Faz sentido ser especista e vegano?

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Cão e Vaca | pixabay.com

Hoje em dia a maioria das pessoas concorda que não é correto infligir dor desnecessária em um animal. Por exemplo, esportes que requerem um tratamento cruel de animais como as touradas e as rinhas de cães ou galos são condenados pela opinião pública. Reconhecemos, portanto, (sem precisar sermos utilitaristas) a dor como um critério primordial para guiar nossa conduta face a outros animais. Por outro lado, normalmente também é aceito que os outros animais sejam maltratados para alimentar os humanos. As duas situações são similares: maltratar uns para beneficiar outros. Ademais, a produção industrial de carne gera muito mais sofrimento que os esportes citados acima. Um caso é aceito, o outro não, mas por quê?

Argumento da necessidade

A justificativa mais normal procura diferenciar o tipo de benefício extraído da crueldade com os outros animais. Tendemos a achar que comer carne animal é necessário enquanto que nos entretermos com esportes não é. Porém esta explicação não parece se justificar. Estudos nutricionais comprovam que é possível que uma dieta vegana supra todas as necessidades dos seres humanos. A única vitamina necessária, a famosa B12, pode ser adquirida por suplemento ou por uma dieta vegetariana. Vários atletas de alto nível, por exemplo, não comem carnes ou derivados. De modo que, assim como podemos achar outros esportes que não prejudicam outros seres sencientes também podemos achar outra dieta tão (ou mais saudável) que a carnívora. Mas este tipo de evidência não basta para mudar o nosso comportamento.

O argumento da evolução

Ainda que a necessidade atual não seja um critério válido para uma dieta carnívora, recorremos a outras justificativas. Uma bem popular se embasa na hipótese de que foi o fato de comer carne que fez com que os seres humanos evoluíssem seus cérebros. Porém, pesquisas antropológicas mostram que o desenvolvimento do cérebro veio bem antes de uma dieta carnívora. Além disso, usar a evolução da espécie como justificativa de causar sofrimento alheio não parece convincente. Ninguém aceitaria sacrifica a nossa própria espécie para benefício futuro, por exemplo, escravizando uma geração de crianças para fazer testes genéticos de modo a criar uma geração mais evoluída de seres humanos. Sem mencionar que nós humanos ‘evoluídos’ já fracassamos em utilizar o habitat que compartilhamos com os outros de maneira sustentável, o que leva a hipóteses de que grandes inteligências tendem a se extinguir pois fazem mal ao ambiente.

Opções de dieta

Diante da não necessidade de comer carne deveríamos abrir mão deste tipo de dieta. Neste ponto existem várias opções de acordo com diferentes motivações éticas. Duas oposições extremas são o veganismo e o ominivorismo consciente. O vegano se abstém de utilizar qualquer produto que explora algum tipo de vida animal por considerar antiético. Um problema desta posição é ignorar que a produção vegetal e animal, em fazendas tradicionais, estão mais ligadas do que imaginamos de modo que o cultivo de vegetais implica algum uso de animais. O ominívoro consciente, por sua vez, não se importa com a morte dos animais. Seu problema é com o tipo de vida que este animal teve até morrer. Ele é contra a produção industrial de carne porque esta não permite aos animais que eles tenham uma existência plena durante a vida. Por outro lado, se estes animais são criados com espaço, direitos e tratamento que leva em consideração suas necessidades, eles não veem problema em abatê-los para virar alimento. Mesmo dentro desta perspectiva, pode-se argumentar que esta é uma posição elitista já que não há espaço para produzir carne desta maneira a fim de alimentar toda a humanidade. De maneira análoga o vegano também deve aceitar as conquistas da revolução verde, já que sem o uso de fertilizantes e pesticidas parece difícil que se produza alimentos, mesmo de origem vegetal, para toda a população mundial. Mas, mesmo após alterar a dieta face à não necessidade de uso dos animais para nossa satisfação, restam questões relevantes nas maneiras em que vamos interagir com os animais não humanos.

Especismo

Uma vez que não há um critério real para explicar a preferência de uma espécie em detrimento da outra, fica caracterizado um tipo de preconceito. Este é denominado especismo e consiste em conceder um tratamento privilegiado aos membros de uma espécie apenas por pertencerem a essa espécie. O ser humano tende a ser assim. Quando a gente prefere salvar uma criança em vez de um filhote de outro animal, provavelmente, estamos sendo especistas. Este tipo de comportamento parece introjetado na nossa natureza. Isso não quer dizer que ele não possa ser alterado, mas apenas que a resposta é tão automática que é difícil de ser questionada. Se questionada, no entanto, a resposta que normalmente emerge é de que a vida humana, por ser mais complexa, merece ser mais valorizada. Este tipo de resposta se adéqua à nossa intuição de que é melhor salvar uma criança no lugar de cem insetos, cinquenta peixes, dez frangos ou cinco cachorros. Mas existe algo que pudesse definir esta suposta maior complexidade da vida?

Inteligência

Mais uma vez o principal critério parece estar ligado à razão ou inteligência. Uma vez que a relação do ser humanos com as experiências passadas e projeção do futuro nos parecem ser mais fortes do que outros animais mais imediatistas, acabamos valorizando mais uma vida humana do que outros tipos de animais. Quem aceita este tipo de justificativa, portanto (se quiser ser coerente) tem que usar a inteligência como critério de preferência. Apesar dos exemplos acima, este não parece ser sempre o caso. Imagine que você está no campo e vê um lobo correndo na direção de um filhote de gato e um filhote de porco. Se você pode salvar apenas um, qual seria? Sendo criado numa cultura ocidental as chances são grandes de que você simpatize mais com o gato. Apesar disso, parece seguro afirmar que porcos são mais inteligentes (têm uma subjetividade mais complexa) que os felinos. A explicação na preferência pelos felinos é emocional. Como os gatos parecem mais bonitinhos a olhos humanos, acabamos os privilegiando. Logo, se quisermos adotar um especismo coerente seria preciso escolher entre o critério da inteligência ou o da aparência. Ou a gente passa a privilegiar os que têm uma existência mais complexa ou os que nos parecem mais bonitinhos.

Aparência

A justificativa máxima para o especismo é explicar nossa preferência por seres da nossa espécie. Posto que existem vários filhotes de outros animais que nos parecem mais bonitos do que alguns bebês humanos, e, mesmo assim, a tendência segue sendo preferirmos salvar qualquer bebê humano no lugar de um filhote de outro animal, a aparência falha em fornecer um critério coerente de ação. Voltamos, então, ao uso da inteligência como um critério de privilégio. Porém, aqui é preciso fazer uma ressalva. Inteligência (provavelmente um termo equivocado) não deve ser entendido no sentido de potência de raciocínio, já que não parece defensável que uma pessoa mais inteligente nesse sentido (medido pelo QI, memória, erudição e, etc…) deva ter privilégio de tratamento (estes traços, na verdade, já facilitam muito sua vida). Assim como os humanos mais bonitos (que também podem ter vantagem por isso) não merecem privilégio algum de consideração moral. A inteligência usada como critério aqui, então, teria o sentido de riqueza nas experiências subjetivas. Como a mente humana parece sim ser mais refinada no trato com experiências passadas e antecipações do futuro, bem como no relacionamento com outras mentes, o sofrimento provocado nela seria maior. Voltamos assim à questão da dor. A inteligência só serve de critério porque ela possibilita uma experiência mais dolorosa do sofrimento e da morte. Esta parece ser a melhor justificativa para o especismo.

Graus de sofrimento

Este pensamento permite alguma hierarquização no sofrimento infligido aos outros animais. Por exemplo, uma vez que mamíferos teriam uma experiência subjetiva mais complexa que os crustáceos, seria menos ruim comer estes últimos. Porém, este tipo de análise que isola um critério esquece que a pesca predatória de peixes e crustáceos tem um impacto ambiental altíssimo que vai além do sofrimento provocado em suas vítimas. O mesmo é verdade para os animais terrestres. A produção de calorias em forma de 1 kg de carne bovina demanda 7 kg de grãos. Para cada quilo de carne de porco seriam necessários 4 kg de grãos. Em vista disso, mais sustentável é abandonar a carne e ir direto aos grãos. Ainda segundo o princípio isolado do sofrimento, seria melhor evitar todo tipo de carne de rebanho e evitar ovos, já que sua produção industrial provoca muito sofrimento. Um quilo de ovos requer 70 dias de confinamento. Por outro lado, consumir laticínios seria a maneira menos ruim de adquirir B12 de maneira natural pois apenas 2 horas de confinamento são necessárias para produzir um quilo de leite.

Intervencionismo

Levado ao extremo esta postura de evitar sofrimento acaba nos colocando diante da possibilidade de intervir na natureza para reduzir o sofrimento dos animais selvagens. De fato, parece que a maioria das vidas selvagens tem mais sofrimento do que prazer. Os sinais de estresse, ferimento e expectativa de vida de animais selvagens colocam em questão se este tipo de vida vale a pena. Alguns defendem que a vida selvagem repleta de sofrimento e desafios realiza os indivíduos que nela existem, mas este tipo de defesa soa simplesmente retórica. O melhor argumento contra intervir na natureza é conservador. Na verdade, como na maioria dos casos as intervenções humanas na natureza com intuito de melhorar acabam sendo desastrosas por não preverem muitas das consequências, parece ser melhor deixar a coisa funcionar como agora e concentrar o esforço em não prejudicar (em vez de tentar melhorar).

Em benefício próprio

A situação hipotética de termos que escolher salvar vinte cachorros em vez de um humano provavelmente não acontecerá com nenhum de nós. Porém, vários casos similares acontecem no contexto em que existimos. Um caso é o dos experimentos científicos. Por exemplo, para saber se um shampoo fazia mal aos olhos humanos fazia-se, até bem há pouco tempo, testes em coelhos. Ainda hoje, pesquisas com ratos são o primeiro passo para o teste de várias vacinas. Mais uma vez, o primeiro caso não é mais aceito, o segundo, sim. De novo, a explicação parece ser a necessidade. O benefício de um produto de beleza é visto como fútil e não justificaria o sofrimento dos animais. Por outro lado, a criação de uma vacina traria um benefício imenso e necessário para os seres humanos (e também para outras espécies, caso se adote um programa de vacinação animal), o que parece justificar o sofrimento de infligido aos animais não humanos.

Em benefício dos outros

O caso da alimentação de humanos em extrema pobreza também se apresenta aqui. Muitas ONGs sugerem que compremos vacas, porcos ou outros animais que servirão de fonte de alimentação para pequenos fazendeiros cujas pequenas terras e rebanhos tornaram-se improdutivos devido ao aquecimento global. É uma escolha especista salvar uns, os humanos pobres, com a vida dos outros, os animais de rebanho. Além disso há sempre a escolha de doar nossos recursos que são escassos. Podemos aplicá-lo em organizações que lutam pelo direito dos animais ou em organizações que combatem a pobreza extrema (o conflito ainda aumenta na medida em que o aumento de rendimento implica um aumento de consumo de carne, como o caso da China, Índia e Brasil comprovam). Quem ainda aceita a complexidade subjetiva como um critério, deve optar por doar 100% do dinheiro dedicado ao altruísmo para salvar vidas humanas. De qualquer maneira, nos casos que não envolvem escolhas, não há dúvidas. A adoção de uma dieta vegana é um exemplo disso. Outra possibilidade é doar tempo na promoção dos direitos dos animais tentando convencer os outros a adotarem uma dieta sem carne.

Bichos de estimação

Outro problema que aparece é o caso dos bichos de estimação. A escolha por ter cachorros e gatos domésticos, por exemplo, parece ser especista, já que estes animais são predadores urbanos que geram muitas mortes. Um gato provoca uma morte a cada 17 horas fora de casa. Por outro lado, não se deve ignorar o benefício gerado aos animais de estimação. Com certeza eles são bem tratados como nunca e, nos casos em que não são criados presos, levam vidas plenas. Isso justifica, principalmente, o caso de se adotar um animal abandonado como bicho de estimação. Ainda assim, existem efeitos colaterais. Ter um cachorro parece gerar mais poluição que adquirir um carro grande como um SUV. O ideal talvez seja evitar os dois. Este efeito de poluição é ampliado no caso dos animais de rebanho, já que estes mamíferos, através de seus gases, são grandes produtores de metano.

Conclusão

As questões são complexas, minha apresentação é introdutória, e pede aprofundamento. De qualquer maneira, respostas fáceis não virão. O mais importante, no entanto, é não usar esta dificuldade de posicionamento como uma justificativa para a inação. Não é uma questão de tudo ou nada. Só porque você não vai acabar com todo sofrimento animal, não quer dizer que você não deve fazer nada para melhorar a situação em que o mundo se encontra. Por isso para de ir a touradas, procurar comprar carne de animais tratados com alguma dignidade, virar vegetariano, vegano, resgatar um cachorro na rua e, etc são todas atitudes válidas que devem ser feitas por quem quiser e valorizadas mesmo por quem não as faz. Em termos práticos um dia sem carne já reduz algum sofrimento e poluição. Estes casos são exemplos de situações em que tentar já é conseguir.

Texto de autoria de Celso Vieira

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