Variantes de Covid-19: Temos de vacinar o mundo para evitar variantes mais perigosas.

Por Kelsey Piper (Vox)

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Novas variantes, como impedi-las? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

A variante delta mudou a luta contra a Covid-19 nos Estados Unidos. Antes de se ter alastrado, os casos encontravam-se em declínio acentuado, especialmente nas zonas do país com elevada vacinação. Começava a parecer que a maioria das pessoas vacinadas poderia esquecer tudo sobre a Covid-19 e voltar às suas vidas.

Agora, os casos atingiram um pico mesmo em áreas altamente vacinadas, o CDC [Centro de Controlo e Prevenção de Doenças] recomendou um regresso ao uso de máscara em espaços interiores mesmo para pessoas vacinadas, e o dia em que os americanos possam parar de pensar na Covid-19 parece tão distante como nunca.

Isso já seria suficientemente mau. A política de saúde global da América está a piorar a situação do país.

Em países de baixos rendimentos, apenas 1% das pessoas receberam uma dose da vacina, e o acesso às vacinas de mRNA, que funcionam melhor contra a delta, é basicamente inexistente. O Covax, o esforço internacional para fornecer vacinas a nações necessitadas, tem enfrentado dificuldades por questões de financiamento e de abastecimento. O fracasso em vacinar o mundo pode configurar a base de uma reviravolta ainda pior na pandemia: o surgimento de uma nova variante mais infecciosa e possivelmente ainda mais mortífera.

Podem surgir novas variantes do coronavírus sempre que o vírus tenha a oportunidade de infectar pessoas e de se multiplicar no corpo humano. A notícia tranquilizadora é que, apesar dos vírus mudarem constantemente, a maioria dessas mutações são insignificantes e não são prejudiciais. Mas se lançarmos os dados vezes suficientes — se dermos oportunidades suficientes a um vírus — o vírus pode adquirir mutações que pioram a Covid-19.

Com uma política de saúde global que não tem dado prioridade suficiente à vacinação, o mundo está a lançar os dados repetidamente. Não é necessário que assim seja. Vacinar o mundo inteiro é exequível e até mesmo comportável. Um cálculo coloca o custo total em 50 a 70 mil milhões [Br. 50 a 70 bilhões] de dólares — uma ninharia em comparação com o custo de um novo surto. Uma campanha global deste tipo reduziria drasticamente as probabilidades de aparecerem novas variantes.

O fracasso dos EUA em assumir a liderança nesse aspecto não é apenas um fracasso humanitário e moral. Como a delta revela, é também uma incrível falta de visão e é terrível para a própria segurança sanitária dos Estados Unidos.

Explicação das Variantes

Para se entender por que razão a vacinação do maior número possível de pessoas é essencial para evitar variantes novas e mais mortíferas, talvez valha a pena explicar resumidamente como surgem as variantes.

Quando um vírus infecta alguém, este força as células dessas pessoas a fazerem milhares de milhões de cópias do RNA que compõe o seu código genético. Para a Covid-19, calcula-se que o corpo de uma pessoa infectada possa produzir entre 1000 milhões e 100 mil milhões [Br. 1 bilhão e 100 bilhões] de cópias do coronavírus.

Ora, o processo de cópia não é totalmente perfeito, e quase todos esses milhares de milhões de cópias serão diferentes do vírus original em alguns pequenos detalhes.

Na maioria das vezes, essas diferenças — introduzidas por erros da cópia — não irão ter efeito, ou irão tornar o vírus menos eficaz a infectar as pessoas. Uma metáfora pode ajudar a explicar a razão: Imagine que tem um livro. A maioria das possíveis transposições aleatórias de letras irá tornar o livro pior. Uma transposição de letras que torne o livro melhor seria excepcionalmente rara.

A maioria das alterações possíveis ao RNA da Covid-19 são provavelmente péssimas para o vírus com a mutação, ou simplesmente irrelevantes. No início da pandemia, havia um grande pânico relacionado com variantes que se revelaram relativamente inofensivas — não eram particularmente diferentes da SARS-CoV-2 original.

Eventualmente, no entanto, um lançamento azarado dos dados pode produzir algumas alterações aleatórias no genoma da Covid-19 que a poderiam tornar mais transmissível, mais virulenta ou com mais capacidade de escapar às protecções imunitárias proporcionadas pelas vacinas.

“Ao manter o número de casos tão altos, aumenta a probabilidade de, mais cedo ou mais tarde, acertar no jackpot“, disse a epidemiologista molecular Emma Hodcroft ao meu colega Brian Resnick. “Nós continuamos a lançar os dados quando mantemos o número de casos tão altos.”

O “jackpot” azarado até agora é a delta. Parece ser melhor a fixar-se em células humanas, e é muito mais transmissível. Há também algumas evidências preliminares de que a delta é melhor a evitar a resposta imunológica, por isso pode infectar mais facilmente pessoas que já tenham sido infectadas pela Covid-19.

Uma vez que essa mudança aleatória aconteça, os vírus com a sorte dessa vantagem serão capazes de se reproduzir mais do que os vírus que não a tenham. A variante delta começou como apenas uma mutação aleatória num único paciente com Covid-19. Agora, estima-se que a maioria dos novos casos de Covid-19 nos EUA sejam da variante delta, e esta foi detectada em 98 países.

A Delta é péssima. Podia ser pior.

“O cenário assustador é que esta não seja a última variante ou a mais prejudicial”, disse à Vox a Maureen Miller, epidemiologista de doenças infecciosas da Universidade de Colúmbia.

Na verdade, há muitas maneiras de as coisas poderem piorar.

Em primeiro lugar, as futuras variantes poderiam ficar ainda mais transmissíveis. “Este vírus surpreendeu-nos muito”, disse à BBC Aris Katzourakis, virologista da Universidade de Oxford. “O facto de isto ter acontecido duas vezes em 18 meses, duas linhagens (a alfa e depois a delta) cada uma 50 por cento mais transmissível é uma quantidade de mudança impressionante ”. E ainda que tenha dito que é uma “tolice” tentar calcular até que ponto a Covid-19 se poderia tornar mais transmissível, disse que poderíamos ver no futuro grandes saltos na transmissão.

“Ainda há espaço para este subir ainda mais”, disse à BBC Wendy Barclay, uma virologista do Imperial College London. O R0 do coronavírus — uma medida de quantas pessoas um único caso infectado irá infectar numa população sem imunidade — foi calculado em 2 a 3 para o vírus original da SRA-CoV-2. A delta pode ter um R0 que pode chegar a 8.

“O sarampo está entre 14 e 30”, acrescentou Barclay. O sarampo, no entanto, é um extraordinário outlier [distingue-se drasticamente] entre as doenças infecciosas. Mas a delta está ela própria a começar a entrar no território dos outliers, e vale a pena pelo menos fazer uma pausa para considerar como poderiam ser as futuras variantes mais transmissíveis.

Como seria se uma futura variante do coronavírus fosse tão má como o sarampo? De acordo com o CDC, o sarampo é tão infeccioso que o vírus pode viver num espaço no ar, infectando novas pessoas, até duas horas depois da pessoa infectada ter saído. Se uma pessoa for infectada, até 90% dos seus contactos próximos também serão infectados (assumindo que nenhum deles seja imune). E as pessoas infectadas podem espalhar o sarampo a outras pessoas até quatro dias antes do aparecimento dos sintomas, tornando o rastreio de contactos quase impossível.

Há outra coisa que pode ficar pior. As vacinas de mRNA existentes funcionam muito bem contra a delta. Não são perfeitas, mas parecem reduzir drasticamente as probabilidades de transmissão da Covid-19 daí em diante (os cálculos actuais sugerem uma taxa de eficácia de 80 a 90% contra a infecção), bem como o risco de hospitalização e de morte. A maioria dos seus benefícios resistiram até agora a todas as variantes, mesmo que outras vacinas se tenham revelado muito menos eficazes.

A vacinação, então, é a nossa melhor ferramenta para combater o vírus. Mas, se os países ricos hesitarem demasiado, é possível que eventualmente surja uma variante que inutilize essa ferramenta. “O surgimento de futuras variantes que possam escapar à imunidade induzida pela vacina” é uma possibilidade, argumentou o ex-diretor do CDC Tom Frieden.

As vacinas de mRNA, em particular, parecem induzir uma resposta imunológica muito forte e robusta em várias partes do sistema imunológico. Muitos virologistas têm defendido que é improvável que um vírus possa escapar a isso, permanecendo altamente transmissível ao mesmo tempo. Mas com biliões [Br. trilhões] de lançamentos dos dados, é possível que o vírus lhe saia na sorte uma forma de escapar à nossa resposta imunológica.

“A continuação da propagação descontrolada pelo mundo torna este cenário mais provável”, diz Frieden.

Como a vacinação do mundo pode impedir o surgimento de futuras variantes

Nos países de elevados rendimentos, em média, 51% das pessoas já foram vacinadas. Nos países de baixos rendimentos, apenas 1,36% foram vacinadas.

O argumento humanitário a favor de se vacinar o mundo é muito claro: o distanciamento social e a máscara muitas vezes parecem ser insuficientes para conter a variante delta, por isso, mesmo os países que até este ponto tinham evitado com sucesso a Covid-19 estão agora a ser derrubados. Novas vagas estão a arrasar países como a Indonésia, a África do Sul e a Malásia.

De acordo com cálculos oficiais, sabe-se que 4 milhões de pessoas em todo o mundo morreram de Covid-19. Mas as medições de mortes adicionais contam uma história de um número que ainda é pior. Um cálculo recente revelou que, só na Índia, morreram aproximadamente 4 a 5 milhões de pessoas de Covid-19 — a maioria delas no último mês e meio, à medida que a delta devastou o país.

As vacinas salvariam milhões de vidas, tanto directamente, protegendo as pessoas de casos graves de Covid-19, como indirectamente, tornando mais difícil a propagação do vírus.

Mas as vacinas que funcionam melhor contra a delta são as de mRNA, que são mais difíceis de fabricar em comparação com outras vacinas como as da AstraZeneca ou da Sinopharm, que estão disponíveis fora dos EUA.

Até agora, o mundo desenvolvido tem se mostrado relutante em dar até mesmo pequenos passos para garantir o acesso universal às vacinas. A administração Biden insistiu na renúncia dos direitos de propriedade intelectual das vacinas, mas outros países recuaram e os especialistas dizem que mesmo com a renúncia dos direitos, as coisas não vão mudar muito.

“Renunciar às patentes de vacinas é bom, mas a menos que esteja associado a um processo que realmente aumente o fornecimento de vacinas, é pouco mais do que dar os pêsames depois de uma tragédia”, escreveu em Maio a socióloga e comentadora de Covid-19, Zeynep Tufekci, apelando aos governos que façam muito mais para efectivamente vacinar o mundo.

O que é realmente necessário é financiamento, pré-encomendas em massa para as doses necessárias para vacinar o mundo, e um esforço conjunto para garantir que essas doses cheguem a todos no mundo. A construção das fábricas para produção rápida e constante de vacinas a essa escala também irá ajudar o mundo na próxima pandemia.

Caso salvar milhões de vidas em todo o mundo não seja motivação suficiente para que os EUA o façam, talvez o argumento do interesse próprio seja mais forte. A delta já está a atrasar o regresso à normalidade que os americanos anseiam — e a matar milhares de pessoas. O mundo não consegue aguentar com outra variante que pudesse ser ainda pior.

Em comparação com isso, os 50 a 70 mil milhões [Br. 50 a 70 bilhões] de dólares necessários para vacinar o mundo começam a parecer um preço francamente barato. Isso já é uma pechincha apenas pelos seus benefícios ao salvar vidas humanas; e é mais ainda porque vai ajudar a evitar o surgimento de futuras variantes.

A ascensão da delta após uma primavera tão promissora nos EUA sublinha um facto que muitos americanos podem ter esquecido no meio das boas notícias sobre vacinas a nível nacional: Esta continua a ser uma crise global da qual os americanos ainda não estão livres. Os EUA devem agir em conformidade.


Publicado originalmente por Kelsey Piper na Vox, a 4de Agosto de 2021.

Tradução Rosa Costa e José Oliveira.

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