O Custo Ético da Arte Mais Cara

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Pintura de Barnett Newman no Museu de Arte Moderna (MoMA), em Nova Iorque | Fotografia de YoungDoo M. Carey, Flickr

Em Nova Iorque no mês passado, a Christie’s vendeu 745 milhões de dólares em arte do pós-guerra e contemporânea, o total mais alto que já alcançou em um único leilão. Entre as obras mais caras vendidas estavam pinturas de Barnett Newman, Francis Bacon, Mark Rothko e Andy Warhol, cada uma das quais foi vendida por mais de 60 milhões de dólares. De acordo com o New York Times, colecionadores asiáticos desempenharam um papel significativo no aumento de preços.

Sem dúvida, alguns compradores consideram as suas compras como um investimento, como ações ou imóveis ou barras de ouro. Nesse caso, se o preço que pagaram foi excessivo ou modesto isso dependerá de quanto o mercado estará disposto a pagar pelas peças em alguma data futura.

Mas se o lucro não é o motivo, porque que razão alguém iria querer pagar dezenas de milhões de dólares por peças como estas? Não são belas, nem exibem grande habilidade artística. Nem sequer são incomuns na obra destes artistas. Faça uma pesquisa de imagens com “Barnett Newman” e verá muitas pinturas com barras verticais de cor, geralmente divididas por uma linha fina. Ao que parece, uma vez que Newman tivesse uma idéia, gostava de trabalhar todas as suas variações. No mês passado, alguém comprou uma dessas variações por 84 milhões de dólares. Uma pequena imagem de Marilyn Monroe de Andy Warhol – também existem muitas dessas – foi vendida por 41 milhões de dólares.

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Madona e o Menino – Duccio, c. 1300. Tempera. 27,9 cm x 21 cm. MoMA | Wikipédia

Há dez anos atrás, o Metropolitan Museum of Art, em Nova Iorque, pagou 45 milhões de dólares por uma pequena Madona e o Menino de Duccio. Posteriormente, no The Life You Can Save, escrevi que havia coisas melhores que os doadores que financiaram a compra poderiam ter feito com o seu dinheiro. Não mudei de ideias sobre isso, mas a Madona do Met é belamente executada e tem 700 anos de idade. Duccio é uma figura importante que trabalhou durante um momento chave de transição na história da arte ocidental, e apenas algumas das suas pinturas sobreviveram. Nada disso se aplica a Newman ou a Warhol.

Talvez, porém, a importância da arte do pós-guerra resida na sua capacidade para desafiar as nossas ideias. Este ponto de vista foi firmemente expresso por Jeff Koons, um dos artistas cujo trabalho estava à venda na Christie’s. Em uma entrevista de 1987 com um grupo de críticos de arte, Koons referiu-se à peça que foi vendida no mês passado, chamando-a de “a peça de Jim Beam“. Koons tinha exibido esta peça – um trem de brinquedo gigante, em aço inoxidável, cheio de bourbon – em uma exposição chamada “Luxo e Degradação”, que, de acordo com o New York Times, examinou “a superficialidade, o excesso e os perigos do luxo nos ambiciosos anos 1980”.

Na entrevista, Koons disse que a peça de Jim Beam “usou as metáforas do luxo para definir a estrutura de classe”. A crítica Helena Kontova, em seguida, perguntou-lhe qual era a relação da sua “intenção sócio-política” com a política do então presidente Ronald Reagan. Koons respondeu: “Com o Reaganismo a mobilidade social está em colapso, e em vez de uma estrutura composta de níveis de rendimento baixos, médios e altos, estamos reduzidos apenas a baixos e altos… O meu trabalho está em oposição a esta tendência”.

A arte como uma crítica ao luxo e ao excesso! A arte como oposição ao fosso cada vez maior entre os ricos e os pobres! Como isso parece nobre e corajoso. Mas a maior força do mercado da arte é a sua capacidade de agregar quaisquer exigências radicais que uma obra de arte tenha, e transformá-la em um outro bem de consumo para os super-ricos. Quando a Christie’s colocou a peça de Koons a leilão, o trem de brinquedo cheio de bourbon foi vendido por 33 milhões de dólares.

“… não seria difícil argumentar que os preços altíssimos têm uma influência corruptora na expressão artística.”

 

Se os artistas, os críticos de arte e os compradores de arte realmente tivessem qualquer interesse em reduzir o fosso cada vez maior entre os ricos e os pobres, estariam a concentrar os seus esforços em países em desenvolvimento, onde gastariam alguns milhares de dólares na compra de obras de artistas indígenas e poderiam fazer uma diferença real para o bem-estar de aldeias inteiras.

Nada do que eu disse aqui é contra a importância da criação artística. Desenho, pintura e escultura, cantar ou tocar um instrumento musical, são formas significativas de auto-expressão, e a nossa vida seria mais pobre sem elas. Em todas as culturas e em todos os tipos de situações, as pessoas produzem arte, mesmo quando não podem satisfazer as suas necessidades físicas básicas.

Mas nós não precisamos de compradores de arte pagando milhões de dólares para incentivar as pessoas a fazerem isso. Na verdade, não seria difícil argumentar que os preços altíssimos têm uma influência corruptora na expressão artística.

Quanto ao porquê de os compradores pagarem essas quantias extravagantes, o meu palpite é que eles pensam que possuir obras originais de artistas conhecidos irá melhorar o seu próprio estatuto social. Se assim for, isso pode fornecer um meio para provocar uma mudança: uma redefinição do estatuto social que seja eticamente mais sensato.

Num mundo mais ético gastar dezenas de milhões de dólares em obras de arte seria um motivo para diminuir o estatuto social e não aumentar. Tal comportamento levaria as pessoas a perguntar: “num mundo em que mais de 6 milhões de crianças morrem por ano, porque lhes falta água potável, ou redes mosquiteiras, ou porque não foram vacinadas contra o sarampo, você não conseguiu encontrar algo melhor para fazer com o seu dinheiro?”

 


Artigo de Peter Singer publicado o originalmente no Project Syndicate, em 4 de junho de 2014.

Tradução de José Oliveira e Thiago Tamosauskas.

 

 

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