Poderemos ver o fim da Malária?

Por Ian Evans (Nautilus)

Acabar Malária

Podemos acabar com a Malária? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Laureado com um Nobel, Baruch Blumberg, outrora estimou que a malária matou metade das pessoas que existiram até hoje. Só em 2015, matou quase meio milhão de pessoas, 70 por cento das quais eram crianças. Hoje, cerca de 3,2 bilhões [Pt. 3,2 milhares de milhões] de pessoas estão, de acordo com a Organização Mundial de Saúde, em risco de a contrair, a maioria das quais são crianças e mulheres grávidas.

É causada por um parasita do sangue ‒ cerca de 50 vezes menor do que a largura de um fio de cabelo ‒ e o mais comum e mortal é o Plasmodium falciparum, que vive na África Sub-Sahariana. É transportado na boca em forma de agulha de um mosquito, conhecido como proboscis, até que seja injetado na próxima refeição de sangue do inseto. Se a vítima é humana, os primeiros sintomas do ataque são semelhantes aos da gripe: febre, dores de cabeça, calafrios e náuseas. Se estes não são tratados o parasita pode, eventualmente, causar coma, danos cerebrais permanentes ou a morte. Tem uma capacidade especial para fugir do nosso sistema imunológico e dos nossos medicamentos. Nosso sistema imunológico é como um segurança à porta de um clube ‒ e a malária é o adolescente com um documento de identificação falso mas convincente. Nosso sistema imunológico nos protege, identificando as moléculas no corpo do invasor, chamadas antígenos, mas o parasita pode modificar esses antígenos, evitando a segurança do corpo. “Há muito que existem medicamentos antimaláricos”, diz Andrew Wargo, ecologista de patógenos no College of William & Mary, “mas não parecem funcionar por muito tempo, pois o parasita desenvolve resistência para os contornar ‒ é muito bom a fazer isso”. Os mosquitos também desenvolveram resistência aos nossos últimos inseticidas, o que significa que os pesquisadores estão constantemente a tentar acompanhar o passo.

No entanto, em seu último discurso sobre o estado da União, em janeiro, o presidente Obama disse que há a possibilidade de acabar com a malária, “algo que irei promover para que o Congresso financie este ano”. Será realista esperar que esta doença terrivelmente resiliente acabe em breve? Não vai ser fácil, e o caminho pode não ser tão curto quanto alguns prometem, mas sim: Eis porque o reinado da malária poderá chegar ao fim daqui a pelo menos um quarto de século.

Nos últimos 15 anos, a taxa de mortalidade da malária foi reduzida em 60 por cento a nível mundial, uma “redução espetacular”, diz Graham Brown, especialista em doenças infecciosas e diretor fundador do Nossal Institute for Global Health da Universidade de Melbourne, e Stephen Rogerson, imunologista da Universidade de Melbourne. “O momento é propício para redobrar esforços”. Com a Organização Mundial de Saúde e a Agência Europeia de Medicamentos aprovando a primeira vacina da malária ‒ a primeira vacina de sempre contra qualquer tipo de parasita – vários países africanos começaram agora os testes. A vacina só é eficaz contra a espécie P. falciparum, e só funciona em cerca de 30 a 40 por cento das pessoas, mas é um grande avanço.

Além do mais, assim como Obama, organizações como a Malaria No More e Medicines for Malaria Venture têm defendido o fim da doença; além disso, a Fundação Bill e Melinda Gates contribuiu com quase 2 bilhões [Pt. 2 mil milhões] de dólares desde 2000 para acabar com a malária. No ano passado, o African Leaders Malaria Alliance aprovou um plano para eliminar a doença na África até 2030, e o Asia Pacific Leaders Malaria Alliance lançou o seu próprio Roteiro para Eliminação da Malária até 2030. E não é que já não se tenha eliminado a malária de grandes áreas no passado. Embora hoje em dia seja geralmente considerada uma doença de terceiro mundo, a malária proliferou nos EUA a partir do Sudeste subindo até Illinois, e na Europa proliferou até o início dos anos 1950. Em 1947, o Office of Malaria Control in War Efforts – que acabaria por se transformar no Center for Disease Control – começou uma campanha de uso intensivo de inseticidas e drenagem de pântanos para combater a doença. Em apenas seis anos, os Estados Unidos foram declarados livres da malária; uma década mais tarde, foi eliminada em Cuba também.

Mesmo onde os esforços de erradicação são insuficientes, ainda resultam benefícios consideráveis. Em um estudo de 2015, Jeremy Barofsky, um economista da Brookings Institution, e seus colegas, mostraram que, em 1960, a campanha de erradicação da malária do Uganda reduziu imediatamente a doença e como resultado, escreveram, “aumentaram os níveis de sucesso escolar em cerca de meio ano para homens e mulheres, aumentou a conclusão do ensino primário entre as mulheres e foi gerado um aumento de quase 40% na probabilidade de emprego assalariado dos homens”.

Hoje, o uso de medidas preventivas – como mosqueteiros tratados com inseticida, que impedem os mosquitos de morderem à noite –, tem sido uma das principais causas do progresso e continua a difundir-se. Enquanto isso, novos medicamentos, novos inseticidas, e até mesmo novas vacinas contra a malária poderão surgir em breve. E a capacidade de editar os genes dos mosquitos, usando uma ferramenta chamada CRISPR-Cas9, permite aos cientistas desenvolverem insetos no laboratório que sejam resistentes ao parasita Plasmodium, mas também que sejam capazes de passar essa resistência aos seus descendentes – espalhando rapidamente a resistência por toda a população dos insetos.

Isso não significa que livrar o mundo da malária será fácil, diz Peter Agre, diretor do John’s Hopkins Malaria Research Institute e membro do conselho consultivo da malária para a Fundação Bill e Melinda Gates. “Nas ilhas e em locais pontuais a malária pode ser eliminada”, diz Agre, “mas para fazê-lo em todo o mundo ou no meio do Congo – onde as medidas de saúde pública são rudimentares, onde há muita desorganização e problemas com ilegalidade, corrupção e falta de cuidados de saúde pública – o controlo da malária é muito mais difícil”. E os ganhos não são necessariamente permanentes. “Os importantes avanços das últimas duas décadas estão em sério risco por falta de financiamento”, Brown e Rogerson escreveram este mês, no Microbiology Austrialia. “Não só poderia estagnar o progresso, mas também poderiam voltar as grandes epidemias de malária para áreas liberadas, como já se assistiu muitas vezes no passado”. Em uma revisão sistemática publicada no Malaria Journal em 2012, Justin M. Cohen, diretor sênior do Global Malaria at the Clinton Health Access Initiative, e colegas, mostraram que há uma “necessidade urgente de desenvolver soluções práticas para as ameaças financeiras e operacionais à manutenção eficaz de programas actuais de controle bem sucedido da malária”.

Uma coisa que certamente irá ajudar é a redução da pobreza na África Sub-Sahariana, onde ocorrem cerca de 90 por cento das mortes por malária. Desde 1999, o número de pessoas abaixo da linha da pobreza – vivendo com menos de 1,90 dólares por dia –, caiu 15 por cento. Um estudo do ano passado anunciou este progresso considerável, e mostrou que muitos países africanos – embora não todos – “superaram a Índia” na redução da pobreza.

“De certa forma”, afirma Bruno Moonen, Vice-Diretor da Fundação Bill e Melinda Gates, “estamos a contar que, ao longo do tempo, o mundo se torne em um lugar melhor”.

 

Ian Evans é um escritor de ciência independente e estudante de mestrado no Science Journalism Department na Universidade de Boston.


Texto de Ian Evans publicado originalmente na Nautilus a 22 de fevereiro de 2016.

Tradução de Thiago Tamosauskas. Revisão de José Oliveira.

Botao-assineBoletim

Anúncios

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s