Dúvidas comuns sobre especismo e libertação animal

Por Lara André

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Tem dúvidas sobre o especismo? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Especismo é a discriminação de “espécies”?

Espécies não sentem dor, espécies não sentem prazer. Seres sencientes sentem dor, seres sencientes sentem prazer. Apenas seres sencientes podem ser discriminados pois apenas seres sencientes podem ter experiências positivas e negativas e, portanto, serem beneficiados ou prejudicados por ações e omissões. Uma espécie é uma entidade não senciente.

Por isso é incorreto dizer que especismo é a “discriminação de espécies”, ou que é ser “contra espécies”. Especismo é a discriminação de indivíduos sencientes que não pertencem a determinada(s) espécie(s). A definição de especismo está alicerçada no critério da senciência, e isso significa que apenas indivíduos que são sencientes podem ser vítimas de especismo.

O que é o especismo antropocêntrico?

O especismo antropocêntrico significa que em uma determinada situação, um indivíduo senciente não humano é discriminado em favor de um ser humano. Por exemplo, quando um ser humano aprisiona, escraviza ou mata um animal não humano para atender a algum interesse humano (por exemplo, para sua diversão ou para saciar o paladar), desconsiderando completamente o interesse que esse animal senciente tem em viver e em não sofrer.

O que seria um outro exemplo de especismo antropocêntrico?

Quando um ser humano defende que não se deve resgatar ou medicar um animal não humano em uma situação de necessidade, mas defende que um ser humano em situação bastante semelhante ou mesmo igual deveria certamente ser ajudado.

O que é o especismo não antropocêntrico?

O especismo não antropocêntrico também é bastante comum. Por exemplo, muitas pessoas protegem amplamente cães e gatos e ao mesmo tempo ignoram completamente o sofrimento intenso de outros animais que têm exatamente os mesmos interesses básicos em não sofrer e em viver, mas que vivem, por exemplo, em situação precária nas ruas (como pombos ou ratos), ou defendem práticas danosas contra esses animais, mesmo quando isso não tem como objetivo beneficiar ou privilegiar seres humanos.

O que seria outro exemplo de especismo não antropocêntrico?

Quando uma pessoa defende que cães domesticados devem ser vacinados e medicados contra uma determinada doença e ao mesmo tempo defende que um animal selvagem que pode ser vítima da mesmíssima doença, por exemplo, um lobo ou uma raposa, não deve ser nem vacinado, nem medicado caso fique doente, mesmo que existam recursos para tal.

Só provocamos sofrimento aos animais para nosso benefício?

Nesses últimos exemplos fica bem claro que mesmo quando a discriminação especista não gera benefícios para seres humanos, pode ainda assim causar danos terríveis a uma quantidade enorme de animais não humanos.

Só os nossos danos diretos provocam sofrimento aos animais?

Animais não humanos podem sofrer enormes danos em inúmeras situações, mesmo que não tenham um status de propriedade, ou seja, mesmo que não sejam animais explorados e mesmo que não sejam vítimas diretas de ações humanas danosas. Animais não humanos podem sofrer também por nossas omissões, sem que seja necessário nenhum ato explícito de violência contra as vítimas. Por exemplo, é comum muitas pessoas argumentarem que animais doentes ou feridos que vivem na natureza não devem ser resgatados ou receber atendimento médico, ao passo que se as vitimas forem seres humanos, considerariam tal omissão de socorro inaceitável. Neste exemplo fica claro que o especismo exacerba o sofrimento dos animais não humanos, mesmo que não sejam vítimas de danos causados diretamente por seres humanos.

Especismo é só desconsiderar os interesses de um animal?

É importante ressaltar também que o especismo acontece não apenas quando se desconsidera completamente os interesses de um indivíduo senciente, mas também quando se dá um peso menor a esses interesses do que se daria a interesses similares de indivíduos membros de espécies privilegiadas – a espécie humana no caso do especismo antropocêntrico ou outras espécies mais valorizadas, no caso do especismo não antropocêntrico. Por exemplo, muitas pessoas podem reconhecer que tanto cães como galinhas são sencientes e têm interesse em não sofrer, mas podem considerar mais importante e prioritário aliviar uma dor leve em um cão do que aliviar uma dor muito intensa em uma galinha.

Pertencer a uma espécie é um critério moralmente relevante?

A pertença a uma espécie é um critério moralmente irrelevante para se determinar se um indivíduo pode ou não ser torturado ou morto, se merece ou não ser ajudado em caso de necessidade. O que importa saber é se o indivíduo em questão tem ou não a capacidade de sentir e sofrer, ou seja, se é ou não senciente e se há algo que podemos fazer para aliviar seu sofrimento ou evitar sua morte.

Deveríamos então libertar todos os animais?

Libertação não é o mesmo que liberdade. Por isso não basta dizer que tudo o que os animais não humanos precisam é de libertação. Libertação é obviamente algo extremamente necessário, mas não é suficiente para garantir que os animais não humanos possam desfrutar verdadeiramente de suas vidas em liberdade. Já entendemos isso no caso dos seres humanos, mas ainda é preciso fazer as pessoas pensarem da mesma maneira em relação aos animais não humanos.

Porque não basta libertar os animais?

A dura realidade que frequentemente ignoramos é que grande parte dos animais que não vivem aprisionados e escravizados pelos seres humanos não podem usufruir plenamente de sua liberdade pois as condições em que vivem são péssimas. Passam fome, sede, sofrem com doenças, acidentes, ferimentos, frio ou calor intensos, medo, stress, isolamento, frustração, abandono, etc. Que liberdade é essa? Liberdade para sofrer? Liberdade para morrer uma morte violenta e prematura? O planeta é em grande parte hostil à vida senciente e vastamente indiferente ao sofrimento. Mas nós podemos fazer a diferença.

Qual a nossa responsabilidade face aos animais?

Não precisamos pensar que apenas indivíduos da nossa própria espécie merecem viver bem. Nem todo sofrimento que afeta animais sencientes de outras espécies resulta de ações maléficas de seres humanos. Nem por isso devemos achar que não temos nenhuma responsabilidade em alterar essa situação (que é muito mais catastrófica do que se imagina) em favor dos animais. Podemos sim causar o mal, mas podemos também causar o bem. Podemos agir altruisticamente de maneira a beneficiar muitos outros indivíduos, apenas porque queremos viver em mundo melhor e mais justo.

Que condições seriam necessárias para os animais serem livres?

Não basta sermos “livres de” (por exemplo, livres de correntes, grades, jaulas, gaiolas, etc.), também precisamos ser “livres para” (livres para desfrutar da vida com saúde, alimentos, segurança, etc.), isso exige condições mínimas de bem-estar. E de maneira geral, todas essas condições precisam ser criadas e com bastante esforço. No caso dos seres humanos, quase ninguém acha que apenas não escravizarmos, aprisionarmos, torturarmos ou matarmos uns aos outros é o suficiente. Entendemos que é preciso ir além disso, que precisamos nos ajudar mutuamente, que precisamos nos esforçar para melhorar o mundo ao nosso redor, corrigir injustiças, criar boas condições de vida, dar atenção especial aos indivíduos mais vulneráveis.

Entendemos que a miséria, a fome, as doenças, o abandono e tantos outros males são condições terríveis que causam sofrimento intenso e que precisamos encontrar soluções para tudo isso. Fazemos isso não para tornarmos as outras pessoas mais fracas e dependentes, mas justamente pelo contrário, para que vençam suas dificuldades e para que, esperançosamente, consigam ser verdadeiramente livres e autônomas para viver bem suas vidas.

No caso dos animais não humanos, a maioria das pessoas ainda acha que tudo o que basta é que paremos de explorá-los e matá-los e que fora isso não temos mais qualquer responsabilidade em melhorar o mundo para eles também. Isso é injusto e, infelizmente, muito especista. Todos nós seres sencientes merecemos viver não só em liberdade, mas também viver bem. Mas nem sempre a vida em liberdade coincide com uma vida minimamente boa.

Sofrimento é ruim para todos os seres sencientes independentemente de ser ou não causado por seres humanos. Mas o que é bom, como tudo o que reduz a dor e propicia o bem-estar, também é bom para todos e deve ser estendido e repartido sem que discriminemos indivíduos sencientes apenas porque pertencem a outras espécies.



Por Lara André

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