3 grandes ideias sobre o clima

Por Kelsey Piper (Vox)

CriseClimática-3saídas.fx

Crise climática, 3 saídas? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Olá leitores,

Na semana passada, publiquei um artigo sobre o decrescimento, uma ideia radical para combater as alterações climáticas através da contracção propositada da economia nos países ricos.

A minha crítica centrou-se no facto de que a agenda política promovida pelos apoiantes do decrescimento, na realidade, não iria fazer grande coisa pelo combate às alterações climáticas. Serviços universais de saúde, maior igualdade social, menos obsolescência programada dos nossos bens, mais tempo de lazer — todos estes são objectivos que valem a pena! Mas, e quanto à luta contra as alterações climáticas? Essas ideias simplesmente não chegam lá. Não é pelo seu radicalismo que não concordo com o decrescimento — de facto, como argumentei, o problema era as suas propostas fundamentais não serem suficientemente radicais.

É evidente que os problemas radicais exigem soluções radicais. A questão é: Que soluções radicais serão na realidade eficazes?

Esta questão é mais urgente do que nunca. O mais recente relatório do IPCC [Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas] defende que há aqui muito em jogo e que, se a humanidade não fizer nada para enfrentar a crise climática, estaremos numa trajectória que irá custar milhões, talvez centenas de milhões de vidas.

Há soluções que sabemos que irão funcionar e que já estão misturadas com o discurso dominante acerca do clima já há algum tempo: pensemos nos impostos sobre as emissões do carbono, no investimento em investigação e desenvolvimento (I&D) adicional para obter energia verde, no pagamento para acelerar a transição para a energia solar, na regulamentação de poluentes. Mas também deveríamos estar a lançar as bases para algumas apostas maiores.

Eis algumas ideias radicais que podem na realidade causar um impacto significativo nas alterações climáticas. Uma agenda política que as impulsione pode ou não ser politicamente plausível, mas cada passo no progresso que fazemos tem o potencial de reduzir realmente os riscos para a humanidade.

Acabar com a carne animal

As pessoas gostam de comer carne, e a pecuária industrial consegue torná-la acessível a um baixo preço — mas a um custo astronómico para o ambiente e para os animais. Actualmente, cerca de um sétimo das emissões mundiais de gases com efeito de estufa provém da pecuária.

Satisfazer a procura mundial de proteínas através da criação e abate de animais às dezenas de milhares de milhões [Br. dezenas de bilhões] simplesmente não é sustentável. É por isso que a carne sem carne parece tão promissora — com I&D suficiente, espera-se que esta consiga ser suficientemente boa (e acessível) para substituir a criação de animais e satisfazer a procura mundial de proteínas sem a pecuária industrial. Um modesto investimento governamental em I&D  poderia contribuir bastante para esta indústria emergente.

Mas os consumidores não precisam de esperar por esse futuro. Mesmo antes da carne sem carne ser aperfeiçoada, os consumidores podem fazer a sua parte, reduzindo. Este é um dos poucos domínios onde a acção individual realmente importa — se um número suficiente de pessoas comer menos carne animal, esta será menos produzida menos.

E não é necessário tornar-se completamente vegetariano ou vegano para se verem grandes resultados — comer carne um dia por semana em vez de sete irá fazer a diferença.

Investir na captação e armazenamento de carbono

Existe uma certa divisão na comunidade de activistas climáticos entre soluções que são consideradas “radicais” — e que são geralmente políticas, como o decrescimento — e soluções que são consideradas de natureza tecnocrática e tecnológica, como inventar melhores baterias, melhores painéis solares e métodos eficientes de captação de carbono.

É uma divisão estranha. Muitas das mudanças mais radicais da história têm sido fundamentalmente tecnológicas — a electricidade, a industrialização, o controlo de natalidade, a internet. Espera-se que o mesmo se aplique ao armazenamento e captação de carbono

A maioria das propostas sérias para utilizar a captação de carbono para enfrentar as alterações climáticas são propostas para se dedicar uma parte significativa da nossa riqueza, como sociedade, a limpar o próprio ar para remover as provas da nossa presença. Uma genuína utilização em larga escala de captação de carbono, alimentada por energia verde, seria um investimento radical para travar as alterações climáticas.

Neste momento, existem algumas tecnologias de captação de carbono que funcionam — assumindo que as suas acentuadas necessidades energéticas possam ser satisfeitas com fontes de energia renováveis — mas essa tecnologia ainda está a dar os seus primeiros passos. Esperemos que sejam descobertos métodos mais eficientes, à medida  que realmente investimos para que isto aconteça.

Continuar a explorar a geoengenharia solar 

A ideia por detrás da geoengenharia solar é simultaneamente simples e extravagante: pulverizar químicos no céu para reflectir a luz solar de volta para o espaço e contrariar os efeitos do aquecimento global.

Fazê-lo correctamente irá exigir cautela, uma enorme quantidade de  investigação, e um plano para lidar com efeitos inesperados. Até há pouco tempo, a geoengenharia solar era de certa forma um tabu nas discussões sobre o clima, com muita especulação sobre os riscos dos inconvenientes — por exemplo, a melhoria das condições numa parte do mundo ser compensada por condições piores noutra parte.

É reconhecidamente arriscado, mas dado o ponto em que nos encontramos na luta contra o clima, o risco do inconveniente de não se investigar possíveis soluções também aumentou. Um artigo de 2019 na Nature Climate Change concluiu que os riscos são muito menores se a geoengenharia solar for feita em menor escala, e que mesmo em pequena escala poderia reduzir o aquecimento para metade, o que nos daria tempo para que outras soluções funcionassem.

A humanidade não pode esperar

Estas ideias não são, de modo algum, as únicas que valem a pena considerar — são apenas o que o limite de palavras nesta newsletter podia conteracomodar!

Assim, de memória, há outras grandes ideias que valem a pena explorar. Estou entusiasmada com os planos, nos EUA, de comprar todas as centrais a carvão e substituí-las por energias renováveis — o que na realidade pouparia dinheiro — e tenho-me questionado se os países ricos poderiam pagar pelo mesmo no resto do mundo. Deveríamos fazer mais investigação sobre propostas para recongelar os pólos e fertilizar os oceanos. Está para breve uma peça na Vox da nossa equipa climática sobre o impacto excessivo dos gases refrigerantes e do metano, e como ao lidar-se com estes se poderia resolver uma grande parte do problema.

Algumas das ideias que circulam por aí parecem inatingíveis; outras estão muito mais desenvolvidas e só precisam de um empurrão extra. A questão é que estamos a ficar sem tempo na luta contra o clima, e precisamos de examinar todas as ideias que há por aí — e desenvolver as que consideramos eficazes.

E também há ideias que não são tão radicais, que já conhecemos há muito tempo, como as que foram mencionadas acima: impostos sobre as emissões de carbono, subsídios para o desenvolvimento de energia limpa, regras apertadas sobre os poluentes. O importante é que julguemos as ideias com base em funcionarem ou não — o que nos irá apontar soluções, algumas serão aborrecidas, talvez umas poucas sejam bastante radicais.


Publicado originalmente por Kelsey Piper na Newsletter da Vox, a 10 de Agosto de 2021.

Tradução Rosa Costa e José Oliveira.

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