. Mas se nos concentrarmos em alguns dos principais poluidores, podemos ver que os defensores da redução de emissões estão a começar a atingir os seus objectivos: as emissões estão a cair nos EUA, na União Europeia e no Reino Unido.

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O CO2 com base no consumo também diminuiu (embora mais lentamente), apesar de as populações terem crescido e de o PIB ter aumentado.

A quantidade de energia gerada por fontes renováveis também está a aumentar rapidamente. Na verdade, a implantação da energia solar superou repetidamente as melhores previsões dos especialistas.

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No entanto, algumas coisas pioraram

Mas todo esse progresso não significa que podemos descansar à sombra dos nossos sucessos.

Por um lado, existem alguns indicadores importantes face aos quais as coisas estão a piorar – e precisamos de fazer algo a esse respeito. Vejamos a desigualdade, que tem vindo a piorar bastante em muitos países, principalmente nos Estados Unidos. E embora tenhamos reduzido a pobreza globalmente, cerca de 700 milhões de pessoas ainda vivem com menos de 1,90 dólares por dia – e isso significa que são 700 milhões a mais. Enquanto isso, a maior parte do mundo vive com menos de 10 dólares por dia, o que ainda é muito menos do que aquilo a que as pessoas nos países ricos estão acostumadas. Existem maneiras comprovadas de melhorar as condições económicas dessas pessoas, tais como as transferências de dinheiro: só precisamos de doar mais dinheiro para o conseguir.

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E os animais não humanos?

Além disso, embora as coisas tenham melhorado para os seres humanos, estão a ficar muito piores para os animais não humanos. A biodiversidade está a cair a pique, enquanto que a produção de carne está a aumentar. Isso significa mais animais não humanos em cativeiro, muitos dos quais estão (e irão estar) a viver em condições terríveis. Caso se preocupe com o bem-estar dos animais não humanos, essa é uma tendência muito alarmante – e isso significa que há muito a fazer para se melhorar o bem-estar animal.

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O risco de extinção humana

Talvez a tendência mais preocupante de todas seja o aumento significativo dos riscos existenciais. Como escreveu o filósofo de Oxford e co-fundador da Giving What We Can, Toby Ord, “pela primeira vez na longa história da humanidade, temos a capacidade de nos destruirmos”. Inventámos ferramentas incrivelmente poderosas, como armas nucleares, biotecnologia e inteligência artificial, todas com potencial para acabar com a civilização conforme a conhecemos. E temos prejudicado o meio ambiente a tal ponto que as mudanças climáticas provavelmente irão causar danos a muitas pessoas e, nos piores cenários, pode até levar à nossa extinção. Isso significa que, embora a maioria das coisas tenha melhorado ao longo do tempo, os riscos de extinção humana ou o colapso irrecuperável da civilização estão a aumentar, não a diminuir. Ord pensa que, embora o nosso risco existencial tenha sido de cerca de 1% ao longo do século XX, o risco actual de catástrofe existencial nos próximos 100 anos é de 17%.

Esse é um número realmente alto, e é por isso que Ord e muitos outros activistas doam para iniciativas que possam diminuir esse risco existencial. Fizemos tanto progresso no século passado, e seria uma pena se as gerações futuras não estivessem por cá para o apreciar.

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Devemos ser optimistas acerca de como o mundo pode ser muito melhor

Quando nos empenhamos, conseguimos realmente fazer a diferença.

 Felizmente, mais e mais pessoas parecem estar a perceber que: a quantidade de dinheiro dedicada a doações eficazes aumentou mais de 30% por ano desde 2015. Alcançámos imenso no último século, e ainda há muito que podemos fazer. Tal como Holden Karnofsky da Open Philanthropy demonstrou, durante a maior parte da história humana, o nosso bem-estar estava bastante estagnado ou a piorar. O grande aumento (relativamente) recente que vimos no bem-estar, deve-se apenas a uma quantidade fenomenal de esforço e ao desenvolvimento tecnológico. Esse progresso deve deixar-nos optimistas face àquilo que se pode alcançar quando nos concentramos nisso – e deve ajudar-nos a imaginar o quanto o mundo pode ser melhor para as gerações futuras, se continuarmos a trabalhar para melhorá-lo.

Cada um de nós tem o poder de ajudar nesse processo: ao doar para uma das instituições de caridade altamente eficazes que recomendamos, podemos contribuir para reduzir a pobreza, combater as mudanças climáticas e salvaguardar o futuro a longo termo. Também pode levar o seu impacto ainda mais longe ao utilizar a sua carreira para trabalhar directamente nesses tipos de problemas. Por meio de um trabalho como esse, podemos deixar o mundo melhor do que o encontrámos – e garantir vidas melhores para as próximas gerações.

Recursos para mais informação


Publicado originalmente por Shakeel Hashim no blog da Giving What We Can, a 28 de Abril de 2022.

Tradução de Rosa Costa e José Oliveira.

 

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