O Ambientalismo Eficaz

Foto estratosférica do oceano Pacífico | nasa.gov

Foto estratosférica do oceano Pacífico | nasa.gov

Quanta importância um simpatizante do altruísmo eficaz deveria dar às questões ambientais? Em um primeiro momento este parece ser um problema secundário diante do sofrimento imediato de bilhões de pessoas abaixo da linha da pobreza e do incalculável sofrimento animal causado pelas fazendas industriais.

Talvez isso ocorra porque as relações entre as causas e consequências do aquecimento global não sejam percebidas diretamente e portanto não forneçam a motivação necessária.  O sofrimento dos pobres é fácil de ser entendido, assim como o da morte dos animais nos matadouros. Mas como desenvolver empatia pela biosfera? A mudança climática afeta a humanidade gradualmente e exige um poder maior de abstração e correlação dos fatos.

O caso é semelhante ao daquele sapo na panela do conto popular. Conta-se que quando foi colocado na panela com água escaldante o sapo pulava fora imediatamente e assim sobrevivia. Contudo, quando o mesmo sapo foi colocado em uma panela com água morna que gradualmente foi esquentando ele não reagiu e acabou morrendo cozido.

O principal desafio para o altruísta eficaz é que este é um problema cujas soluções são difíceis de ser medidas. A GiveWell trata a mudança climática antropogênica  como um dos riscos catastróficos globais, entretanto nenhuma das suas organizações recomendadas envolve o ativismo ambiental. Da mesma forma Peter Singer reconhecendo a urgência do tema, mas nenhuma das instituições recomendadas pela The Life You Can Save trata do assunto.  O principal desafio para o altruísmo eficaz é que este é um problema cujas soluções são difíceis de ser medidas e portanto não existe nenhuma organização que possa ser considerada como altamente eficaz para ser apoiada. Mesmo críticos como Bjorm Lomborg, que defende que não deveríamos gastar dinheiro com ativismo ambiental, diz isso porque entende que as soluções existentes são ineficientes e não porque o problema não seja importante.

No vídeo abaixo Peter Singer explora a questão ambiental como uma questão ética de justiça social. Segundo ele, da mesma forma que olhamos hoje para a escravidão e o colonialismo com desprezo, as futuras gerações nos julgarão como extremamente injustos na medida em que estamos nos apropriando de recursos coletivos, como a água e a atmosfera, para nosso próprio luxo e com isso estamos impondo grandes danos ao planeta e a humanidade. Ele enfatiza em especial a grande parcela de responsabilidade histórica e atual das nações industrializadas. A apropriação do lucro e a divisão os prejuízos.

Os danos causados

Uma das diferenças entre as Mudanças Climáticas Antropogênicas e os demais riscos globais, tais como o impacto de asteroides e a criação irresponsável de inteligência artificial é que a mudança climática já está matando gente. 300 mil pessoas morrem por ano vítimas dos efeitos daninhos causados pelo aquecimento global. Este número já é equivalente as mortes por coqueluche. Em 2030 calculasse que as mortes chegarão a meio milhão por ano, um número semelhante as mortes causadas pela Malária. Some isso ao fato de que o aquecimento global aumenta o risco de malária em lugares em que a malária já existe e pode levar ela, e outras doenças tropicais, a lugares em que estas nunca foram um problema.

Os danos causados pela mudança climática já são visíveis. Alteração das correntes atmosféricas e pluviais tornaram impossível a agricultura em diversos locais do planeta. Da mesma forma a alteração das correntes marítimas e da salinização oceânica tornou impossível a pesca de subsistência em certas regiões. As crises hídricas e alimentares já criam migrações coletivas para outras regiões e paises e isso tende a aumentar, na próxima década a ONU estima que surgiram mais de 50 milhões de refugiados do clima. E não são só os humanos é claro que vão pagar esta conta. Estimasse que 1 em cada 6 espécies encontradas hoje no planeta terra poderão ser extintas se as emissões de CO² não forem controladas até 2100. Vivemos a maior extinção em massa desde o período Cretáceo. 

Além disso, os danos são crescentes. As maiores prejudicadas serão as gerações futuras. Este é um ponto chave. Enquanto os extremamente pobres não tem espaço na mídia para reclamar e os animais que sofrem sequer tem a habilidade de reivindicar seus direitos, os maiores prejudicados no caso das mudanças climáticas sequer sabem que estão sendo prejudicados, pois a vasta maioria ainda nem nasceu. Não devemos negligenciar o sofrimento dos outros simplesmente porque não compartilharemos da mesma posição no espaço e no tempo, especialmente se podemos fazer alguma coisa hoje que eles não poderão fazer amanhã.

Para uma visão mais completa dos danos causados pelo aquecimento global no presente e no futuro, recomendo a leitura do livro “Seis Graus” de Mark Lynas, onde ele explora as mudanças que já ocorreram e as que podem ocorrer na terra a cada grau centígrado que a temperatura média do planeta aumentar.

Que fazer?

O fato de não termos ainda nenhuma instituição reconhecida como altamente eficaz para reduzir o dano das mudanças humanas no clima, não significa que não possamos fazer nada. Existem milhares de coisas que podemos fazer individualmente, Considere , por exemplom, uma alimentação vegana. A pecuária é responsável por 18% das emissões de gases causadores do efeito estufa e está intimamente ligada ao desmatamento.

Entretanto quando questionado em entrevista sobre onde as pessoas deveriam colocar seu dinheiro para ver mudanças ambientais concretas, o professor de Harvard e especialista em geoengenharia, David Keith respondeu:

“Pessoalmente quando eu dou o dinheiro para organizações que vão mudar leis, porque eu acho que a maneira que nós temos de conter as emissões de carbono é por meio da mudança de atitudes e leis das pessoas e pelas leis e  não encorajando um comportamento que reduza a pegada de carbono individual, pois precisamos trazer as emissões a zero e as pessoas não vão reduzir seu consumo a zero, você tem que fazer isso através da mudança tecnológica: a mudança por veículos mais eficientes, energia solar, energia nuclear o que tiver. Então, eu acho que é muito importante termos organizações e grupos ambientalistas não-governamentais lutando para que essa regulamentação exista.”

É por meio de mudanças tecnológicas e legais que isso pode ser alcançado pela pressão dos movimentos sociais. Ele cita na entrevista acima citada o trabalho de inciativas como as da 350.org e do movimento do desinvestimento. O caminho passa certamente portanto pela conscientização pessoal, mas só será eficaz quando atingir massa crítica para que as leis, regulamentações e demandas por um consumo mais racional façam a sociedade implementar soluções de grande impacto e larga escala.

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