A The Life You Can Save lança recomendações climáticas eficazes!

Por Anam Vadgama (The Life You Can Save)

Crise Climática, como combater? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Caso se pretenda erradicar a pobreza extrema durante a nossa geração, temos também de enfrentar a crise climática iminente. 

A investigação é clara e alarmante: as alterações climáticas são reais e estão já a afectar todas as regiões habitadas em todo o planeta. [1] As temperaturas globais e o nível do mar estão a subir rapidamente, os glaciares globais estão a recuar, os padrões de precipitação estão a mudar e as zonas climáticas estão a deslocar-se.  As alterações climáticas são a questão determinante do nosso tempo, e temos de agir agora para evitar consequências catastróficas.  

A investigação climática mostra uma ligação clara entre as alterações climáticas e a pobreza extrema. A crise climática irá afectar toda a gente em todo o lado, mas atingirá mais duramente os que se encontram em situação de pobreza extrema. É por isso que, como parte da nossa missão mais vasta de combate à pobreza extrema, a The Life You Can Save irá começar a recomendar organizações sem fins lucrativos eficazes a operar na área de causa das alterações climáticas. Para quem nos apoia nos EUA, acrescentaremos à nossa lista cuidadosamente organizada de instituições de caridade recomendadas três organizações sem fins lucrativos de acção climática com alto impacto e custo-eficazes, com base na investigação da Giving Green e do Founders Pledge. Para os australianos que nos apoiam, iremos partilhar o guia climático da Giving Green Austrália. 

Leia abaixo para saber mais. 

O que são as alterações climáticas? 

O clima é o estado do tempo, em média, num local durante um período de tempo. As alterações climáticas são as alterações nessas condições médias “que persistem por um período prolongado, tipicamente décadas ou mais”.[2] As alterações climáticas podem ocorrer devido a processos naturais, tais como variações no ciclo solar. Contudo, existe um amplo consenso científico de que, desde o século XIX, as actividades humanas têm sido a principal causa das alterações climáticas [3] e a influência humana tem aquecido o clima a um ritmo sem precedentes. Estas actividades, tais como a queima de combustíveis fósseis, aumentam a concentração de gases com efeito de estufa (tais como o CO2, o metano e o óxido nitroso) na atmosfera. Em 2019, as concentrações atmosféricas de CO2 foram superiores a qualquer momento em pelo menos dois milhões de anos, e as concentrações de metano e óxido nitroso foram superiores a qualquer momento nos últimos 800 000 anos. [4] Estes gases retêm o calor do sol, provocando o aumento da temperatura do planeta. Dada a interconectividade no nosso planeta, as temperaturas mais quentes desencadeiam consequências catastróficas, incluindo secas, escassez de água, ondas de calor, inundações e incêndios.

A referência científica mais difundida para medir o aquecimento global é o aumento da temperatura média em relação aos níveis pré-industriais. Esta já aumentou 1,1°C.  O Acordo de Paris de 2015 visa assegurar um aumento não superior a 2°C até 2100 e tenta limitá-lo a 1,5°C, embora mesmo esse cenário poderia ser catastrófico. A escala da acção global necessária para limitar o aquecimento a 1,5°C – um cenário devastador, no entanto constitui a melhor das hipóteses – é historicamente sem precedentes e a janela de oportunidade está a fechar-se rapidamente. [5]

Qual é a relação entre as alterações climáticas e a pobreza extrema? 

As alterações climáticas irão, simultaneamente, empurrar mais pessoas para a pobreza extrema e afectar catastroficamente as vidas das pessoas que já se encontram em pobreza extrema. Segundo o Banco Mundial, “pode ir até 132 milhões o número de pessoas que poderão cair na pobreza até 2030 devido aos múltiplos efeitos das alterações climáticas”. [6] Os efeitos das alterações climáticas sobre os pobres do mundo incluem as deslocações forçadas, a destruição de casas e propriedades, os efeitos sobre a saúde devido a eventos climáticos extremos (secas, inundações, incêndios, furacões, exposição a temperaturas extremas) e os impactos sobre o rendimento das colheitas, os preços dos alimentos e a insegurança alimentar. [7]

Impactos na segurança alimentar: 

As alterações climáticas irão ameaçar a segurança alimentar. Os efeitos das alterações climáticas tais como o aumento da temperatura global, a alteração dos padrões de precipitação, o aumento dos danos causados por pragas, a maior frequência de eventos extremos tais como o calor, a seca e as inundações podem ter grandes efeitos negativos no rendimento das colheitas [8], particularmente nos países em desenvolvimento. As alterações climáticas podem resultar em perdas globais de rendimento das colheitas de 30% em 2080, sendo mesmo responsáveis por medidas de adaptação. [9]

Até 2050, as principais culturas de cereais cultivadas em toda a África serão afectadas negativamente, embora com variações regionais e diferenças entre os tipos de culturas.  As alterações climáticas poderão levar a uma redução do rendimento médio de 13% na África Ocidental e Central, 11% no Norte de África e 8% na África Oriental e Austral. [10] As perdas de rendimento esperadas poderão traduzir-se em preços agrícolas mais elevados, o que torna extremamente difícil garantir a segurança alimentar em regiões em desenvolvimento como a África Subsaariana e o Sul da Ásia. Em conjunto, menos colheitas e os preços dos alimentos mais elevados podem aumentar os riscos de insegurança alimentar e fome e empurrar as populações vulneráveis para a pobreza extrema. Note-se que as alterações nos preços dos alimentos afectam desproporcionalmente aqueles que vivem na pobreza, que gastam uma porção maior do seu orçamento em alimentos do que o resto da população. [11]

Impactos na saúde: 

As alterações climáticas terão impactos devastadores na saúde. Entre 2030 e 2050, prevê-se que as alterações climáticas causem aproximadamente 250 000 mortes adicionais por ano devido a condições evitáveis, tais como a desnutrição, a malária, a diarreia e o stress pelo calor. As regiões com fracas infra-estruturas de saúde – sobretudo nos países em desenvolvimento – serão as menos capazes de fazer face a esta situação. [12]

Desnutrição e atraso de crescimento: As alterações climáticas têm impacto na agricultura (menor produtividade alimentar e preços mais elevados dos alimentos) e nas catástrofes naturais (aumento da seca ou da escassez alimentar induzida por inundações) podem levar aqueles que já se encontram na pobreza a reduzir o seu consumo e qualidade alimentar, resultando em desnutrição e atraso de crescimento, especialmente nas crianças. Até 2030, mais 7,5 milhões de crianças poderão sofrer de atraso de crescimento. E provas recentes sugerem que as alterações climáticas podem ter um impacto negativo na qualidade nutricional dos alimentos (por exemplo, o seu teor em micronutrientes). [13]

Malária: temperaturas mais quentes e alterações nos padrões de precipitação aumentam a adequação do habitat e os potenciais locais de reprodução de insectos que nos picam, resultando num aumento da transmissão de doenças transmitidas por vectores, tais como a malária. [14] Áreas que actualmente não estão em risco face à  malária, devido a altitudes mais elevadas, poderão estar novamente em risco, se ocorrerem tais alterações na adequação do habitat e nos locais de reprodução. [15] Globalmente, o aquecimento de 2°C ou 3°C poderia aumentar o número de pessoas em risco de malária na ordem dos 5%, ou mais de 150 milhões de pessoas. Em África, a malária poderia aumentar de 5 a 7% entre as populações em risco em altitudes mais elevadas, levando a um aumento potencial do número de casos na ordem dos 28%. [16]

Diarreia e outras doenças de origem hídrica: O aumento da temperatura e a escassez de água podem levar ao aumento de doenças de origem hídrica. Geralmente, o aumento das temperaturas favorece o desenvolvimento de agentes patogénicos e as alterações climáticas induzidas por secas, inundações e fenómenos climáticos extremos reduzem o abastecimento de água potável. Tal escassez de água e stress pode levar populações vulneráveis a utilizar fontes de água de menor qualidade e assim aumentar as doenças associadas à água, tais como a diarreia, a cólera e a esquistossomose. Os impactos climáticos podem aumentar o impacto da diarreia na ordem dos 10% até 2030 em algumas regiões. Estima-se que, até 2030, se registem 48 000 mortes adicionais entre crianças com menos de 15 anos de idade, resultantes de doenças diarreicas.[17]

Estas condições não ameaçam apenas a saúde física das pessoas que vivem em pobreza extrema. Também ameaçariam a sua subsistência e reduziriam as oportunidades de escapar à pobreza — por exemplo, impedindo-os de ir à escola ou para o trabalho. 

Catástrofes Naturais: 

As catástrofes naturais empurram 26 milhões de pessoas para a pobreza todos os anos, com impactos a longo prazo no capital humano e no bem-estar. [18] Espera-se que as alterações climáticas aumentem as catástrofes naturais e os fenómenos climáticos extremos, tais como ondas de calor, secas, inundações e ciclones. Por exemplo, o número de pessoas expostas a inundações fluviais poderia aumentar de 4 a 15% em 2030 e de 12 a 29% em 2080, e os riscos de inundações costeiras podem aumentar rapidamente com a subida do nível do mar. [19] Globalmente, estima-se que cerca de 1,47 mil milhões [Br. bilhões] de pessoas vivem em zonas com elevado risco de inundações, incluindo cerca de 132 milhões de pessoas pobres, conforme definido pelo limiar de pobreza internacional de 1,90 dólares por dia. Caso se utilizem linhas de pobreza mais elevadas (por exemplo, a linha dos 5,50 dólares), cerca de metade da população exposta a inundações catastróficas é pobre. [20]

Há provas substanciais que indicam que as pessoas que vivem na pobreza são especialmente vulneráveis a choques, tais como catástrofes naturais, e perdem mais quando tais choques ocorrem. Por exemplo, frequentemente não guardam as suas poupanças em instituições financeiras e possuem a sua riqueza sob formas vulneráveis, tais como gado. A qualidade dos seus bens é também inferior à média e menos resistente a catástrofes naturais. Uma casa típica num bairro de lata [Br. favela], por exemplo, pode ser completamente destruída mesmo por uma pequena inundação. Além disso, a vulnerabilidade global das pessoas pobres é exacerbada pela sua dependência dos ecossistemas e pela grande fracção do seu orçamento dedicada à alimentação. Por conseguinte, espera-se que as catástrofes naturais induzidas pelo clima venham a agravar a pobreza extrema. [21]

Como é que The Life You Can Save seleccionou recomendações eficazes face às alterações climáticas? 

A The Life You Can Save recomenda organizações sem fins lucrativos que trabalham com uma vasta gama de causas, geografias, e abordagens para criar impacto. Muitas das organizações sem fins lucrativos recomendadas pela The Life You Can Save trabalham em questões muito específicas. Isso torna mais fácil avaliar o seu impacto. Assim, as intervenções realizadas por estas organizações estão situadas numa gama de custos de 2 dólares por redes mosquiteiras anti-malária, 53 cêntimos [Br. centavos] por micronutrientes, ou 50 dólares por cirurgias de cataratas. Dito isto, a The Life You Can Save também recomenda organizações sem fins lucrativos que se dedicam a trabalhos difíceis de medir, tais como a defesa de políticas. Recomendamo-las porque o seu trabalho pode ter um impacto potencial de grande dimensão na ajuda a pessoas em pobreza extrema. 

As alterações climáticas são uma área de causa em que o impacto é difícil de medir e atribuir. Por exemplo, é um desafio quantificar o impacto de instituições de caridade de acção climática usando uma abordagem baseada em situações contrafactuais (o que seria um “grupo de controle” apropriado para o Planeta Terra?) ou métricas padrão como “número de vidas salvas”. Contudo, a crise climática exige que actuemos agora e o trabalho das instituições de caridade de acção climática pode potencialmente ser factor de mudança na pobreza extrema global. Estamos empenhados em identificar as organizações sem fins lucrativos mais eficazes no combate às alterações climáticas, utilizando métodos e métricas que forneçam formas alternativas de pensar acerca do impacto.

Para seleccionar recomendações eficazes sobre alterações climáticas, a The Life You Can Save recorre à investigação de avaliadores de organizações líderes em alterações climáticas que produzem guias práticos para combater as alterações climáticas, que são actualizados dinamicamente e baseados em provas. Estes avaliadores estão equipados para analisar em profundidade numerosas instituições de caridade sobre as alterações climáticas e estão constantemente a avaliar o trabalho que está a ser feito no mundo das alterações climáticas. Utilizámos as suas conclusões para informar a nossa lista de recomendações sobre alterações climáticas altamente impactantes e custo-eficazes. 

Nos EUA, a The Life You Can Save baseou-se na investigação existente através da Giving Green e da Founders Pledge para organizar cuidadosamente as nossas recomendações sobre alterações climáticas. 

Veja Aqui as Recomendações sobre Mudanças Climáticas dos EUA!

Na Austrália, a The Life You Can Save tem o prazer de partilhar o guia Giving Green, baseado em provas, para ajudar os doadores australianos a combater as alterações climáticas. A Giving Green é uma iniciativa da IDinsight, uma organização global de consultoria, análise de dados e investigação, com espírito de missão, que ajuda os líderes a maximizar o seu impacto social. Para criar o guia, a Giving Green analisou o espectro das organizações climáticas na Austrália, definiu uma estratégia para seleccionar organizações, determinou prioridades de investigação e conduziu uma investigação aprofundada de potenciais organizações a recomendar. Este ambicioso projecto de investigação foi financiado pela The Australian Ethical Foundation. 

Enviem-me um e-mail com o guia Giving Green Austrália

No futuro, esperamos continuar a fornecer recomendações climáticas mais eficazes através do nosso novo processo de avaliação interna. Pode saber mais sobre o nosso processo de avaliação interna aqui


Fontes: 

[1] IPCC, Summary for Policymakers in Climate Change 2021: A Base das Ciências Físicas. ↩︎

[2] IPCC, Glossário no Relatório Especial: Aquecimento Global de 1,5°C ↩︎

[3] ONU, O que são as alterações climáticas? ↩︎

[4] IPCC, Resumo para Decisores Políticos nas Alterações Climáticas 2021: A Base das Ciências Físicas. ↩︎

[5] Conselho dos Direitos Humanos das Nações Unidas, Alterações climáticas e pobreza: relatório do Relator Especial sobre Pobreza Extrema e Direitos Humanos ↩︎

[6] Banco Mundial, Pobreza e Prosperidade Partilhada 2020: Inversões da Fortuna ↩︎

[7] IPCC, Resumo para Decisores Políticos nas Alterações Climáticas 2014: Impactos, Adaptação e Vulnerabilidade ↩︎

[8] IPCC, Segurança Alimentar no Relatório Especial sobre Alterações Climáticas e Terra ↩︎

[9] Banco Mundial, Ondas de Choque: Gerir os Impactos das Alterações Climáticas na Pobreza ↩︎

[10] Organização Meteorológica Mundial, Estado do Clima em África 2019 ↩︎

[11] Banco Mundial, Ondas de Choque: Gerir os Impactos das Alterações Climáticas na Pobreza ↩︎

[12] OMS, Alterações climáticas e saúde ↩︎

[13] Banco Mundial, Ondas de Choque: Gerir os Impactos das Alterações Climáticas na Pobreza ↩︎

[14] UNFCCC, Alterações Climáticas são uma Ameaça Crescente para África ↩︎

[15] Documento conjunto apresentado na Oitava Conferência dos Partidos da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas, Pobreza e Alterações Climáticas: Reduzir a Vulnerabilidade dos Pobres através da Adaptação ↩︎

[16], [17] Banco Mundial, Ondas de Choque: Gerir os Impactos das Alterações Climáticas na Pobreza ↩︎ ↩︎

[18] COP26 Climate Brief, Adaptação e Resiliência: Uma Prioridade para o Desenvolvimento e a Redução da Pobreza ↩︎

[19] Banco Mundial, Ondas de Choque: Gerir os Impactos das Alterações Climáticas na Pobreza ↩︎

[20] Banco Mundial, Pobreza e Prosperidade Partilhada 2020: Inversões da Fortuna ↩︎

[21] Banco Mundial, Ondas de Choque: Gerir os Impactos das Alterações Climáticas na Pobreza ↩︎


Publicado originalmente por Anam Vadgama no blog da The Life You Can Save, a 6 de Dezembro de 2021.

Tradução de Rosa Costa e José Oliveira.

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