A lição da Ómicron

Por Kelsey Piper (Vox)

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Ómicron primeiro, sobrevivíamos? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Segundo algumas estimativas, cerca de 40% da população dos Estados Unidos terá sido infectada com a variante Ómicron da Covid-19 quando a onda actual desaparecer por completo. A OMS estima que metade da Europa também terá sido infectada. E quase todas essas infecções terão ocorrido entre meados de Dezembro e o início de Fevereiro.

É difícil dizer ao certo, mas há boas razões para pensar que nunca antes tantas pessoas foram infectadas com um vírus que surgiu num espaço de tempo tão curto. Durante a maior parte da história, as doenças viajavam muito mais lentamente, transportadas por viajantes em barcos ou cavalos.

Foram precisos anos para que grandes pragas históricas como a Peste Negra se espalhassem pela Europa e pela Ásia. Estima-se que um dos maiores eventos de mortes em massa da história causados por doenças infecciosas, a propagação da varíola e outras doenças de origem europeia através das Américas, tenha levado entre alguns anos a uma década.

Mas agora, graças ao nosso mundo muito mais interligado, um vírus incrivelmente contagioso precisou apenas de cerca de dois meses desde a sua primeira detecção — 11 de Novembro no Botswana — até à altura em que provavelmente mais de 2 mil milhões [Br. 2 bilhões] de pessoas tinham sido infectadas. 

Temos uma sorte incrível que a Ómicron pareça ser mais suave do que as estirpes anteriores de Covid-19 e que as vacinações e a exposição prévia tenham criado uma resistência imunitária. O enorme pico de casos em todo o mundo — apesar de sobrecarregar gravemente os sistemas de saúde — não tem sido igualado por um pico equivalente em hospitalizações e mortes. 

Penso que é difícil valorizar a enorme desgraça que evitámos: Se a Ómicron tivesse sido substancialmente mais mortífera, haveria muito pouco que pudéssemos ter feito para travar o número de mortes. 

Quando as defesas são derrotadas

As estirpes anteriores do vírus foram contidas com sucesso em alguns países, mantendo fortes controlos fronteiriços, colocando coercivamente as pessoas em quarentena e utilizando instrumentos epidemiológicos tradicionais como o rastreio de contactos. 

A China reprimiu um grande surto inicial com medidas sem precedentes, incluindo medidas de vigilância, isolar cidades, fechar as pessoas nas suas casas e outras políticas mais extremas do que as que foram aplicadas mesmo noutros países que suprimiram com sucesso o vírus, como a Nova Zelândia.

Nada do que o mundo experimentou funciona tão eficazmente contra uma variante tão contagiosa como a Ómicron. Propagou-se na Austrália, que em grande parte manteve do lado de fora as primeiras estirpes de Covid-19 durante dois anos. A Austrália relata agora 1,5 milhões de infecções no total e cerca de 1,3 milhões destas nas últimas três semanas (embora os casos pareçam estar a baixar drasticamente agora). 

A China ainda não reconheceu que mesmo as suas medidas draconianas podem não estar à altura da Ómicron, mas parece quase inevitável — especialmente quando os viajantes para os Jogos Olímpicos começam a aparecer.

Claro, a propagação da Ómicron foi ajudada pela fadiga acumulada de quase dois anos de luta com regras de Covid em constante mudança, para além do facto de que os vacinados e os que já levaram a dose de reforço estarem altamente protegidos da hospitalização e da morte, reduzindo os riscos após contrair infecção. Mas os elevados números de infecção em países que tentaram genuinamente manter uma barreira apertada face à Ómicron sugerem-me que o mundo perderia a luta mesmo que estivéssemos dispostos a lutar. 

É muito difícil adivinhar o que teria acontecido se a Ómicron tivesse chegado primeiro e se tivesse sido confrontada com as medidas de distanciamento social, confinamentos e os cuidados que dominaram nos primeiros meses da pandemia — muito menos o que teria acontecido se a Ómicron tivesse chegado primeiro e os EUA tivessem respondido com uma verdadeira abordagem de fronteiras fechadas e de quarentena forçada como a abordagem da Austrália. 

Uma possibilidade, porém, é que nenhuma sociedade tem uma forma eficaz de impedir a propagação de um vírus tão contagioso como a Ómicron — mesmo que mate 10% daqueles que infecta, como o vírus original da SARS em 2003, ou mesmo que tenha consequências devastadoras a longo prazo para quase toda a gente que adoece. Estamos terrivelmente vulneráveis.

O tiro de aviso

Não temos de estar. Tem havido muito poucos avanços em equipamento de protecção pessoal nas últimas décadas, mas deve ser possível conceber máscaras e unidades de ventilação pessoal que sejam menos desagradáveis de usar e que façam mais para prevenir infecções. 

Podemos tornar-nos melhores a modificar as vacinas para se adequarem a uma nova doença e a distribuí-las rapidamente — mas isso teria de ser incrivelmente rápido para nos mantermos um passo à frente de algo que se propague da mesma forma que a Ómicron. 

E podemos melhorar a detecção precoce, de maneira a que tenhamos mais tempo para reagir a doenças que se movem tão rapidamente como a Ómicron. 

Mas não nos devemos iludir: A Ómicron foi uma amostra daquilo que aconteceria caso surgisse um novo vírus extremamente contagioso. E o que aconteceu foi que 40% dos EUA e o que a OMS estima ser mais de 50% da Europa, foram infectados em menos de dois meses. A maioria dessas infecções teria sido incrivelmente dispendiosa — económica e socialmente — de se prevenir, mesmo que o vírus tivesse sido suficientemente mortal para justificar as medidas mais extremas que somos capazes de tomar.

Uma nota de optimismo: Alguns peritos pensam que uma doença tão contagiosa como a Ómicron é quase que garantidamente menos mortal do que a SARS-1 foi em 2003. Há algumas razões evolutivas para esperar um compromisso entre a transmissibilidade de uma doença e a sua virulência. Mas esse compromisso nem sempre aparece nas doenças da vida real; não seria sensato contar com ele.

Os investigadores que estudam os riscos biológicos têm vindo a avisar-nos dos perigos que uma pandemia grave poderia representar desde há muito tempo, e um vírus altamente contagioso e que se move rapidamente tem sido sempre o cenário de pesadelo. Mas uma coisa é escrever, como fiz antes do aparecimento da Ómicron, que em princípio é possível que surja alguma variante da Covid-19 que seja tão contagiosa como o sarampo. (A Ómicron nem sequer é tão contagiosa como o sarampo, pelas nossas actuais estimativas do R0.) Outra coisa é ver isso a acontecer e ver exactamente quais são as consequências. 

Quarenta por cento em dois meses. Teria sido apocalíptico se a variante viral tivesse sido uma variante mortífera. Se depois do sinal de alarme pusermos o despertador para despertar mais tarde, poderemos nunca mais vir a acordar.


Publicado originalmente por Kelsey Piper na Newsletter da Vox, a 25 de Janeiro de 2021.

Tradução de Rosa Costa e José Oliveira.

 

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