Alguns Conceitos Úteis para Lidar com a Incerteza

Por Celso Vieira

Altruísmo Eficaz, como lidar com a incerteza? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Introdução

O Altruísmo Eficaz tem esse nome composto para deixar claro que a sua abordagem alia dois âmbitos, a vontade de fazer o bem aos outros e a convicção que se deve fazê-lo da maneira que maximiza os bons resultados. Teoricamente, a ideia não é difícil de defender. O bem é, por definição, bom. Fazer o bem aos outros é, portanto, bom. E, por fim, mais bem é melhor do que menos bem. No entanto, na prática, isso requer muito trabalho. Afinal de contas, a complexidade da realidade torna difícil o seguinte: antever os resultados das nossas ações, identificar e medir todas as consequências das ações escolhidas e, ainda, comparar com outras alternativas disponíveis que poderiam ser melhores. É por isso que pensar sobre a incerteza é inevitável para quem quiser tomar decisões, incluindo, aqueles que querem tomar decisões guiados pela motivação de fazer o bem da melhor maneira possível. No que se segue, apresentarei, de forma introdutória e discursiva, alguns conceitos que podem ajudar a refinar o nosso contato com as incertezas no âmbito do altruísmo.

Incerteza em nós

Uma primeira divisão útil é reconhecer quando a incerteza está em nós e quando ela está no mundo. A incerteza está em nós quando a informação necessária para se tomar uma decisão correta, em vista do objetivo que queremos, está disponível em uma fonte externa, mas, por algum motivo, falhamos em buscá-la, encontrá-la ou utilizá-la. Esses três verbos não compõem um pleonasmo, cada um deles é necessário para dar conta de um diferente aspecto das nossas incertezas.

Falhar em identificar uma incerteza acontece quando há algo que não temos certeza mas agimos como se tivéssemos certeza. Em teoria, esse caso pode parecer muito trivial a ponto de termos certeza de que não somos vítimas disso. No entanto, não notar quando estamos incertos ou confusos é uma capacidade que deve ser adquirida e não é nada fácil. Temos mais de 2.000 anos de exemplos. Seja no caso de Sócrates, que explicou o fato de ele ser mais sábio do que os outros porque ele, pelo menos, sabia que não sabia, seja no caso do efeito Dunning-Kruger, que identificou que, quanto mais mal informados estamos sobre determinado assunto, mais pensamos que somos competentes nesse assunto. Portanto, para buscar informações que diminuirão as nossas incertezas é preciso identificar essas incertezas.

O segundo passo é ser capaz de encontrar as informações que solucionam as nossas incertezas. Mais uma vez, também nesse caso somos vítimas de vários vieses intelectuais. O mais comum aqui, e perigoso, é o viés da confirmação, segundo o qual tendemos a procurar e a reter informações que confirmem as nossas posições anteriores. Reconhecer uma incerteza não implica em reconhecer que você dá a mesma força para as várias opções. Na maioria dos casos, a gente reconhece uma incerteza mas ainda assim atribui um grau de crença maior a uma hipótese. A dica aqui é aceitar uma abordagem falsificadora das ciências. Ou seja, você terá mais chances de se aproximar da verdade se procurar por informações que vão contra a sua opinião. Se você não conseguir provas de que a sua crença é infundada, aí sim pode confirmar a maior certeza que tem sobre essa crença.

Por fim, temos o uso das informações. Afinal de contas, mesmo quando temos crenças verdadeiras e estamos certo disso, não se segue que agiremos segundo elas. Mais uma vez, é preciso um esforço consciente para seguir as suas crenças bem fundamentadas ao tomar as suas decisões e ao realizar as suas ações.

Os três passos acima são muito importantes ao se lidar com o altruísmo. Uma vez que concordamos que o altruísmo é bom, é muito fácil pegar essa certeza e generalizar, assumindo assim que qualquer ação altruísta é uma boa ação. Mas não é. Uma boa ação é uma ação que faz o bem, e, para isso, ser motivada por uma intenção altruísta não interfere em nada. Assim, antes de fazer uma doação, é preciso reconhecer as nossas incertezas sobre a eficácia de uma instituição de caridade. Feito isso, é preciso procurar informações que confirmem a eficácia da intervenção proposta, com o cuidado de evitar o viés da confirmação, ou seja, devemos evitar ficar pelas informações que confirmam a nossa posição anterior. Por fim, é preciso realmente usar essas informações ao adotar o nosso comportamento altruísta. Isso pode implicar em não doar para uma causa que te move mais do que as outras por qualquer outro fator que não seja a sua eficácia.

Porém, o campo da incerteza não se reduz à nossa atitude diante do mundo. Uma vez que a realidade é complexa, há lugar para o que podemos chamar de incerteza no mundo.

Incerteza no mundo

Ao decidir como agir temos que considerar o que vai acontecer no futuro. Se nos restringirmos ao âmbito da física, podemos aceitar um universo determinístico em que o estado do mundo agora tem toda a informação necessária para prevermos o que vai acontecer a seguir (no entanto, nem no caso da física essa posição é unânime). Porém, no caso das nossas decisões, temos que lidar com âmbitos como a biologia, por exemplo, no caso de intervenções em saúde, e da economia e política, no caso de tentarmos prever o que vai acontecer com mercados e governos. Nessa abordagem, os estados do mundo futuro sempre abarcam um grau elevado de incerteza.

O caso mais extremo é a incerteza Knightiana. Trata-se de uma incerteza que não é nem quantificável e nem mensurável e, desse modo, não há um modo racional de lidar com ela. No entanto, para outros tipos de eventos existem dois tipos de modelo que nos ajudam a lidar com incertezas no mundo.

O modo mais intuitivo de se lidar com a incerteza no mundo acerca de resultados futuros é buscar situações semelhantes passadas, aprender com os resultados, e estimar as chances de o que acontecerá. Isso vai funcionar nos chamados eventos de light-tail (literalmente, caudas-leves). O nome tenta descrever a representação da situação em um gráfico em que os extremos, ou seja, as caudas, são as exceções e a parte mais informativa são as ocorrências médias e mais recorrentes. Os eventos de caudas-leves seguem uma distribuição normal. Nesse caso, se você quer saber a incidência de vermes em uma população você pega uma porção aleatória dessa população e mede a incidência de vermes ali. Se a distribuição é normal, a média dessa porção da população vai ser suficientemente próxima da média total para te informar sobre o total, incluindo em tempos futuros (caso as condições permaneçam como estão). Do mesmo modo, se você quer testar a eficácia de um tratamento anti-vermes, uma mesma abordagem vai te dar uma estimativa da eficácia da distribuição futura de tratamentos.

No entanto, nem tudo no mundo segue uma distribuição normal. Há também o caso dos heavy-tails (literalmente, caudas-pesadas). O nome, mais uma vez, tenta capturar a peculiaridade dessa distribuição. Nesse caso, a média de eventos similares não é informativa porque os resultados não seguem uma distribuição normal. Pelo contrário, são alguns eventos raros e incomuns, aqueles que ficam nas caudas, que têm a maior relevância. As guerras e outras catástrofes são exemplos de caudas pesadas. O número total de mortes em guerras depende desproporcionalmente de algumas guerras que tiveram muito mais mortes do que o normal. Assim, se você for estimar quantas mortes são causadas por uma guerra, e, ao selecionar aleatoriamente, não computar um desses eventos extraordinários, a sua estimativa vai ser imprecisa.

Falta de Pistas

Os modelos matemáticos acima não esgotam o modo de tratarmos das incertezas no mundo. Segue-se uma abordagem filosófica do problema da falta de pistas (cluelessness). Nesse caso, é útil dividir o problema em duas gradações.

O caso da falta de pistas extrema nos convida a perceber que cada ação parece desencadear uma cadeia de reações nas quais a grande parte das reverberações é, não apenas, imprevisível antes da ação, mas também inverificável posteriormente. Por exemplo, se você decide ajudar uma velha senhora a atravessar a rua, e faz com que um carro fique parado na faixa por um segundo a mais, o que faz com que o motorista veja um anúncio sobre doação de órgãos que ele não veria, que desencadeia a sua decisão de se tornar um doador, que acaba salvando uma vida de alguém no futuro que precisará de um órgão no exato momento em que o motorista morrer de uma maneira em que alguns de seus órgãos podem ser aproveitados. Essa visão parece ser tão plausível quanto inútil, pois dela não parece poder se seguir nenhum conselho prático. Afinal de contas, qualquer que seja a nossa ação, seus resultados serão imprevisíveis e incomputáveis. Por exemplo, no cenário acima, não ajudar a senhora a atravessar a rua pode muito bem gerar mais resultados positivos.

Entretanto, reconhecer a plausibilidade da falta de pista extrema pode, e deve, chamar a atenção para uma versão mais tratável do problema. Na falta de pistas amena ainda temos uma ação que gera consequências que são difíceis de prever e difíceis de verificar posteriormente, mas que, se procurarmos com atenção, podemos identificar e utilizar para guiar a nossa tomada de decisões. Por exemplo, uma intervenção se prova eficiente para atingir o resultado ao qual se propôs, a saber, reduzir a pobreza dos moradores de uma região. No entanto, pode se notar que com o aumento da renda, também aumenta o consumo de carne, um resultado indesejável para o bem-estar animal. Nesse caso, tínhamos uma falta de pistas amena que, depois de descoberta, nos obriga a rever as nossas decisões. A solução, é claro, não deve ser acabar com a intervenção, mas complexificá-la para ser capaz de funcionar na realidade complexa.

Esse último caso ilustra também como todas as ferramentas acima devem ser usadas em conjunto para melhorar o nosso modo de lidar com a incerteza. Por exemplo, para reconhecer os resultados da intervenção, tanto os positivos quanto os negativos, seria usado um modelo seguindo a distribuição normal. Além disso, para reconhecer o resultado negativo inesperado é preciso adotar uma postura consciente sobre a incerteza em nós e sempre buscar modos robustos de confirmar as nossas crenças.

Incerteza em função do tempo

Um outro aspecto que vale a pena pensar é a relação entre incerteza e o tempo. Uma parte influente do Altruísmo Eficaz defende que deveríamos adotar uma posição longotermista ao tentar fazer o bem para a humanidade. O longo termo, nesse caso, é usado em sentido muito forte. O convite é para considerarmos a sobrevivência e qualidade de vida da humanidade daqui a milhares e milhões de anos. A reflexão sobre a incerteza acima é muito importante para essa abordagem. Por exemplo, a identificação de possíveis eventos de caudas-pesadas deve atrair uma parcela importante da reflexão sobre a sobrevivência da humanidade. Afinal de contas, eles são, por definição, difíceis de lidar com e as ferramentas tradicionais que funcionam com as distribuições normais não ajudarão.

O mais comum é pensá-los em uma função crescente. Quanto mais um evento está afastado no futuro, maior a incerteza. Assim, tanto é mais difícil de prever o que vai acontecer em um futuro muito distante, quanto é difícil identificar os resultados que uma ação gera após um longo período de tempo. Afinal de contas, quanto maior o intervalo, mais coisas acontecem que acabam interferindo nos resultados. Para medir se o benefício de uma intervenção faz a diferença vinte anos depois, é preciso controlar os vários e vários fatores que acontecem nesse intervalo de tempo e que podem ter tido uma maior influência no resultado. Diante disso, há quem ache que a influência de uma ação passada se dilui tanto com a passagem do tempo que não deveríamos sequer considerá-la como uma causa.

Há quem ache que o aumento da incerteza em função da passagem do tempo deve servir de razão para nos concentrarmos nas ações que geram resultados em um prazo mais curto que serão, portanto, mais fáceis de ser identificados e mensurados. No entanto, há quem ache que como o futuro distante tem uma maior incerteza, também é o caso que temos mais poder de intervir nele, afinal de contas, no caso do futuro próximo grande parte das ações que vão interferir na cadeia causal já foram tomadas ou serão difíceis de mudar de maneira imediata. Além disso, também pode ser o caso que, uma vez que começarmos a expandir o intervalo de tempo das intervenções que consideramos, ficaremos melhor em lidar com eles e, assim, poderemos intervir no futuro.

Conclusão

Como era de se esperar em uma reflexão inicial sobre a incerteza, não há conclusões bem definidas. No entanto, agora temos uma primeira compreensão de conceitos importantes para começarmos a adotar uma atitude mais informada acerca dos vários aspectos e âmbitos relacionados à incerteza diante das decisões que tomamos. Vimos que em relação à incerteza em nós, devemos nos preocupar em identificar as incertezas, achar informações que as diminuam e seguir essas informações nas nossas decisões. Além disso, em relação à incerteza no mundo, vimos como dois tipos de eventos pedem tipos de abordagem diferente em relação à incerteza. No caso das caudas-leves, o uso das ferramentas tradicionais de probabilidade pode nos ajudar a fazer boas previsões e medições. Por outro lado, no caso das caudas-pesadas a incerteza é maior por causa da importância de eventos raros. Aqui, uma outra abordagem será necessária. Além disso, vimos como a falta de pistas extremas e amenas se relacionam e podem guiar as nossas ações. Por fim, colocamos alguns desses conceitos para pensar a nossa atitude diante do aumento da incerteza ao longo do tempo. Espero então que a observação destas ferramentas concetuais nos torne mais aptos a enfrentar as difíceis decisões no âmbito do altruísmo eficaz.


Por Celso Vieira.

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