As pessoas que dão parte do seu salário – e porque o fazem

Por Suzanne Bearne (Positive News)

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Dar dinheiro, porquê? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Se tivermos mais dinheiro do que precisamos para viver confortavelmente, existe a obrigação ética de dar algum? No movimento do “altruísmo eficaz”, as pessoas doam uma parte do seu rendimento, usando os dados disponíveis para orientar as suas escolhas.

 

Em 2017, Seren Kell assumiu um compromisso que surpreendeu a sua família. A gerente de ciência e tecnologia (foto principal [no artigo original]) comprometeu-se a doar 10% do seu rendimento a instituições de caridade ao longo da sua carreira. 

Kell fê-lo através da Giving What We Can (GWWC), uma organização que ajuda as pessoas a criar a influência mais positiva possível com as suas doações à caridade e que incentiva as pessoas a doar pelo menos 10% do seu rendimento. 

Fazer isso “pode ter tanto impacto”, diz a Kell, que ficou a saber sobre a GWWC e o chamado “altruísmo eficaz” (AE) — fazer o maior bem que se pode — na Universidade de Oxford. Foi enquanto ainda lá era estudante que assumiu um compromisso semelhante de doar à caridade um por cento do seu rendimento disponível, e o hábito manteve-se . “É algo que toda a gente que esteja relativamente bem na vida deveria fazer”, acredita a Kell. 

A GWWC recomenda dar a instituições de caridade que tenham sido rigorosamente avaliadas e classificadas como tendo o maior impacto quando se trata de melhorar o bem-estar humano e animal.

A Kell, que agora vive em Londres e trabalha para o Good Food Institute Europe, envia cerca de dois terços da sua doação para organizações que lidam com o bem-estar animal e a pobreza global, e o resto para organismos que ajudam a prevenir riscos catastróficos globais. O último é através da plataforma EA Funds [Fundos AE] do Centre for Effective Altruism, uma organização sediada no Reino Unido e nos EUA que tem como objectivo simplificar o processo para os doadores. 

“Quero ter certeza de que grande parte do meu dinheiro está a ajudar pessoas que estão a sofrer neste momento”, diz Kell. “Em partes do sul global, as pessoas ainda não conseguem obter coisas básicas; algumas estão a sofrer devido à malária. O dinheiro vai para organizações que, face a isso, podem ajudar eficazmente”. 

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As instituições de caridade que lutam contra a pobreza estão entre aquelas que são beneficiadas pelo movimento do altruísmo eficaz. 

 

A GWWC foi co-fundada em 2009 pelo filósofo Toby Ord de Oxford. Este inspirou-se em especialistas em ética como o filósofo moral Peter Singer para se comprometer a doar uma parte do seu rendimento a instituições de caridade eficazes. Singer distingue este tipo de doação daquela feita por doadores pelo “calor interior”, pessoas que doam com base no instinto ou emoção, sem fazer grande pesquisa para saber se o seu donativo pode ser eficaz. 

A organização calcula que existam cerca de 3500 pessoas que doam regularmente através da sua plataforma e diz que os seus membros são bastante diversificados: “de estudantes a reformados e de comerciantes a banqueiros de investimento”, observa um porta-voz. Há uma tendência para rendimentos médios a altos, pessoas mais jovens — o seu membro mediano tem cerca de 30 anos — e níveis de educação superior. 

A GWWC diz que mais de 600 pessoas assumiram o compromisso desde o início de 2022, enquanto 7000 pessoas em todo o mundo já se comprometeram a doar pelo menos 10%. 

 

Quero ter a certeza que grande parte do meu dinheiro está a ajudar pessoas que estão a sofrer neste momento.

No ano passado, Rishub Jain, um engenheiro de investigação, comprometeu-se a doar cinco por cento do seu salário, e o seu patrão igualou esse montante. Ele ficou a saber da GWWC através de colegas da empresa de inteligência artificial, a DeepMind. “Quando me apresentaram a ideia, sabia que iria sentir-me  culpado caso não o fizesse”, diz Jain, que também vive em Londres. 

“Percebi que era super privilegiado e que podia gastar dinheiro em muitas coisas boas. Uma quantia mínima alivia essa culpa. Senti que tinha a responsabilidade moral de o fazer.” 

No ano passado, Jain doou para o Fundo AE de Bem-Estar Animal: “Isso alivia parte da culpa que tenho pelo meu próprio consumo [de produtos de origem animal]”. 

 

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A promoção do bem-estar animal está entre as principais prioridades de alguns doadores. 

Arvind Raghavan, que está a viver em Nova Iorque enquanto completa um mestrado de pós-graduação na Universidade Columbia, diz que “tropeçou” na GWWC quando estava a pesquisar sobre formas mais rigorosas e eficazes de doar à caridade. “Eu queria encontrar uma forma de doar sustentável e não ad-hoc“, diz ele. 

Em 2017, Raghavan comprometeu-se a doar 10% dos seus rendimentos. “Eu queria ajudar no esforço humanitário, pois foi isso que mais me apelou, e as provas do alto impacto da prevenção da malária impressionaram-me. Por exemplo, fornecer uma rede tratada com insecticida custa cerca de 2 dólares [1,48 libras] e pode ser usada por uma família durante o pico da época da malária. É uma das formas mais custo-eficazes de reduzir os casos de malária”.

Raghavan, que actualmente está a doar um por cento do seu rendimento disponível por 15 meses enquanto estuda, diz que o compromisso aplica um dos princípios-chave do budismo.

“O budismo ensina que a consciência plena só é útil em última análise, caso a relacionemos com a nossa obrigação ética de reduzir o sofrimento dos seres em todos os lugares”, diz ele. “Doar regularmente é uma forma simples mas poderosa de viver a vida com sentido que o Budismo Zen encarna”. 

Raghavan acredita que é muito mais impactante dar uma parte do seu salário a pessoas que precisam, em vez de gastar consigo mesmo. “Depois de se perceber isso, não faz sentido não o fazer”, diz ele.


Publicado originalmente por Suzanne Bearne na Positive News, a 4 de Maio de 2022.

Tradução de José Oliveira.

 

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