Não são só os voluntários de instituições de caridade que precisamos evitar

Voluntária abordando cidadã | henrybloomfield flickr.com

Voluntária abordando cidadã | henrybloomfield flickr.com

Você está em uma rua de Dublin (ou qualquer rua de uma cidade na Irlanda). À sua esquerda passam duas pessoas sem-teto [Pt. sem-abrigo], com frio, cansadas, desesperadamente implorando por ajuda. Na sua frente está um grupo de voluntários de uma instituição de caridade que alegremente o pressionam para que você faça uma doação mensal a uma instituição dedicada aos sem-teto. O que você deveria fazer? Dar o seu dinheiro à instituição de caridade? Ou cortar os intermediários e dar o dinheiro diretamente à fonte?

Eu passei por esse exato dilema muitas vezes no centro da cidade. E, geralmente, eu sei que me diriam que doar a uma instituição de caridade é a coisa absolutamente “certa” a se fazer. Mas deixe-me explicar desta maneira. Você está em uma rua de Dublin, onde é abordado por uma “mulher jovem e atraente e assustadoramente entusiasmada” que tenta persuadi-lo a investir uma quantia mensal em uma empresa que ela representa.

Ela não tem dados, mas lhe diz o quão grande é o mercado, como são baixas as despesas gerais e como os produtos são maravilhosos. Você se comprometeria ali mesmo?

Não, eu acho que não. Se você quisesse investir não iria, pelo menos, fazer um pouco de pesquisa básica em vez de concordar em entregar o dinheiro a uma empresa que encontrou graças a um desconhecido na rua?

Mas isso é exatamente como muitos de nós decidimos nossas doações a instituições de caridade. É uma loucura não é?

Certamente, se levarmos a sério a ajuda a quem precisa, não gostaríamos de garantir que o dinheiro ganho arduamente que entregamos, esteja sendo utilizado da melhor forma possível?

É uma pergunta que o povo irlandês deve estar se perguntando. Sim, a ‘Charities Regulatory Authority’ foi criada para monitorar o setor de caridade cada vez mais diversificado, mas é tão escassa em pessoal que pode ser tão ineficaz quanto algumas instituições de caridade que foi criada para supervisionar.

Então, como é que sabemos se estamos fazendo o bem? Uma pesquisa recente mostra que isso não é tão fácil quanto parece. Na verdade, nossas boas intenções podem realmente estar pavimentando um caminho de maior dificuldade para as pessoas que estamos tentando ajudar. Enquanto isso, nos aquecemos em um brilho equivocado de benfeitores ignorantes.

William MacAskill é um de uma série de filósofos que recentemente publicaram livros dizendo-nos que muitos dos atos filantrópicos e virtuosos que fazemos – e que nos dão aquele sentimento aconchegante de satisfação presunçosa – não são apenas um desperdício de tempo, mas, na verdade, fazem mais mal do que bem.

Em ‘Doing Good Better : Effective Altruism and a Radical New Way to Make a Difference‘, MacAskill explica, de forma simples e devastadora, por que comprar produtos do Comércio Justo; boicotar marcas que usam péssimas condições de trabalho, comprar frutos produzidos localmente; ser voluntário de uma instituição de caridade ou doar ao projeto mais recente de ajuda a desastres pode realmente fazer muito mais mal do que bem. [É dele o exemplo de doar aos voluntários que usei acima].

O Filósofo Peter Singer, em seu livro The Most Good You Can Do, nos diz por que Matt, oseu estudante altruísta de filosofia, aceitou um emprego em Wall Street em vez de entrar parauma ONG ou de trabalhar para uma instituição de caridade. [Ele calculou que conseguiria mais em um trabalho que pagasse bem para doar uma grande parcela de seu salário a uma instituição de caridade eficaz, do que se fosse um voluntário em algo que outra pessoa poderia fazer tão bem quanto ele.]

Tudo soa tão contra-intuitivo, não é? E ainda assim é verdade. Um dos exemplos mais contundentes de como nosso desejo de nos sentirmos bem pode causar enormes danos estácontido na história do “PlayPump“; uma bomba de água criada para aldeias pobres que fosse acionada por crianças em um gira-gira [Pt.carrossel] de modo que as mulheres não tivessemque o fazer por si próprias ou tivessem que esperar pelo vento.

Parecia uma invenção de ganho mútuo. Ganhou um prêmio do World Bank Development Marketplace. Steve Case, CEO da AmericaOnLine investiu nela. A PlayPumps Internacional foi criada. A One Foundation se envolveu, lançando uma marca de água chamado ‘One Water’ que foi a água engarrafada oficial no Live 8 e na campanha ‘Make Poverty History’. Foi um espetáculo emocionante nos mídia e na caridade. E então alguém pensou em perguntar ao povo que supostamente fora ajudado o que eles pensavam. Eles odiaram.

Com todas as festividades de auto-congratulação ninguém tinha pensado em considerar os aspectos práticos da bomba. Foi muito difícil para as crianças manterem o bombeamento, assim como para as mulheres. Era impossível de consertar ou obter peças novas. Foi um desperdício total e absoluto de tempo e dinheiro e fez pouco bem.

Esse tipo de coisa acontece muito quando benfeitores deixam de consultar as pessoas que deveriam estar sendo “ajudadas”. Mas não se desespere, MacAskill demonstra claramente que a caridade – apesar do que os detratores dizem – tem feito muito bem, mas adverte-nos para investirmos em programas que sejam os melhores. Estranhamente, ele não inclui organizações como a Oxfam, a Unicef ​​ou a World Vision; estas são grandes demais, diz ele, e não demonstram que estejam fazendo o maior bem possível ou que sejam eficientemente geridas.

Um dos capítulos é intitulado “Por que você não deve Doar à Ajuda a Catástrofes”, que certamente será uma surpresa para aqueles de nós que pensa que estamos moralmente obrigados a contribuir para as instituições de caridade que trabalharam após o terremoto do Haiti ou do Japão ou no apoio aos refugiados. Mas a todo o momento existem emergências que necessitam de nosso dinheiro.

MacAskill levanta o ponto válido de que todos os dias mais de 18.000 crianças morrem de causas evitáveis. Se você quiser seriamente doar para ajudar a alguma catástrofe doe àsmelhores instituições de caridade que lutam contra a pobreza o tempo todo.

Enquanto isso, em casa, você tenta boicotar marcas que usam trabalho em condições péssimas? Grande erro. Como MacAskill diz; “Nos países em desenvolvimento, empregos nessas fábricas são os bons empregos”. As alternativas são muito piores.Não conseguimos imaginar porque vivemos no Ocidente.

O que deveríamos estar fazendo é tentar acabar com a pobreza que faz com que esses trabalhos sejam tão atraentes. Se você está preocupado com o aquecimento global (e deveria estar) as “compras locais” podem realmente causar mais danos uma vez que o uso de estufas locais podem superar as emissões geradas pelo transporte*, e um mero banho quente1 pode adicionar mais à sua pegada de carbono do que deixar seu telefone móvel ligado durante todo o ano.

Mesmo o impacto de cortar completamente o uso de sacolas plásticas é minúsculo quando comparado com livrar-se dos grandes culpados – a carne vermelha e os laticínios.

Você se congratula regularmente por comprar no ‘Comércio Justo’?  Pense de novo. Muitos dos países mais pobres não podem pagar para atender aos altos padrões dos produtos que o Comercio Justo exige. Você poderia comprar o material mais barato e dar a diferença a uma instituição de caridade. Mas que instituição? Faça a pesquisa e descubra a que dá o melhor retorno ao dinheiro que lhe custou a ganhar. MacAskill sugere a De-Worm the World Initiative, Cool Earth, GiveDirectly e Against Malaria Foundation – entre outras.

Se queremos melhorar a vida daqueles que mais precisam, é importante apoiar a educação infantil. Mas qual é a maneira com maior custo-benefício para aumentar a participação escolar nos países em desenvolvimento? É ao melhorar a saúde das crianças destroçadas por parasitas e não ao comprar livros ou enviar educadores. O problema é que dar dinheiro para desparasitar crianças não tem metade do glamour  da ajuda a áreas de catástrofe.

Fazer uma pesquisa lúcida sobre a melhor forma de dar o nosso dinheiro a quem precisa não é tão fácil quanto doar à garota simpática e agradecida na rua. Mas, se formos sinceros sobre a ajuda às pessoas é isso que deveríamos estar fazendo.

A questão é, será que o fazemos?

Post publicado originalmente por Carol Hunt em Sunday Independent em 9 de agosto de 2015 | http://www.independent.ie/opinion/its-not-just-chuggers-on-the-street-we-need-to-be-giving-wide-berth-to-31437456.html

Tradução: Thiago Tamosauskas e José Oliveira (revisão)

*N. do T: Na Irlanda o aquecimento e abastecimento energético é majoritariamente via gás natural

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