Porque ainda faço donativos à Oxfam

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Crédito da foto: Swathi Sridharan (ICRISAT), Creative Commons

Quando estou a considerar se devo comprar algo que quero, mas que realmente não preciso, às vezes tenho uma conversa imaginária. Com uma pessoa imaginária.

Vamos chamar-lhe Daliya. Ela vive no distrito de Balaka no Malawi, no sudeste da África. Parte do dinheiro que dei à Against Malaria Foundation (AMF) ajudou a financiar as 235.000 redes anti-malária que este ano serão distribuídas em Balaka.

Daliya ficou agradecida pela minha doação. Mas isso não esmorece o seu desprezo quando considero satisfazer um desejo muito caro. “Você já tem um iPad“, diz ela. “Por que acha que deve gastar 700 dólares em um novo?” Eu começo a listar as minhas razões: o meu iPad com quatro anos é mais pesado do que os modelos mais recentes, está a ficar sem espaço, está a ficar lento. Ela cruza os braços sobre o peito. Eu sei, por conversas anteriores, que isto é o prelúdio para O Olhar, um fitar embaraçante que me faz perceber como  as minhas racionalizações parecem ridículas quando comparadas com a realidade da sua situação. Balaka é um dos distritos mais pobres do Malawi, que em si é um dos países mais pobres da África. Quase três quartos das pessoas do Malawi vivem com menos de 1,25 dólares por dia.

“Olhe o que os seus 700 dólares poderiam fazer se, em vez disso, os doasse a uma instituição de caridade eficaz,” diz ela. “Poderia proteger mais de 420 pessoas contra a malária, ou desparasitar 7.000 crianças. Isso não soa melhor do que gastá-los em um novo iPad quando você já tem um que funciona?” Engulo em seco.

Nos últimos meses, os argumentos de Daliya começaram a tomar um rumo diferente. Ela acha que não estou a dedicar atenção suficiente às necessidades a longo prazo de aldeias como a dela no mundo em desenvolvimento.

“Estamos muito felizes de ter aqui mosquiteiros”, diz ela. “Menos malária nos torna mais fortes, mais resistentes. Mas as pessoas que você está a salvar hoje da malária podem morrer amanhã de qualquer um dos outros problemas que enfrentamos. Muitos de nós não têm acesso a água potável. Certos dias tudo o que temos para comer é nsima (uma papa feito de milho). As plantações que costumávamos cultivar não crescem mais, porque o clima está mudando. As secas são muito mais frequentes agora.”

Eu posso entender a sua preocupação. Em todo o mundo a fome mata mais pessoas por ano do que a malária, a tuberculose e a AIDS/SIDA juntas. A falta de acesso a água potável mata cerca de 1,6 milhões de pessoas anualmente em todo o mundo. Em contraste, a malária mata cerca de 600,000 pessoas por ano. Mas com os fundos que tenho disponíveis para dar, posso proteger mais pessoas contra a malária do que impedir que morram à fome ou de doenças transmitidas pela água. Isso porque alcançar um fornecimento sustentável de alimentos e de água potável nos países em desenvolvimento é um processo a longo prazo, que exige muito dinheiro e tempo.

Daliya não está convencida.

“Por que não dá algum dinheiro para a Oxfam?” diz ela. “Eles estão trabalhando aqui em Balaka para nos ajudar a aprender novas técnicas agrícolas e nos mostrar como produzir plantações que sejam mais adequadas ao nosso clima.”

“Há anos que faço donativos à Oxfam”, respondo, “mas estou pensando em parar porque é difícil saber se as minhas doações têm grande impacto. Já existem muitas outras pessoas a fazer donativos à Oxfam. As agências governamentais e as fundações financiam a Oxfam. Acho que posso fazer uma diferença maior, doando à AMF ou a outras instituições de caridade recomendadas pela GiveWell.”

Ela me olha fixamente. “Isto é sobre você e a sua eficácia pessoal, ou é sobre nós e as nossas necessidades? A malária é importante, mas um monte de outros desafios que enfrentamos aqui também são. E o que dizer do contexto mais amplo? Você está se concentrando em apenas uma peça do quebra-cabeça.”

“Claro”, respondo, “mas eu sou apenas uma pessoa e não tenho recursos ilimitados. Não deverei tentar aplicar cada dólar onde ele vá fazer o maior bem?”

Ela suspira. “Eu não estou a dizer que você deve parar de dar à AMF. Estou a dizer que você não deve concentrar-se exclusivamente em obter o impacto mais imediato pelo seu dinheiro doado. Esse tipo de pensamento vai levar você a apoiar instituições de caridade que podem salvar vidas hoje. Mas alguns dos nossos maiores problemas vão demorar muitos anos para corrigir. Será que se deveria evitar apoiar uma organização apenas porque alguns de seus projetos só podem alcançar os seus objetivos daqui a algumas décadas? Não, porque os benefícios poderiam ser enormes, se esses esforços forem bem sucedidos.”

Daliya está imparável. “A Oxfam tem centenas de milhares de doadores individuais. Não é o impacto de cada doador que importa, é a soma coletiva de todas as suas doações que faz com que projetos de desenvolvimento a longo prazo sejam possíveis. Se esses projetos acabam sendo bem sucedidos, cada doador pode colher o mérito pela sua parte no valor desse sucesso — um valor que pode ser, de fato, muito grande. Imagine Balaka não só sem malária, mas com comida suficiente e água potável para todos, sem AIDS/SIDA, e com uma economia próspera. Isso é grandioso. Nós acreditamos que podemos chegar lá, mas vamos precisar de tempo e de muita ajuda.”

“Mas e quanto aos custos de oportunidade?” Eu pergunto. “Se eu tirar um pouco do dinheiro que poderia ter dado à AMF e der, em vez disso, à Oxfam, menos famílias estarão protegidas da malária.”

“Confie em mim”, ela responde, “as famílias podem não ficar entusiasmadas ao ouvir a sua escolha, mas lidariam muito melhor com isso do que se você lhes dissesse que iria usar o dinheiro para comprar um novo iPad. A Oxfam está trabalhando em muitas questões importantes, e têm um longo histórico para mostrar que são capazes de fazer a diferença. Mesmo que só alguns de seus projetos sejam bem sucedidos, as suas doações podem acabar ajudando muitas mais famílias no futuro.”

“Ok, você venceu”, digo eu. “Isso faz sentido.” “Claro que faz”, diz ela com um sorriso. “Eu sou apenas um produto da sua imaginação. Você se convenceu a si mesmo, eu apenas ajudei a trabalhar os argumentos.”

A mais importante é que eu quero salvar vidas hoje, mas também quero contribuir para melhorar o contexto em que essas vidas são vividas. Quero que as pessoas cujas vidas estou salvando possam ter uma vida melhor nos próximos anos, e quero que os seus filhos e netos tenham uma vida ainda melhor. Para desempenhar um papel na obtenção destes resultados, tenho que estar disposto a apostar no valor esperado dos projetos de desenvolvimento a longo prazo.

E é por isso que eu ainda faço donativos à Oxfam.

 


Texto de Brad Hurley postado originalmente no Blogue The Life You Can Save, em 24 de agosto de 2015

Tradução Thiago Tamosauskas e revisão de José Oliveira.

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