Mentira Política, Pandemia e Platão

… ou Porque a incerteza deve aumentar o compromisso com a verdade.

Por Celso Vieira

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Coronavírus, mentir pela Economia ou para salvar vidas? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

A contenção de pandemias de vírus que se propagam por contágio entre humanos, como é o caso da COVID-19, depende muito de uma ação coletiva coordenada. Nesse cenário, a veiculação de informações que guiam o comportamento das pessoas torna-se um dos principais campos de combate ao alastramento do vírus. Essa importância gera uma certa tentação em governantes, cientistas, jornalistas e usuários de redes sociais. Muitas vezes, parece que reter ou manipular certas informações aumenta as chances de se provocar uma reação da população que possa maximizar o bem coletivo.

A divulgação oficial de informações enganadoras em vista do bem-estar da população é denominada de mentira política. Não faltam candidatos a exemplos relacionados à pandemia da COVID-19. A China retardou o reconhecimento da situação e dificultou acesso à situação real nos estágios iniciais da epidemia. A justificativa seria evitar os danos econômicos provocados pela gravidade da situação. Por todo o mundo, foram veiculadas informações enviesadas sobre a ineficácia das máscaras na proteção contra o vírus sob a justificativa de que a falta de máscaras prejudicaria quem mais precisa delas: os profissionais da saúde. Além disso, vários líderes, como nos EUA e Brasil, fizeram declarações que procuram minimizar a gravidade da ameaça, mais uma vez, sob o pressuposto de que isso diminuirá os efeitos na economia do país.

Na tradição ocidental, o primeiro tratamento daquilo que veio a ser chamado de mentira política está na República, de Platão. Ali, com algum desconforto, Platão faz com que Sócrates admita que, em alguns casos, será necessário que os governantes da cidade-estado ideal enganem a população. A justificativa para essa concessão é a de sempre, o benefício coletivo que esse tipo de mentira proporciona. Há cientistas políticos que, de maneira pragmática, defendem que um governo que falar apenas a verdade, e toda a verdade, não pode funcionar. Muitos deles, é claro, citam Platão como um precursor.

Para pensarmos a situação, a primeira distinção necessária é excluir os casos de alguém que, após ter sido descoberto como um mentiroso, tenta se justificar afirmando que teria mentido para beneficiar os enganados. Isso não vale porque, nesse caso, a mentira, com o mesmo pretexto, passaria a ser usada em benefício próprio. É mesmo provável que a maioria das mentiras proferidas por políticos tenha em vista o benefício próprio ou sejam proferidas por ignorância e inconsequência face aos efeitos dessas mentiras. De qualquer forma, para que essa reflexão se siga de maneira apropriada temos que começar por aceitar esse cenário ideal de uma mentira que foi contada para, e tem o potencial de, promover o bem-estar coletivo.

Platão via uma conexão inerente entre a verdade e o bem e a mentira e o mal. Diante disso, a primeira pergunta é como é que ele poderia endossar a mentira política sob o pressuposto de que uma mentira tem a capacidade de gerar o bem coletivo. A solução aponta para uma conexão indireta entre a mentira política e uma verdade que a sustenta. Para tanto, quem mente deve

a) conhecer a verdade e saber como se deve reagir diante da situação que ela apresenta.

Além disso, todas as coisas sendo iguais, é melhor atingir um bom resultado recorrendo à verdade. Portanto, uma tal estratégia só se justifica se quem é enganado

b) não for capaz de reagir da maneira apropriada à verdade. Onde a apropriação é definida pelo bem que a tal reação vai gerar para eles mesmos, e

c) for beneficiado pela mentira, ou seja, a mentira deve conduzir o enganado ao comportamento apropriado para si. Comportamento esse que advém da compreensão da verdade.

Isso impõe uma certa restrição a quem não quer ser enganado. É preciso saber lidar com a verdade, o que implica desenvolver algumas virtudes intelectuais.

Um cenário parecido ao descrito acima subjaz à atitude de um governante ou especialista que assume que as pessoas são incapazes de entender uma razão para agir em vista do bem coletivo. Por exemplo, supor que os indivíduos só abrirão mão das máscaras de proteção (para que as existentes sejam usadas pela comunidade médica) se acreditarem que elas são ineficazes. Me parece que, muitas vezes, essa postura revela mais sobre a pessoa que faz a assunção do que sobre como é que as pessoas que vivem em uma sociedade se comportam. Por exemplo, a disposição de cooperar tem se mostrado repetidas vezes nessa pandemia. Portanto, convém especificar melhor os critérios que quem recorre à mentira política deve satisfazer. Será preciso

d) saber que a população não reagirá apropriadamente diante da verdade.

e) saber qual mentira levará os enganados a se comportarem de acordo com a verdade, ou seja, em benefício de todos.

É hora de uma breve autoavaliação sincera. Recorrer a uma mentira que beneficia os outros parece mais aceitável quando nós mentimos e mais revoltante quando somos enganados. Essa assimetria indica um problema. A diferença é tão grande que, muitas vezes, nem nos damos conta de como mudamos de atitude de modo inconsistente. Aparentemente não se vê grande inconsistência em reclamar que o governo chinês deveria ter sido mais transparente e, ao mesmo tempo, fazer declarações minimizando a gravidade da pandemia no seu próprio país.

De qualquer maneira, o critério para o uso de uma mentira legítima a partir da reflexão de Platão é bem restrito e embasado no conhecimento da verdade. Está muito claro que no caso de um vírus tão recente como o da COVID-19 estamos longe de conhecer todos os fatos relevantes. Tampouco podemos confiar que os líderes tenham conhecimento abalizado sobre o comportamento das pessoas face a uma situação tão incomum. De qualquer maneira, para entender o perigo do uso descuidado da mentira política é preciso encontrar a relação pragmática que subjaz à conexão entre verdade e bem.

A verdade é uma propriedade das nossas crenças e opiniões. Ela não tem uma relação direta com a realidade. Uma crença verdadeira é uma crença que descreve a realidade como ela é. É provável que seja uma minoria das nossas ações que sejam embasadas por nossas crenças, porém, no caso das nossas decisões refletidas, a maioria é tomada em vista de um exame das nossas crenças, opiniões e informações. Nesse caso, fica fácil ver que ter crenças que correspondem à realidade aumenta as chances de tomar decisões que nos ajudarão a conseguir o que queremos. Eis o valor pragmático da verdade; ela aumenta a taxa de sucesso nas nossas interações com a realidade. Por outro lado, crenças falsas gerarão decisões que têm pouca chance de gerar o resultado esperado.

Uma vez que adentramos o campo da tomada de decisão, fica claro que a mentira política seria aplicável apenas se a população utilizasse a mentira somente para decidir sobre o caso específico ao qual ela se aplica. Porém, não é assim que as crenças funcionam. Uma vez formada uma crença, ela é utilizável nos mais variados contextos. Tentar minimizar a gravidade da doença com o intuito de minimizar os seus efeitos na economia faz com que as pessoas formem a crença de que a pandemia não é grave. Uma vez que isso não corresponde à realidade, decisões tomadas a partir dessa crença poderão ter efeitos desastrosos. Foi isso que motivou as redes sociais a apagarem postagens de líderes de governo que minimizavam os riscos da pandemia.

O erro de políticos, especialistas, jornalistas e usuários de redes sociais é ingenuamente assumir que as crenças interferem diretamente na realidade quando o que ocorre é que as decisões tomadas a partir das crenças levam a ações que interferem na realidade. E, como vimos, decisões tomadas a partir de crenças que não correspondem à realidade podem não gerar o efeito esperado. Nem a desinformação, e nem mesmo informação, devem ser usadas como se elas fossem capazes de interferir na realidade. Para se diminuir o impacto na economia o que pode ser necessário fazer é implantar medidas econômicas que diminuam os efeitos econômicos da pandemia e não veicular informações.

Também é preciso abordar o contexto mais desafiador da mentira política, aquele das situações limítrofes em que não é fácil determinar se a informação divulgada é verdadeira ou falsa. A verdade é uma propriedade absoluta. Uma crença é verdadeira ou falsa, não há outra possibilidade. Porém, a nossa relação de conhecimento com a realidade não segue esse esquema. Isso quer dizer que muitas vezes as situações são muito complexas para formarmos um grupo de crenças verdadeiras capaz de descrever a realidade de maneira completa. Além disso, outras vezes, mesmo em posse de crenças verdadeiras falhamos em tomar a melhor decisão. Isso pede uma abordagem mais gradual na qual as nossas crenças podem se aproximar ou afastar da realidade.

Sensível a isso, Platão adota uma postura crítica nos seus diálogos em que, muitas vezes, reexamina uma conclusão que acabara de alcançar e acaba verificando que ela não sobrevive a um exame mais cuidadoso, pelo menos não sem adaptações. Trabalhar com as informações disponíveis, e colocar as nossas crenças sob exame, aumentam as chances de se formar uma crença mais próxima da verdadeira que terá, portanto, um maior valor pragmático.

Hoje em dia, temos métodos científicos complexos aplicados por diferentes campos do conhecimento para descrever diferentes aspectos da realidade. É difícil ter o conhecimento necessário para compreendê-los. Assim, em via de regra, os especialistas do campo relevante costumam apresentar as conclusões alcançadas de um modo simplificado para que essas sejam mais facilmente assimiláveis. No entanto, por vezes a concessão a essa espécie de licença de simplificação é grande o bastante a ponto de a informação ter pouca ou nenhuma proximidade com a verdade.

Se se divulga que a COVID-19 só é um risco apenas para as pessoas idosas, se abre o pressuposto para se considerar soluções como a imunidade de grupo alcançada por contágio, em oposição àquela alcançada por vacinação — pois à medida que as pessoas mais saudáveis fossem ganhando imunidade, o vírus não teria um número suficiente de infetados para atingir os grupos de risco (entre os quais estão os mais velhos). O vírus, de fato, é mais perigoso para pessoas idosas. A informação está no limiar entre simplificação e mentira. Quanto menos a informação corresponder à realidade, as decisões tomadas a partir dela poderão ter menos chance de gerarem os resultados esperados. Se os governantes da Inglaterra não tivessem anunciado o plano de se buscar uma imunidade de grupo, não se geraria um debate aberto e os contra-argumentos que demonstraram o quanto a opção era arriscada não prevaleceriam. Isso comprova o perigo de uma simplificação enganadora e as vantagens de envolver vários atores em um debate.

Como em todo espectro, os casos limítrofes entre uma simplificação pedagógica e uma simplificação enganadora podem ser difíceis de se identificar, inclusive para quem está na posição de divulgar a informação. É sempre importante lembrar a nossa tendência de minimizar os efeitos de uma mentira com boas intenções quando somos nós que a contamos. O maior antídoto contra a tendência de se incorrer nesse erro é ser sincero sobre como se chegou aquele resultado, envolver outros especialistas no debate e, no caso da divulgação, deixar sempre bem claro se o grau de confiança alcançado é alto ou baixo. Por exemplo, informar quando o número de testes ainda é pequeno demais para as ilações a partir daí serem confiáveis ou quando a informação ainda advém de uma hipótese generalizada a partir de casos similares, mas não iguais.

Essa breve reflexão sobre a mentira política nos permite ver que em contextos de incerteza o compromisso com a verdade é mais importante do que em qualquer outro cenário. Ainda que a mentira política tenha algum lugar em um governo democrático, esse lugar definitivamente não será onde a incerteza é grande. Nesses casos, como na pandemia atual, é papel de governantes, especialistas, jornalistas e usuários das redes sociais comunicarem as informações da maneira mais precisa possível e tentar envolver o maior número de pessoas no processo de refinamento das nossas crenças sobre o assunto. Assim se reduz a chance de erros e acelera a produção de crenças confiáveis sobre o assunto.

No caso da pandemia COVID-19, o teste real está adiante. Quando o número de casos começar a diminuir, as discussões sobre como se amenizar as restrições vão ganhar força. Nesse ponto, os governos deveriam ser sinceros sobre a sua linha de raciocínio, as suas projeções, modelos e os seus planos. A população, por sua vez, deveria estar à altura de lidar com a informação com competência e maturidade.


Texto de Celso Vieira.

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